Um filme inacabado, ou a mentira que mata

por max 5. abril 2011 03:46

 

Tudo começa com o olho. O olhar está sempre lá, um dos principais testemunhos da realidade. Hoje a guerra é ao vivo. Como um terremoto, um tsunami, quase em direto. Viajamos para a imagem, viajamos nas imagens. Somos olhos e totalizamos com os olhos. Acontece que a imagem também é uma estrutura convencional. Ela tem regras e depende de um contexto, de um sintagma, de outras imagens para completar os seus sentidos, para se tornar mais ou menos clara. A imagem, como a palavra é um signo. E os signos são uma torre de vigia instável, dependem de outros signos. A imagem, assim entendida, pode ser, obviamente, arte. Um engano consensual, onde, a fim de apreciá-lo, está suspensa por alguns momentos a incredulidade. Assim dizia Coleridge. Mas o que acontece quando o signo não é reconhecido desde o seu receptor ou advertido a partir do emissor como arte, porém como uma forma da realidade? A ilusão consciente da arte se perde e já não temos nem arte, nem consciência, acordos ou convênios. Depois vem a ilusão que não gosta da beleza, uma ilusão inquietante. Esta mentira absoluta, geralmente traz o triunfo do emissor por cima do receptor. Mais do que o sucesso, o controle, a possessão da mente do outro. A mentira é unidirecional, é um martelo, uma granada, um estilhaço. A mentira não quer uma resposta de volta. A mentira mata corpos e espíritos. Quem produz o engano da arte, pretende transmitir uma espécie de verdade através da beleza. Sua verdade interior, a verdade de seu mundo, sua compreensão da realidade. Pretende compartilhar as suas verdades, não impor nada. Pretende a confrontação das verdades do outro. Quem produz uma mentira, sabe que mente e que espalha mentiras. Ou talvez sim, talvez pense que está transmitindo as suas verdades. Mas, para ele, essas verdades são as únicas verdades e não pretende que sejam compartilhadas com ninguém, porém quer impô-las. Controlar com a mentira é a finalidade principal, o objetivo é prejudicar.

A Film Unfinished (2010) de Yael Hersonski fala sobre as perversões da mentira. Como até mesmo uma mentira que nunca foi totalmente montada, acabou causando muitos danos. Este é um documentário sobre um filme incompleto que os nazistas produziram para mostrar sua visão do que eram os judeus no Gueto de Varsóvia. Os rolos do filme incompleto foram encontrados depois da guerra e mostravam os dois lados da vida judaica: primeiro, a extrema pobreza de alguns e em segundo lugar, o bem-estar impassível dos mais afortunados. A idéia é clara: "Olhe, esse povo judeu é uma merda, enquanto alguns sofrem, outros, do seu próprio sangue, estão passando muito bem". Durante anos, este foi um argumento para qualquer delito, para qualquer justificação absurda. Então veio um rolo extra: o rolo que mostrou que era tudo encenado, coreografado pelos nazistas, uma mentira feita a partir do silêncio absoluto dos anos como uma grande verdade. Lá, em sua matéria-prima, a mentira jogou com os olhos por muitos anos. Hersonski pega este novo rolo revelador e o confronta com trabalhos anteriores, com testemunhos de sobreviventes, mesmo com um dos cinegrafistas e traz a verdade à luz. Que nem todo mundo é santo neste mundo? Que com certeza algum traidor impiedoso deve ter estado entre as vítimas? Bem, não duvido. Existe de tudo. Mas uma coisa é pensar nessas possibilidades, outra, a prova disso e, outra pensar que a grande maioria permaneceu indiferente à dor dos seus pares.

A Film Unfinished, quinta-feira 07 de abril. Descubra Max.

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