Para Roma Com Amor, o caos e a paixão em Roma vistos pelo grande Woody Allen

por max 24. abril 2014 04:13

 

Woody Allen vem trabalhando um ciclo europeu de filmes. Ponto Final - Match Point (Match Point, 2006), talvez o primeiro filme deste ciclo, foi na Inglaterra, Vicky Cristina Barcelona (2007) na Espanha, Meia-Noite Em Paris (Midnight in Paris, 2011) na França, e o mais recente, não sei dizer se será o último deste ciclo, Para Roma Com Amor (To Rome With Love, 2012) que, obviamente, acontece em Roma.

Cada filme destes reflete o espírito de cada país ou cidade: Ponto Final - Match Point é um thriller bem inglês, dado pelo ambiente de mistério e crime peculiar dos britânicos (podemos incluir dentro do ciclo Scoop: O Grande Furo - Scoop, 2006 - e O Sonho de Cassandra - Cassandra´s Dreams, 2007- para uma trilogia criminal inglesa); Vicky Cristina Barcelona explora a sensualidade das cores, o sexo, a paixão arrebatadora que se atribui ao sangue espanhol; Meia-Noite Em Paris nos faz mergulhar no encanto, na delícia, no fascínio e na elegância de todos os tempos de uma cidade como Paris e, Para Roma Com Amor, nos apresenta o caos, o ruído, a desordem, a alegria e a loucura de uma cidade como Roma. Não sem razão, o filme começa com um guarda de trânsito (o caos veicular é famoso em Roma) falando para a câmera, nos dizendo que ele tem histórias para nos contar. O que o guarda nos preparou (ou melhor, Allen nos preparou) é uma comédia romântica que envolve quatro histórias, inclusive Woody Allen é um dos atores (ele não atuava desde 2006 em Scoop: O Grande Furo).

Atrevo-me a dizer que, neste filme, o veterano cineasta volta a ser o velho Allen do absurdo, do humor puro e simples. Temos, por exemplo, um senhor italiano que canta ópera magnificamente, um gênio do canto, mas só no banho; ou seja, fora do banho, não canta nada. A solução? O diretor o coloca para cantar em um cenário que também... é um chuveiro. O Allen humorista radical também é revivido na figura de Leopoldo (Roberto Benigni), um personagem qualquer, como muitos, mas que certo dia, sem saber o porquê, alguém o transforma em uma pessoa muito famosa por ser, precisamente, um ninguém. Tem também um arquiteto, interpretado por Alec Baldwin, que percorrerá as ruas de Roma e se encontrará com Jack, um estudante de arquitetura que o admira e o reconhece (Jesse Eisenberg, mais lembrado como Mark Zuckerberg em A Rede Social - The Social Network), e que o convida para ir à sua casa para que conheça sua noiva. O incomum aqui é que John, o personagem interpretado por Baldwin, passará de um personagem muito real a uma voz da consciência – em carne e osso – de Jack, que ficará se aconselhando a todo momento com ele, que não é visto por mais ninguém, como se fosse um fantasma.

Claro, os conflitos amorosos, o tema preferido de Allen, estão presentes: haverá uma situação de uma esposa - porque ela, que veio do interior, se perdeu nas ruas de Roma – uma prostituta (interpretada por Penélope Cruz) e consequentes infidelidades; tem também um casal que termina o relacionamento por causa de uma amiga; esta amiga, vale dizer, é uma aspirante a atriz (Ellen Page, a garota de Menina Má.Com, Juno e A Origem) cheia de chavões da cultura e rápida como o vento. Ela, depois de se entregar às paixões mais profundas e ao amor mais verdadeiro – segundo ela, claro – deixará o pobre Jack (sim, o Jack que falamos acima) confuso e arrasado.

Para Roma Com Amor é uma comédia caótica, selvagem e suprema. Enquanto Meia-Noite em Paris foi um dos maiores sucessos de Allen nos últimos tempos, e Vicky Cristina Barcelona tem sua fila de fãs (infelizes), para mim Para Roma Com Amor é um de seus melhores filmes, o que mais resgatou o velho Allen que havia se perdido entre tantos conflitos de casais e tantas paisagens bonitas. Você não deve perder.

Para Roma Com Amor, estreia exclusiva domingo 27 de abril, no Max.

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Bem-vindo ao mundo, drama da guerra na Bósnia estrelado por Penélope Cruz

por max 13. março 2014 01:40

 

Penélope Cruz, a única atriz espanhola ganhadora de um Oscar, em seu caso, como o de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme de Woody Allen Vicky Cristina Barcelona (2009), estará conosco no Max, dentro do ciclo dedicado às mulheres voluntárias, fortes e rebeldes.

