Samson & Delilah, ou o poder do amor

por max 10. agosto 2011 04:12

 

Sansão e Dalila são dois nomes comuns em comunidades de aborígines australianos, especialmente no centro do país. O diretor Warwick Thornton usou esses nomes para o título de seu primeiro filme, Samson & Delilah, (2009) e também para desenhar seus personagens e não por puro acaso. Lá, nestes dois jovens amantes, indígenas e silenciosos, repousa metaforicamente, a história do colonialismo e da alienação. A influência dos colonizadores, sua religião, seu mundo, suas idéias, sua dominação sobre os aborígenes australianos se reflete lá. O peso desses poderes mata e subjuga as almas, torna-as mudas, inúteis, incapazes de rebelião. O cineasta simboliza a religião como um instrumento de dominação, mas também como elemento de salvação (como veremos). A partir do título, Warwick Thornton apresenta a idéia de alienação, de uma alienação que levou a esses personagens, alegorias talvez de uma comunidade mais ampla, o vício (Sansão cheira combustível ou petróleo para se drogar), e o silêncio cultural. Ambos os aspectos são projetados no filme: drogas e silêncio. Sansão e Dalila não falam, não podem falar. Ainda assim, a história é sobre eles, e fala por eles, para exibi-los. Mas mostra como são: uma marginalidade cultural, uma raça minoritária, que perdeu o seu território e a sua capacidade de decidir por eles mesmos. Não pode haver mais bocas fechadas neste filme. No entanto, Thornton, inteligentemente faz-los falar. Eles se comunicam com o público através dos sons da música, das suas ações, dos seus corpos, até mesmo da violência. Algo neles quer se libertar, e vemos isso através de seus corpos, e de suas ações. E algo neles termina, efetivamente sendo libertador, através da purificação. O mundo bate neles, são mesmo obrigados a fugir de suas comunidades, e a se establecer mal na cidade, entre os excluídos, prostitutas, criminosos. Na cidade, Sansão e Dalila fazem parte do conglomerado que é violento para si mesmo, não é protegido, não conhce nenhuma lei. Sansão e Dalila não são uma raça, não são uma etnia (palavra confortável que significa minoria), e estão no mesmo nível que qualquer escória social. Para eles, então não resta nada mais do que o amor. Mas não apenas o amor deles dois, porém o amor que purifica, o amor religioso. Paradoxalmente, o que Warwick Thornton critica é essa dominação e o abandono do poder que começou com a colonização, também recebe uma resposta, uma saída. O filme não é uma simples fábula maniqueísta. O que já foi, permanece, o que deve ser feito é tomar o que é verdadeiramente valioso na grande estrutura do poder. E o que é verdadeiramente valioso e a mensagem original; nada mais e nada menos que o amor como um ato de purificação. Da religião debemos ficar com o amor, e não com seus atos de violência. Não é a religião a que erra, porém os homens. A estrutura está lá para ajudar, basta limpar as camadas de sujeira e viver o que verdadeiramente salva. Assim, o amor entre Sansão e Dalila não é apenas para contar uma história bela e terrível, mas também para mostrar uma compreensão da sociedade que resgata um argumento que muitos consideram obsoleto e desacreditado excedente: o amor como uma ferramenta mística. Warwick Thornton apela ao futuro em um mundo onde o hedonismo, o individualismo áspero e um certo capitalismo cego parecem dominar. Apelando para este futuro contrasta o esgotamento da modernidade a uma estrutura muito antiga de pensamento: a religião, entendendo o religioso como uma atitude espiritual profunda, de renovação espiritual do homem.

Samson & Delilah, quinta-feira, 11 de agosto, na Max.

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