Minha Terra, África, ou tua terra não é tua terra

por max 30. novembro 2012 02:47

 

Minha Terra, África (White Material, 2009), de Claire Denis, é a obra de uma cineasta francesa que viveu na África e compreende profundamente a África e as relações dos países colonizados com seus colonizadores. De fato, parte de seu trabalho anterior reflete esse conhecimento. O filme que lhe deu fama, que a fez saltar de assistente de Costa-Gavras, Win Wenders e Jim Jarmusch a diretora indicada aos prêmios César, foi Chocolate (Chocolat, 1988), onde explora as lembranças de uma garota branca na atual República dos Camarões, recordações que incluem uma amizade com um homem da raça negra. Em Minha Terra, África temos essa visão da raça branca, por dentro. Uma visão que, como Desonra, de Coetzee, parte de um duro golpe contra a realidade do homem branco. Maria Vial (Isabelle Huppert) é uma mulher branca, proprietária de terras, que decide ficar em sua terra quando a guerra civil chega até ela. Herdeira dos primeiros colonizadores, ela vive neste país africano, que considera sua pátria. Ela está ali desde que nasceu, esse é seu lugar no mundo. Ir embora? Para onde? Ela não deixará sua terra, não irá para a França, um lugar ao qual não pertence. Mas o choque é duro e, evidentemente, ela também não pertence ao país onde nasceu. Agora, os outros, os da raça negra, aqueles com quem, talvez, compartilhou a vida em paz durante muito tempo, se rebelam contra ela. Ou, mais que rebelar-se, a temem, fogem dela. Ela é a mulher branca, ela é o inimigo que nunca foi. Maria se nega a aceitar a realidade? Não, mas ao invés disso, se recusa a deixar seu mundo. Pode-se culpar alguém por não querer exilar-se? Pode-se culpar alguém por não sentir-se culpado pelo mal que outros de sua própria raça semearam? E aqueles que são pela emancipação, que lutam pelos seus direitos, podemos perguntar se é certo agir como anjos exterminadores? É possível justificar as crianças da guerra? É possível justificar a crueldade contra o branco e até mesmo contra a própria raça?

Minha Terra, África não é um filme fácil, não procura agradar ninguém. É uma visão, uma história que vem de dentro, com conhecimento de causa, com as veias cheias de saudades, com a alma arrancada.

Minha Terra, África, neste domingo, 2 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Passione, ou viagem ao centro da música de Nápoles

por max 15. agosto 2012 08:17

 

O que há de maravilhoso em um documentário como Buena Vista Social Club (1999), de Ry Cooder e Wim Wenders, é que, ao vê-lo se compreende que, para aqueles músicos cubanos, a música é vital, um modo de vida, um modo de entender a existência. No final das contas, sem música, essa gente não existe. Quando vemos Passione (2010), documentário dirigido pelo ator John Turturro, que explora a música da cidade de Nápoles, compreendemos também que a música é vital para esses italianos. Turturro conta que, depois de realizar um filme naquela cidade (ele é de origem italiana, dos lados da Sicília), sentiu-se fortemente atraído por suas raízes e pela música. Depois de entrar em contato com o musicólogo Federico Vacalebre, Turturro ouviu milhares de canções e ficou com as que o comoveram. Ele não conhecia seus intérpretes e, conta o ator-diretor, se sentiu agradavelmente satisfeito ao comprovar que os artistas eram tão bons quanto suas canções.

Entre o sensual, o tradicional, o sincrético e o universal, John Turturro nos vai levando, ele mesmo com a câmera, como empresário protagonista, guia turístico e alucinado diletante, através dos lugares mais prosaicos (ruas pobres, paredes cheias de grafites) aos mais belos daquela cidade italiana, onde as canções estão representadas, onde se vive a música (Fausto Cigliano toca o violão;, diante do óleo Sete obras de caridade, de Caravaggio, na igreja Monte Pio da Misericórdia, por exemplo).

Surpreende e entusiasma ver como toda essa música que se dança e que canta o amor, a perda, a traição e o desejo, tem ecos da Espanha, da África, do Islã, e vai fundida, além disso, com o jazz, o hip-hop e outros gêneros contemporâneos. Aqui nomeio alguns: Misia, o tunisiano M´Barka ben Taleb, Sppakka-Neapolis 55, Fiorello e Massimo Ranieri, Angela Luce, Max Casella (lembram-se de Família Soprano?) e James Senese que, além disso, tem uma história fascinante sobre suas origens para contar e que faz referência à influência americana em Nápoles, durante a Segunda Guerra Mundial, período no qual Turturro se atém especialmente.

O que se chama de globalização não é nada além de uma tendência natural das relações humanas, que não aconteceu apenas quando alguém criou o termo, mas sim desde muito tempo antes, quando os homens, ao longo de todo o mundo, neste caso ao longo do Mediterrâneo, começaram a conectar-se entre si por causa de guerras, ou comércio, ou simplesmente para conhecer-se, por curiosidade, pelo simples contato humano. Passione demonstra que isto é assim, que não há nada puro e que dessas misturas, desses contatos profundos é de onde vem realmente a beleza das coisas, da música. No início do filme Turturro diz: "Há lugares aonde você vai uma vez e é suficiente... e há Nápoles".

Passione, uma aventura musical no centro da música napolitana e do mundo, domingo, 26 de agosto. Reinvente, imagine de novo. Descubra o Max.

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