Atriz de reconhecido talento, Penélope Cruz é uma bela madrilena que estudou dança e conseguiu ser notada por seus papéis engraçados, sexys e também dramáticos nos filmes de Almodóvar. Desde o ano 2000 vem desenvolvendo uma carreira em Hollywood, atuando em filmes como Espírito Selvagem de Billy Bob Thornton com Matt Damon, Profissão de Risco de Ted Demme com Johnny Depp, ou Vanila Sky de Cameron Crowe, com Tom Cruise (com quem teve um relacionamento por um tempo). Mas, claro, sua grande oportunidade foi em Vicky Cristina Barcelona.

No entanto, a atriz nunca se desvinculou da Europa. De fato, Vanilla Sky, como você se lembrará, é um remake de Abra Os Olhos (Abre Los Ojos) filme de sucesso de Alejandro Amenábar. Assim temos Penélope, por exemplo, trabalhando com Almodóvar em 2009 em Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) e em 2004 com o cineasta italiano Sergio Castellitto em Não Se Mova (Non Ti Muovere), filme baseado em um roteiro da esposa de Castellitto, Margaret Mazzantini. Em Abraços Partidos, Castellitto tinha uma relação apaixonada com uma mulher de poucos recursos chamada Italia. Claro, Italia era Penélope Cruz. Em 2012, ela voltou a trabalhar com Castellitto e sua esposa em Bem-Vindo Ao Mundo (Venuto Al Mondo), filme apresentado este mês no Max dentro do ciclo de filmes dedicados à mulher.

Com roteiro de Margaret Mazzantini, Bem-Vindo Ao Mundo é também a história de um amor quase impossível que aconteceu entre o passado e a guerra. Gemma (Penélope Cruz) voltará ao lugar onde se apaixonou por Diego (Emile Hirsch), onde sofreram com a impossibilidade de terem um filho, onde finalmente tiveram um filho e onde, também, morreu Diego: estamos falando sobre a Bósnia, da Bósnia que temos acesso em dois momentos, a dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 e a do terrível conflito que teve início em 1992, resultado da queda da União Soviética e das aspirações libertárias da Bósnia-Herzegovina contra a República Socialista Federal da Iugoslávia.

Gemma volta com seu filho já adolescente (interpretado por Pietro Castellitto, filho do cineasta) e vai recordando a história de seu amor, que ao mesmo tempo é a história da guerra. Nessa memória se misturam o caos e o amor, e quem vai se aprofundando é Gemma, interpretada magnificamente por Penélope Cruz.

Bem-Vindo ao Mundo, este mês no Max.

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Woody Allen: Um Documentário, ou em confiança aos amigos

por max 23. dezembro 2013 05:44

 

Woody Allen: Um Documentário (2012) não é qualquer coisa. Sabemos como Allen é zeloso em relação à sua vida particular (apesar de que mais de uma história tenha vazado), que se manteve longe das luzes do circo e que também se negou a assistir as premiações do Oscar, onde foi ganhador em quatro oportunidades. E assim Robert Weide, o diretor deste documentário, tem uma conquista a considerar, pois, graças a ele, podemos acompanhar um ano e meio de vida, de trabalho e criação de um dos sujeitos mais cultuados do cinema mundial. Weide, cabe dizer, não é qualquer diretor. Weide se movimenta no campo da comédia e entre os grandes. No início de sua carreira, em 1982, escreveu o roteiro para um documentário sobre os irmãos Marx, e em 1998 dirigiu um documentário que foi indicado ao Oscar (1999) sobre a vida do grande Lenny Bruce; estamos falando do documentário Lenny Bruce: Swear to Tell the Truth. Weide também trabalhou durante anos com Larry David dirigindo episódios de Segura a Onda (Curb Your Enthusiasm). David e Allen se respeitam e até trabalharam juntos em um filme de Allen, Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009). Portanto, não é de se estranhar que, com Weide, Allen concordou em quebrar o silêncio de sua vida particular tão protegida e até aceitou que uma câmera o seguisse durante um ano e meio. Mas, tal como eu disse, o trabalho abrange não só o presente, mas também faz um tour completo pela vida daquele que podemos qualificar como um dos últimos autores do cinema de autor. O documentário aborda desde sua adolescência, seu trabalho como escritor de comédia, seus anos como comediante de standup, suas primeiras atuações, suas primeiras incursões em direção e todo o trabalho que o fez ser um diretor que realizou, quase sem parar, um filme por ano por mais de quarenta anos. O documentário também nos mostra seus hábitos de escritura, suas ideias sobre direção e sua relação (sempre inclinada para o cômico) com os atores.

