A Última Estação, ou os últimos dias do complicado Tolstoi

por max 11. janeiro 2012 03:21

 

Falar de León Tolstoi é algo bem difícil. Tolstoi era um homem complexo em tempos complexos. Seus anos foram os anos da ebulição dos pensamentos utopistas, socialistas, marxistas, anarquistas, coletivistas, todos argumentos organizadores do mundo da modernidade que nos levavam a acreditar no futuro, esperança, luz, ciência e razão. Daquela Rússia mergulhada no czarismo feudal surgiu a primeira revolução de 1905, guiada pelo inconformismo generalizado das pessoas e por todas as ideias libertárias reinantes da intelectualidade contra a autocracia czarista. Tolstoi, de origem nobre, cresceu com privilégios que alguém de sua classe poderia ter. Em sua juventude, usufruiu de uma vida dissoluta, se entregou também ao levar do destino, foi oficial na guerra, mas logo começou a derivar pelas preocupações sociais da época. Como todo filho de proprietário de terras esteve ligado ao campo, e ali estavam também as lembranças de sua infância que se configuraram como sua tábua de salvação, pra onde voltava seu olhar de escritor, mas também de redentor do homem espiritual que buscava resgatar o camponês da obscuridade, pivô fundamental de muitos pensadores do final do século XIX e início do XX. Na Russa czarista desse interstício, as mudanças na área econômica e cultural tinham começado. O político e o social seguiam no mesmo lugar, trabalhando em favor dos mais poderosos. Mas essa nova visão do mundo, que traía a modernidade, com seus argumentos científicos e racionais, deixada de um lado o pensamento religioso e monárquico que imperava e que fazia o jogo de conveniências para uma minoria. Não sem motivos: a igreja e a monarquia tinham se imposto durante séculos, haviam ditado as regras do mundo tendo como base a fé, a fé irracional (e não digo de forma pejorativa; sim existe algo realmente irracional na fé). León Tolstoi, nesse sentido, nunca encaixou-se completamente nos postulados dessa modernidade; tinha uma profunda fixação religiosa - vinda do monárquico - que se estendeu por seu pensamento social, ainda que, não creio que seja correto considerar que fosse um socialista cristão. Nele, homem complexo, inteligente, profundo e não dogmático, também existe aquele que respeita as ideias alheias, no qual se mobilizavam diversas correntes de ideias. Havia em Tolstoi muito de bondade e coletivismo cristão e possivelmente também de Proudhon, Fourier e do conde de Saint-Simon, entre outros. Também não esteve totalmente cercado e unido aos ideais marxistas, não somente por seu sentimento religioso, mas também porque para ele era importante a resistência pacífica, inspirada em grande parte pelo mesmo cristianismo e por Thoreau e sua resistência civil. Melhor explicou o próprio Lênin em um artigo que publicou em 1908 em O Proletariado. Uma parte do artigo, intitulado "Tolstoi, espelho da revolução russa", diz assim:

 

"As contradições nas obras, nas ideias, nas teorias, na escola de Tolstoi, são verdadeiramente flagrantes. De um lado, é um artista genial, que não somente produziu telas incomparáveis da vida russa, mas também obras de primeira ordem na literatura mundial. De outro, é um filho de proprietário de terras possuído pelo fanatismo do cristianismo (...) Aqui, uma crítica implacável da exploração capitalista, a denúncia das brutalidades do governo, dessa comédia que são a justiça e a administração pública, uma análise de todas as profundas contradições entre o aumento das riquezas e as conquistas da civilização e o aumento da miséria, o embrutecimento e as penalidades das massas operárias; além disso, o sermão fanático do "não opor-se" através da violência "ao mal"."

 

Evidentemente, Lênin punha o dedo em suas chagas revolucionárias, joagava na cara, atacava o defunto e a seus seguidores, mas ao mesmo tempo louvava; Tolstoi nunca foi totalmente do grupo dos que Lênin considerava os bons, pelas razões que já expusemos e pelas mesmas que Lênin assinalava.

Tolstoi era, sem dúvida, um homem de múltiplas visões, poderíamos dizer inclusive que de contradições. Ao mesmo tempo que projetava todas suas forças para falar do camponês russo e alinhava sua vida por esses caminhos naquele supremo esforço de passar a maior parte do tempo entre os trabalhadores do campo, também era sapateiro e voltado a educar crianças pobres, e o vemos também casado com Sofia Behrs, nobre russa, mulher acomodada mas não displicente, que esteve muitos anos junto àquele homem teimoso e sonhador, que, temerário e um tanto egoísta, se lançava em sua arte, em suas obsessões, em seus projetos. Ela, abnegada, sempre se ocupou das finanças do marido, de cuidar dele enquanto ele se entregava às suas fantasias. Diz-se que ela copiou sete vezes o manuscrito de Guerra e Paz, sempre preocupada com as correções da obra. Conhecedora da importância de seu marido, o fotografou em repetidas ocasiões e escreveu um diário onde documentou cada instante de sua vida. Sempre esteve ali, ao seu lado, cuidando de seus filhos e do lar, onde ele apenas ia para dormir, envergonhado de ter aquela espécie de vida dupla entre seu dever com o camponês e a opulência burguesa. Aquele conflito viveu em Tolstoi durante toda sua vida, mas sobretudo nos últimos anos.

Filmes como A Última Estação (2009), que você poderá ver este mês no Max, nos mostram aquele momento crítico no qual Tolstoi, já de idade avançada, sente cada vez mais uma imperiosa necessidade de deixar todos os seus bens materiais, de renunciar a seu título de nobreza e doar todos os direitos ao povo, ou para esse mito que, para ele, era o povo.

Sob a direção de Michael Hoffman (O Outro Lado da Nobreza/ Restoration), Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti encarnam os três personagens principais dessa história dramática baseada em fatos históricos. Mirren, no papel da esposa, Plummer como escritor russo, e Giamatti como o homem possivelmente responsável pelas últimas e radicais decisões do grande homem. Trata-se de um filme feito com delicadeza e precisão cenográfica que dá lugar às atuações soberbas destes três grandes intérpretes que são bem sucedidos ao reproduzir a paixão de seus personagens e comover o espectador. Nesse sentido, não podemos deixar de lado a interpretação também significativa de James McAvoy como o último ajudante e futuro biógrafo de Tolstoi, Valentim Bulgakov, que padece, com inocência e estofo moral, ao fogo cruzado da esposa e o conselheiro idealista.

A Última Estação nos apresenta aqueles últimos anos do escritor como uma luta por chegar a ser totalmente fiel aos princípios que são, se me permitem dizer, uma forma de amor. Porque, lá no fundo, o que movia Tolstoi era uma luta profunda entre dois amores: seu amor pelo mundo e seu amor a sua família, a sua mulher, a Sofia Behrs, personagem que também sofre e vive os sentimentos próprios e os de uma época de profundas mudanças para a história da humanidade na qual o 'amor pela razão' impunha-se/sobrepunha-se ao 'amor pelo amor'.

A Última Estação, nesta quarta-feira, 11 de janeiro, com reapresentação no sábado, dia 14, no Max.

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