Mamma Gógó, ou a realidade continua do outro lado da arte

por max 2. abril 2012 12:13

 

Sempre há uma história por trás da própria história. Apenas vemos a superfície, a ponta do iceberg, desconhecemos a montanha de nervos que se esconde por baixo, submersa. Quando falamos das produções indicadas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro não imaginamos o trabalho que deram e os dias que seus realizadores tiveram para chegar àqueles resultados, e muito menos a odisseia e o calvário que viveram depois de terminadas. Quando se conclui um filme, a vida continua, isso sim é definitivo. Para Hollywood, é fácil (comparativamente) fazer um filme e continuar sem maiores problemas. Há muito dinheiro, muitos negócios rodando, o que permite seguir em frente. Mas pensemos, por exemplo, na Islândia. Islândia é um dos países mais prósperos do mundo, sim, mas não chega a um milhão de habitantes, nem sequer a meio milhão. Aquela ilha localizada no meio do nada, nunca apresentou grandes anseios cinematográficos. Fazer cinema na Islândia, digamos, não é comum. Isso não quer dizer que não se faça cinema por aqueles lados. Faz-se sim, mas pouco. Diretores como Rahn Gunnlaugsson, Hilmar Oddsson, Baltasar Kormákur, Dagur Kári ou Valdis Oskarsdóttir repercutem pelo país e fora dele, em nichos especializados. Sem dúvida, um dos mais conhecidos é Fridrik Thor Fridriksson, cujo filme Filhos da Natureza (Children of Nature, 1991) foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Para Fridrikisson, aquela indicação significou tudo. Absolutamente tudo. Talvez para os grandes diretores, os conhecidos, não ganhar uma indicação significa uma derrota. Mas no caso do diretor islandês, a indicação foi um triunfo, por si só. Havia investido todo o seu dinheiro e até mais, ou seja, se endividou para fazer este filme pequeno e maduro sobre a morte e a vida, sobre a natureza e o tempo. Em Hollywood, levar esta história para as telonas não seria nada. Para Fridrikisson, foi fundamental. Era seu segundo longa-metragem. O primeiro, depois de uma série de documentários, havia sido Skytturnar, finalizado em 1987, com uma duração de 78 minutos. Assim sendo, Filhos da Natureza era sua grande aposta, o filme que queria fazer, o filme que queria lançar ao mundo. Aquela possível (e depois efetiva) indicação ao Oscar significava um triunfo para ele. E não somente para ele, mas também para seu país. Naquele ano, Filhos da Natureza foi o único filme produzido na Islândia. A indicação trouxe orgulho e entusiasmo àqueles que queriam fazer cinema por lá.

Este momento foi tão importante na vida de Fridrikisson, que terminou virando um filme 19 anos depois. Mamma Gógó (2010) é a história do que há por trás da vida de um diretor assim que ele termina uma produção. Temos visto, sim, filmes sobre a realização e sobre seus processos, impossíveis ou possíveis. , de Fellini, é o exemplo mais clássico. Fridrikisson, ao invés disso, conta o que acontece depois. Assistimos aqui a história de um diretor que terminou um filme com as unhas e que descobre, ao final das filmagens, que a vida continua, com todo o peso da realidade, com todos os seus fracassos, seus problemas e dilemas. Ali temos a crise de um artista em confronto com a crise de sua mãe - ou melhor dizendo, um tipo de prisão para essa mãe. O que fazer com esta situação, um extremo, com uma mãe perdida em consequência do Alzheimer? O que fazer com os bens? O que fazer com as dívidas adquiridas pela arte? A realidade está lá fora, a realidade que continua, uma vez que um filme é realizado, uma vez que o artista tenha se doado inteiramente, e somente espera o grande momento ou a grande frustração. Enquanto isso, as coisas ao seu redor vão rodeando-o de dura matéria, empilhando pedras nas suas costas, impedindo-o de voar outra vez.

Mamma Gógó, este mês. O novo e o melhor do cinema independente... está no Max.

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Continua o ciclo Sensos de Humor com Estrada de Rei e A Mulher do Meu Amigo

por max 14. dezembro 2011 13:50

(John William Waterhouse, A Tale from Decameron, 1916)

 

E em dezembro, o Max continua explorando o sentido do que a vida tem de sem sentido, no ciclo Sensos de Humor. Para a sexta-feira, dia 16 e para a sexta-feira, dia 23, os filmes são os seguintes:

 

 

Estrada de Rei (Kóngavegur, 2010): Uma comédia amarga que se esquenta com o drama das frias terras da Islândia. Levados pelas mãos da cineasta Valdis Óskarsdóttir, entramos em um caminho descampado para caravanas, deprimente, arruinado e cheio de personagens patéticos, espantalhos que não chegam a ser totalmente divertidos nem totalmente detestáveis. A família, a paternidade, a memória, a fortuna são os temas centrais deste filme que retrata um mundo de fantasmas e sombras no meio da neve, do frio e da distante Islândia.

Estrada de Rei, nesta sexta-feira, 16 de dezembro.

 

 

A Mulher do Meu Amigo (2010): Inspirado em uma peça de teatro, de humor, de Domingos de Oliveira, o filme tem, certamente, o clima teatral, pois tudo transcorre em uma casa de campo, onde os personagens vão se fechar para não querer sair por um bom tempo. Como se fosse um Decameron ou O Anjo Exterminador de Buñuel, ao contrário, e como se tratasse de um A Morte do Demônio sem mortes nem livros diabólicos, os dois casais desta história se trancam (alguns saem e não voltam) para viver na nudez de suas obscuridades, como costuma acontecer em todos estes relatos de pessoas fechadas em algum lugar. Porém, todas essas obscuridades, segredos e desejos vão se mostrando de forma engraçada, divertida e muito bonita, pois seu diretor, Cláudio Torres, trabalhou durante anos em publicidade e essa estética cheia de preciosismo do publicitário se reflete tanto neste filme como em Redentor (2004), seu primeiro longa-metragem. Em Redentor, o tema social estava muito presente, enquanto que em A Mulher do Meu Amigo, ainda que a estética persista, a intenção muda, pois o mesmo Torres afirma que o que visa é entreter, fazer rir, oferecer um passatempo às pessoas. Ainda assim, sente-se que há certo elemento muito francês no que diz respeito a esse tratamento das relações de casais para criticar a sociedade burguesa. Vale destacar que Torres foi também diretor da série original da HBO, Mandrake, magnífica série inspirada no personagem de Rubem Fonseca, protagonizada por Marcos Palmeira (como Mandrake, claro), e que, não por acaso, protagoniza A Mulher do Meu Amigo. Palmeira repete o papel de advogado, pois tanto Mandrake como Thales exercem a mesma profissão. No caso de Thales, trata-se de um personagem bem sucedido que, já farto de seus negócios ilegais com seu sogro, decide deixar de trabalhar e ficar na casa de campo onde vai passar férias, com a esposa de seu amigo e os filhos dela. Mas não se assustem, os respectivos cônjuges nem se incomodam, e voltam de lá juntos e felizes da vida porque são amantes há dez anos. Aquela partida, obviamente, abre as portas para o romance... dos dois que acabam ficando. E assim a história começa.

A Mulher do Meu Amigo, na sexta-feira, 23 de dezembro, no Max.

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