As relações sentimentais, o sexo, a neurose urbana, o medo da morte, todos os temas de Allen são abordados no trabalho de Weide. E, claro, não pode faltar o jazz, sua antiga máquina de escrever (comprada em 1952 e que ainda é utilizada) e, mais, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Sean Penn, Martin Landau, Josh Brolin, Penélope Cruz, John Cusack, Scarlett Johansson e Larry David, entre outros.

Woody Allen: Um Documentário, terça 24 de dezembro.

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A Vida Durante a Guerra, ou a triste sátira dez anos depois

por max 19. abril 2013 07:48

 

Um ano antes do lançamento de Beleza Americana (American Beauty – 1999), um outro filme mostrava as obscuridades de uma família norte-americana dos subúrbios passeou por festivais de cinema e depois pelas salas especializadas com boa repercussão, seu título era Felicidade (Happiness). Seu diretor, Tood Solondz, fez uma história, uma "comédia", também familiar, também dos subúrbios, mas arrancou a cabeça de todas as bonecas. Aquele filme, de feliz não tinha nada. Ao contrário, a desgraça, a solidão, a neurose, a pedofilia, a infelicidade em geral, ocupavam cada segundo daquele trabalho que não era, sem dúvida, para qualquer um. Solondz demonstrou mais uma vez que não era um docinho. Fez o mesmo com Bem-Vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse - 1995) outra comédia (sempre a partir da perspectiva do diretor) também muito brutal sobre uma menina, como tantas outras, que sofre abusos na escola e em casa. Este segundo filme de Solondz foi sucesso absoluto em Sundance e ganhou o Grande Prêmio do Júri; E Felicidade (Happiness), recebeu o prêmio dos críticos em Cannes. Em 1998, Solondz já havia se tornado um animal de festivais, um guru do cinema independente. Estes anos, os 90, foram os de furor do – chamado novo – cinema independente norte-americano, algo como um cinema de autor realizado por jovens, carregados da rudeza cool dos tempos pós-modernos, e que teve sua principal e mais calorosa mostra no festival de Sundance.

O fato é que Solondz havia conquistado seu espaço como diretor inteligente e mordaz. Era, como costumam se referir aos novatos, uma promessa. Mas Solondz não se deixou levar, não foi afetado pelo sucesso. Nem saiu correndo para fazer mais filmes. Seguiu no seu próprio ritmo. Daquele momento até 2011, dirigiu quatro longas, mas - quatro comédias, melhor dizer sátiras – que mantiveram o espírito crítico diante da sociedade norte-americana. Em 2001 lançou Histórias Proibidas (Storytelling), feito em dois capítulos ("ficção", e "não ficção"). O capítulo "Ficção" mostra a vida de um escritor ganhador do Pulitzer e que usa seu prêmio para conquistar alunas, e no "Não Ficção", mostra a gravação de um documentário sobre estudantes e seus familiares durante o processo do vestibular. Em 2004 lançou Palíndromos (Palindromes), um filme que, no início, se liga a Bem-vindos à Casa de Bonecas (Wellcome to the Dollhouse), para depois seguir seus próprios caminhos, uma história onde uma garota – novamente uma garota – vai da gravidez ao aborto, e também vai de seu amante caminhoneiro à uma instituição que esconde um grupo de assassinos fanáticos disfarçados de médicos para praticarem abortos. Sem dúvida, Solondz seguia seus próprios caminhos da incorreção. Seu último filme, de 2011, foi Dark Horse. A expressão "dark horse" tem o mesmo sentido que a expressão "ovelha negra". Nesta história tem duas ovelhas negras: Abe (Jordan Gelber) e Miranda (Selma Blair). Ele é um gordo ao estilo de George Constanza (lembra de Jason Alexander em Seinfield?) que coleciona bonecas e ainda vive em seu quarto da infância; ela, portadora de hepatite B, também volta a viver na casa de sua mãe após romper um relacionamento com um árabe. E por aí vai. Como se vê, Solondz tem seu próprio universo, seus temas, seus personagens já característicos. E isto fica ainda mais evidente em seu penúltimo trabalho. A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime - 2009), um filme que parte das três irmãs que originalmente aparecem em Felicidade, para assim compor três histórias "femininas". De certa forma, A Vida Durante a Guerra lembra que, uma vez, Solondz seguiu os passos de Woody Allen (seu primeiro trabalho Fear, Anxiety & Depression – 1989, tem fortes marcas de Allen). A Vida Durante a Guerra também retoma Bill, o pedófilo de Felicidade, desta vez fora da prisão e em busca de redenção familiar. O papel originalmente interpretado por Dylan Baker, passa neste filme para Ciarán Hinds, de quem lembramos com mais clareza como o magnífico Julio César da série Roma, da HBO. No entanto, o que em Felicidade era uma sátira cruel de obscura luz, em A Vida Durante a Guerra ganhou um tom de comédia melancólica e nebulosa que não deixa de remeter a um filme rodado logo depois dos atentados de 11 de Setembro. A visão destas mulheres e destas famílias fica diferente porque parece que assim é o que pensa o diretor, que estamos em um país agora diferente. Fica claro que Solondz não está fazendo uma sequência ao estilo de Hollywood. Ele está contando seu mundo, o que é diferente de fazer uma sequência de Guerra nas Estrelas (Star Wars), e a este mundo, nesses tempos, se agrega a melancolia de um país que sofreu um duro golpe. No entanto, os temas de Solondz estão ali: pedofilia, estupro, homossexualidade, perdão, família, adolescência e maturidade, mas com tom mais político e ao mesmo tempo mais triste. Tudo, dez anos depois, sempre é mais triste.

A Vida Durante a Guerra, domingo 21 de abril. Cinema de autor, sátira, a sociedade contemporânea, crueldade. O que você vê quando vê o Max?

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O Abrigo, ou o fim dos refúgios

por max 18. janeiro 2013 13:07

 

Lembra Dorothy, a pequena Dorothy de O Mágico de Oz? Ela vivia no Kansas, em uma área tracejada por tornados. A pequena órfã tinha um mascote, que se chamava Totó, e um casal de tios sitiantes que não estavam em uma situação muito boa. O mundo de Dorothy era cinza, desolador. «Quando Dorothy saía pela porta e olhava ao redor não via outra coisa a não ser a imensa pradaria cinza. Não havia uma só árvore ou casa que alterasse a ampla chapada que se estendia até o horizonte, em qualquer direção. O sol havia calcinado a terra arada, que era agora uma massa cinza cercada por pequenas fendas.» O livro de Lyman Frank Baum foi publicado em 1900. Eram tempos complicados nos Estados Unidos. Os fazendeiros estavam em crise, tinham grandes dívidas e nas fábricas reinava um capitalismo desmedido, que submetia as pessoas a muitas horas de trabalho. Bom lembrar que, em 1894, o general Jabob S. Coxey e um grupo de desempregados realizaram uma passeata para exigir a impressão de 500 milhões de dólares em notas verdes com a finalidade de gerar postos de trabalho para o povo.

Essa paisagem apresentada nas páginas do livro tem sua razão de ser. A tormenta também. Mas, além de ser certeza que na região do Meio Oeste norte-americano, os tornados estão na ordem do dia, este fenômeno que arrasta tudo naquela região onde vive Dorothy e que também a leva ao País de Oz, é também uma metáfora do cenário caótico do início do século XX nos Estados Unidos. Naquela época, o Meio Oeste se configurava como a região mais industrializada do país. Hoje em dia, assim é. O Meio Oeste é constituído por estados como Illinois, Indiana, Iowa, Ohio, Dakota do Sul (onde viveu Lyam Frank Baum, durante um tempo), Kansas e Nebraska, entre outros. Não é de se estranhar que este livro infantil tenha conotações profundamente políticas. Tampouco é impensável entrelaçar O Mágico de Oz e O Abrigo (Take Shelter, 2011), o segundo filme de Jeff Nichols, um tipo de história contemporânea de Oz, na qual um refúgio anti-tormentas se transforma na imagem central deste thriller que se pode chamar de independente e de autor.

De volta ao livro de Lyam Fran Baum por um momento. Na casa dos tios de Dorothy «não havia nem sótão nem porão, somente um poço cavado no solo, chamado "o sótão dos ciclones", no qual a família poderia se refugiar, caso algum desses potentes redemoinhos chegasse», No filme de Nichols, o refúgio anti-ciclone é a obsessão central de Curtis (Michael Shannon), um trabalhador de Ohio com uma filha surda-muda e com uma situação econômica estável, mas não ótima. Certo dia, Curtis começa a ter visões e sonhos apocalípticos. Pressente que o mundo vai chegar ao fim, e começa a trabalhar num refúgio, tomando emprestado de onde não deve e dedicando à tarefa mais tempo do que o necessário. Curtis acaba perdendo seu trabalho e sua estabilidade mental, sanidade que, além disso, é defeituosa por herança. Assim, com um estilo de direção muito autoral, com muito do cinema sem pressões hollywoodianas. Nichols vai construindo, com silêncios, tensões e delicadeza, uma história carregada de eletricidade, de dentes cerrados mas ao mesmo tempo profundamente dramática.

A aparição prematura do estigma da doença mental oposta à visão premonitória é perfeita para que a estrutura narrativa se mantenha na dúvida e no suspense próprio do gênero fantástico, essa área onde as palavras e as imagens atravessam uma parede imprecisa e nebulosa. Este suspense também segue perfeitamente apoiado pela soberba atuação de Michael Shannon, vibrante em seu semblante arrasado, calado em sua difícil leitura, sempre deixando uma sensação de bomba humana. E assim não se consegue saber se as visões de Curtis são reais e nem se a doença mental é a causa disso tudo. Essa ambiguidade mantém em dúvida: Curtis, em algum momento, machucará sua própria família? Ele será possuído completamente pela loucura alucinatória? O refúgio, assim como se entende, é talvez sua fuga do mundo. O problema é que, nessa fuga, o personagem também quer arrastar junto toda a família. Ali, nesse buraco, Curtis poderá se isolar do mundo, mas não de si mesmo, não dos entes queridos.

A doença, como o tornado, é também uma metáfora: os seres humanos estão doentes, estão condenados, tendo se machucado demasiadamente, uns aos outros. O país onde Nichols vive, Estados Unidos, está em crise financeira, humana. Mas não somente o país, o mundo inteiro está em crise. Nada do que se tem tentado funcionou, o ser humano está condenado ao sucesso de poucos, ao fracasso de muitos. Não existe remédio, não dá para voltar atrás, o fim do mundo é iminente. O país de Oz em O Refúgio não existe e, aqui e ali, restam o momento do refúgio durante o tornado e suas semelhanças com o livro de Lyam Frank Baum.

Não há refúgio para onde ir, não há outro país para onde correr e se esconder até que as coisas melhorem. Porque não se trata do mal que existe lá fora, mas sim do mal que cada um carrega dentro de si. A catástrofe final é a catástrofe espiritual do homem. Sua alma é seu apocalipse particular.

O Abrigo, neste domingo, 20 de janeiro. Tornados, visões, loucura, cinema de primeira. O que você vê, quando vê o Max?

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A Vida Durante a Guerra, ou a tristeza dez anos depois

por max 18. janeiro 2013 12:03

 

Um ano antes de Beleza Americana (American Beauty, 1999), as obscuridades de uma família americana do subúrbio por Sam Mendes, esteve passeando por festivais e depois por salas especializadas com bastante sucesso uma produção chamada Felicidade (Happiness). Todd Solondz, seu diretor, havia feito uma história também sobre família, também do subúrbio, mas não tinha deixado um só boneco com cabeça neste filme cruel, que tratava de um tema tão escabroso quanto o da pedofilia. Claro que não era um filme para todo mundo. Solondz demonstrava mais uma vez que não era um docinho. Tinha feito o mesmo com Bem-vindo à Casa das Bonecas (Welcome to the Dollhouse, 1995), história também muito brutal sobre uma menina como tantas outras que padece de maus trato na aula e em casa. Este filme de Solondz foi um sucesso absoluto em Sundance e levou o grande prêmio do júri. Já Felicidade recebeu o prêmio dos críticos em Cannes. Solondz, já em 1998, havia se tornado um animal de festivais, um guru do cinema independente. Estes anos, os 90, eram os do furor desse – chamado novo – cinema independente, algo assim como um cinema de autor feito por gente jovem, carregado da rudez cool dos tempos pós-modernos, e que tinha sua principal e mais fervente mostra no festival de Sundance.

O fato é que Solondz havia conquistado seu lugar como diretor inteligente e mordaz. Era, como costumam se referir aos novatos, uma promessa. Mas Solondz não se deixou levar, não foi afetado pela afetação. Nem tampouco saiu correndo para fazer mais filmes. Seguiu seu próprio ritmo. Daquele momento até 2011, dirigiu longas que mantiveram o espírito crítico diante da sociedade americana. De 2001 é Histórias Proibidas (Storytelling), feito em dois capítulos («Ficção» e «Não Ficção»). O capítulo «Ficção» mostra a vida de um escritor ganhador do Pulitzer, um fracassado que usa o prêmio para conquistar alunas. «Não Ficção» traz as filmagens de um documentário sobre um estudante e seus familiares durante o processo de inscrição para a universidade. De 2004 é Palindrome que, no início, se liga à Bem-vindo à Casa das Bonecas, para depois seguir seus próprios caminhos: história de uma garota – de novo, uma garota – que vai da gravidez ao aborto, e de um amante caminhoneiro à uma instituição que esconde fanáticos assassinos de médicos que fazem abortos. Sem dúvida, Solondz seguia por seus próprios caminhos da incorreção. Seu filme mais recente é Dark Horse (2011). A expressão dark horse pode ser traduzida como ovelha negra. Nesta história há duas ovelhas negras: Abe (Jordan Gelber) e Miranda (Selma Blair). Ele é um gordo que coleciona coisas dos Simpsons, ela tem hepatite B. E por aí vai.

Como se vê, Solondz tem seu próprio universo, seus temas, seus personagens já característicos. Isso fica ainda mais evidente em A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime, 2009), seu penúltimo trabalho. O filme parte de três irmãs que originalmente aparecem em Felicidade, para assim inventar três histórias «femininas». De certa forma, A Vida Durante a Guerra nos lembra que o diretor, certa vez, seguiu os passos de Woody Allen (Fear, Anxiety & Depression (1989), seu filme de estreia, tem fortes marcas de Allen). A Vida Durante a Guerra também retoma Bill, o pedófilo de Felicidade, desta vez já fora da prisão e em busca de redenção familiar. O papel originalmente interpretado por Dylan Baker, passa neste filme para Ciarán Hinds, o magnífico Júlio César de Roma, série da HBO. O que em Felicidade era obscura luz, ganhou aqui um tom de comédia melancólica que não deixa de remeter a um filme rodado logo depois dos atentados de 11 de Setembro. A visão destas mulheres e destas famílias fica diferente porque parece que assim é o que pensa o diretor, que estamos em um país agora diferente. Fica claro que Solondz não está fazendo uma sequência aoestilo Hollywood. Ele está contando seu mundo, o que é diferente de fazer uma sequência de Star Wars. E a este mundo, nesses tempos, se agrega a melancolia de um país que sofreu um duro golpe. Os temas de Solondz estão ali: pedofilia, violação, homossexualidade, perdão, família, adolescência e maturidade, mas com tom mais político e ao mesmo tempo mais triste. Tudo, dez anos depois, sempre é mais triste.

A Vida Durante a Guerra, neste sábado, 19 de janeiro. Irreverência, crítica à sociedade. O que você vê, quando vê o Max?

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Potiche – Esposa Troféu, ou as mulheres e Ozon

por max 7. dezembro 2012 11:58

 

François Ozon é o Pedro Almodóvar dos franceses. Ok? Bom, talvez sejam bem semelhantes. Também pode se dizer que Almodóvar é o Ozon dos espanhóis, o que pode até parecer sexy para alguns. Melhor, não é?!

A verdade é que Ozon adora fazer filmes com mulheres, nos quais elas são más, boas, as heroínas absolutas. Defensor da causa da mulher, Ozon escreve e dirige seus filmes repletos de crítica social, de burguesia ambiciosa e desenfreada, e de mulheres em situações extremas e delirantes, que em momentos podem se mostrar terríveis, como Perséfone, mas também como as protagonistas absolutas, as lutadoras, as braços fortes do intenso drama ou da comédia "leve".

Este mês, o Max apresenta Potiche – Esposa Troféu (Potiche, 2010), uma claríssima mostra deste aspecto da cinematografia de Ozon. Potiche, palavra que designa um enfeite de casa caro, é também metáfora para esposa bonita, mas inútil que decora o lar de um marido próspero. Aqui é Catherine Deneuve, no papel da senhora Pujol, o "vaso" mais que adorado do dono de uma fábrica de guarda-chuvas, que, de um dia para o outro, é atacado pelos empregados, que o sequestram. O marido da personagem de Deneuve, vale dizer, é um tirano, um desalmado, que, no entanto, tem coração, pois teve problemas no coração durante o seu sequestro. É por isso que a senhora Pujol terá que tomar as rédeas do negócio. O senhor Pujol pensa que a inútil será uma boneca perfeita enquanto ele se recupera. E o que acontece? A inútil acaba sendo uma maravilha de gerente que soluciona o conflito trabalhista, se torna querida e respeitada, e, além disso, volta a encontrar o amor - um ex-amante que agora é político conhecido, interpretado por Gérard Depardieu. Mas ela, é preciso ser dito, não faz tudo isso com o furor de uma feminista agressiva; continua elegante, charmosa, maravilhosa em sua posição de líder. Por que perder uma coisa em detrimento da outra?

É uma comédia, sim, mas não uma comédia qualquer. É uma comédia de François Ozon, perspicaz, inteligente, estridente e, além disso, carregada de cores e imaginário kitsch, pois é ambientada nos anos 70, época de cortes fortes e fortes enfrentamentos libertários e ideológicos, a mesma época em que se situa a peça de teatro na qual está baseado o filme. Comédia leve, sim, mas, ao mesmo tempo, certeira e crítica. Igualmente emocionante, agradável e interpretada de forma magnífica. Não é fácil fazer algo assim, perguntem a Woody Allen, que certamente lhes dirá que sim, é fácil. Ou perguntem para Almodóvar, que não sei o que dirá.

Potiche – Esposa Troféu, domingo, 23 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Woody Allen: A Documentary, ou a vida de uma lenda

por max 23. novembro 2012 06:32

 

No Max, já homenageamos Woody Allen, exibimos seus filmes, temos falado dele neste blog. Agora, dedicamos um documentário a ele. Woody Allen: A Documentary (2012) não é qualquer coisa. Já sabemos como o diretor é cuidadoso com sua vida particular (apesar de muita coisa ter vazado). Já sabemos como ele se manteve distante das luzes do circo e como, inclusive, negou-se a ir às cerimônias do Oscar, prêmio que ganhou quatro vezes. Assim sendo, o que fez Robert Weide, o diretor deste documentário, é um feito a considerar, pois graças a ele podemos percorrer um ano e meio da vida, trabalho, criação e também história de uma das pessoas mais cultuadas do cinema mundial. É preciso dizer que Weide não é um diretor qualquer. Weide transita no terreno da comédia e está entre os maiorais. No início do seu trabalho, em 1982, escreveu o roteiro para um documentário sobre os irmãos Marx e em 1998 dirigiu outro que foi indicado ao Oscar (1999), sobre a vida do grande Lenny Bruce; estamos falando do documentário Lenny Bruce: Swear to Tell the Truth. Weide também trabalhou durante anos com Larry David dirigindo episódios de Segura a Onda (Curb Your Enthusiasm). David e Allen se respeitam e trabalharam juntos inclusive em um filme de Allen que podemos ver no Max; refiro-me a Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009). Assim sendo, não é de se estranhar que com Weide, Allen tenha concordado em abrir a guarda de sua protegia vida particular e que tenha aceitado que uma câmera o seguisse durante um ano e meio. Mas, como já disse, o trabalho não só engloba o presente, mas também traça uma trajetória bem completa de toda a vida de quem poderíamos qualificar como um dos últimos autores do "cinema de autor". O documentário cobre desde sua adolescência, seu trabalho como escritor de comédia, seus anos como comediante de stand-up, suas primeiras atuações, suas primeiras incursões na direção e tudo aquilo que o levou a ser um diretor que tem realizado, quase sem parar, um filme por ano por mais de 40 anos. O documentário também nos mostra seus hábitos ao escrever, suas ideias sobre a direção e sua relação (sempre carregada de desconfiança com o showbiz) com os atores.

Suas relações de casado, o sexo, a neurose urbana, o medo da morte, todos os temas de Allen estão citados no trabalho de Weide de alguma maneira. Evidentemente não pode faltar o jazz, sua antiga máquina de escrever (comprada em 1952 e ainda hoje em uso) e, claro, Diane Keaton, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Sean Penn, Martin Landau, Josh Brolin, Penélope Cruz, John Cusack, Scarlett Johansson e Larry David, entre outros.

Woody Allen: A Documentary, domingo, 25 de novembro.

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Bancos de Praça, ou A Solidão Coral

por max 26. julho 2012 12:32

 

Em 2005, o cineasta francês Bruno Podalydès deixou de lado as produções de comédia de mistério sob a tutela literária de Gastón Leroux e seu pesquisador Rouletabille (Le mystère de la chambre jaune e Le parfum de la dame en noir), para embarcar na direção de um dos fragmentos de Paris te Amo (París, je t´aime), filme centrado em explorar diferentes histórias de amor em vários bairros de Paris. Estimulado pela experiência e seguindo, talvez, os caminhos do cinema coral de Claude Lelouch na França, e de Robert Altman e Woody Allen na América (sem deixar de lembrar a polifonia na qual tanto vinha trabalhando o mexicano Alejandro González Iñarritu), Podalydès partiu para a direção de Bancos de Praça (Bancs publics [Versailles rive droite], 2009), filme coral que gira em torno de uma praça, seus bancos, os negócios e pessoas que frequentam a região. A beleza da praça, o banco, se transformam em uma metáfora de confrontação do homem com a solidão. Nada mais belo e mais solitário que uma praça. É o lugar que, dentro da cidade, está mais próximo da natureza e também é o lugar para fugir do barulho urbano. A praça é um refúgio que faz mergulhar em uma solidão individual, por assim dizer, uma solidão que separa da solidão coletiva da cidade.

Bruno Podalydès e atores como Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni, Emmanuelle Devos, Catherine Deneuve, Michael Lonsdale, Julie Depardieu e Denis Podalydès, entre outros, incluindo o próprio diretor, trabalham o filme com delicadeza, ternura e humor, para oferecer uma visão da vida e seus pequenos ou grandes momentos de solidão e companhia.

Bancos de Praça, no sábado, 28 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Meia-noite em Paris, ou Woody Allen e a sabedoria incômoda

por max 13. abril 2012 12:52

 

"Nada melhor que o passado". Essa ideia sempre existirá, a da Era de Ouro, aquele tempo onde os homens eram inocentes e estavam mais cheios de vida, de ideais, de arte, de vontade de mudar o mundo. Sempre se sente saudade de um planeta onde tudo estava por ser descoberto. Em um sentido amplo, poderíamos dizer, um planeta onde havia amor, amor pela vida. As imagens iniciais de Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen, nos apresentam uma cidade bonita, fascinante, cheia de monumentos, de lugares que hoje em dia estão ali, mas que já foram cheios de outros significados. Paris, aos olhos da desilusão contemporânea, é um lugar que já era, um lugar que vive de suas glórias do passado. Gil (Owen Wilson), o personagem que caminha pelas ruas no filme Allen, é um bem sucedido roteirista de Hollywood que sente nostalgia, uma saudade de tempos melhores, que não gosta do mundo em que vive e cuja prometida (Rachel McAdams) acaba sendo uma serpente das mais venenosas. Gil, além disso, quer ser escritor, e está escrevendo um romance. Um romance sobre um homem que tem uma loja de antiguidades. O escritor se apresenta aqui como essa pessoa que hoje foge deste planeta, essa pessoa que inventa lugares para escapar.

Em Meia-noite em Paris, Woody Allen levou estas insatisfações existenciais a um outro nível, digamos que literalmente. A aflição, fixação por um tempo melhor se torna real, e Gil, que se sente fortemente atraído pelos anos 30 de Paris, passa a conhecer, em carne e osso, a chamada geração perdida dos escritores americanos (Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway), a mecenas e vanguardista Gertrude Stein (Kathy Bates) e alguns artistas europeus fundamentais como Picasso e Dalí (Adrien Brody). Também se encontra com uma belíssima grupie de arte chamada Adriana (Marion Cotillard) que, como ele, também gostaria de viver tempos melhores. Para ela, esses tempos são os da Belle Époque. Definitivamente, Allen nos diz que ninguém está feliz com a época que está vivendo. Ninguém, com sensibilidade, pode estar vivendo complemente neste mundo.

Agora, se por um lado, o veterano diretor nos apresenta um filme cheio de nostalgia, por outro, ele volta aos seus temas costumeiros: os problemas de casal, as certezas do amor, a infidelidade. Mas em Meia-noite em Paris, eles (os temas) não caem no vazio das decepções, no lado obscuro das coisas. Esta visão, causou ressentimento e fez com quem se lançassem sobre ele acusações de fatalismo. Sim, talvez os anos tenham a ver com isso, talvez seus grandes momentos criativos já tenham ficado para trás; isso é fato. Mas também acho que talvez, com o passar dos anos, Allen não ficou mais fatalista, mas mais sábio. Às vezes, a simplicidade da sabedoria desagrada as mentes intensas. Porque, de alguma maneira, a sabedoria poderia se voltar ao mesmo lugar de onde partiu: ao lugar da bem afortunada ignorância, da ignorância simples de todas as coisas. Allen, talvez sábio ao não saber nada do amor, expõe uma solução a essa inconformidade de estar no mundo. O verdadeiro está ali, nessa simples resposta que nos dá, ao final. Já Allen não faz perguntas, não questiona a vida através do fazer cinematográfico (o que, para muitos, é o grande valor da arte). Não o faz, porque já está em uma idade em que, talvez, possa dar-se ao luxo de oferecer algumas respostas. Esse atrevimento, essa simplicidade ao responder e também essa habilidade de jogar com os lugares comuns à beira do ridículo, faz com que alguns critiquem o diretor. Mas, amigos, Woody Allen já tem 77 anos. Aos 77 anos, uma pessoa pode dar-se ao luxo de fazer e dizer o que vier à cabeça, o que tiver vontade. E alguém como Woody Allen pode ter a desfaçatez de ter algumas respostas e de jogar com todos os lugares comuns do planeta e, ainda assim, fazer uma obra-prima do cinema.

Meia-noite em Paris, neste domingo, 15 de abril. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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