Começa o ciclo Ícones do Cinema com o corpo de Raquel Welch

por max 5. novembro 2011 08:10

 

Quando se fala em cultura e contracultura, é preciso dizer as razões pelas quais Raquel Welch é um ícone cult. Eu vejo suas fotos e penso que não há mais nada a dizer. Chamavam-na de "o corpo". Ela era o corpo. E houve momento em que O Corpo deixou-se mostrar: na segunda parte dos anos 70; ali, em plena ebulição da segunda onda do feminismo.

Em 1953, havia sido traduzido para o inglês O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Em 1961, John F. Kennedy criou a Comissão Presidencial multidisciplinar sobre o status da mulher; o relatório encontrou discriminação em quase todos os aspectos da vida da mulher. Nesse mesmo ano, 60 cidades do país testemunharam os protestos de rua de milhares de mulheres contra as armas nucleares. Em 1963, Betty Friedan, a estudiosa e líder do movimento feminista norte-americano publicou o trabalho A Mística da Feminilidade, no qual criticava o papel feminino na sociedade e suas numerosas formas de alienação. Em 1966, Friedan fundou a NOW (National Organization for Women – Organização Nacional das Mulheres), um conjunto de grupos feministas distribuídos pelos Estados Unidos, que chegou a ter mais de 500 mil ativistas nos 50 estados. Eram os anos do feminismo radical, movimento que falava da luta de poderes, da derrocada do patriarcado e do novo equilíbrio social, onde a mulher teria um papel preponderante. Eram os anos do poder do amor, os anos do poder hippie. No mundo da moda, Mary Quant fazia da contracultura um negócio, comercializando roupas hippies de fábrica para os hippies. Twiggy, a modelo por excelência de Quant, era uma garota magra, mirrada, sem curvas, sem carnes. Twiggy era o novo modelo de beleza, uma beleza diferente, mais de acordo com as ideias de feminilidade que eram ressaltadas pelas representantes dos direitos civis das mulheres.

 

(Twiggy)

 

Twiggy era linda, a câmera a amava, mas NÃO tinha o corpo do desejo. De fato, em 1996, Twiggy foi nomeada como o rosto do ano pela publicação Daily Express na Inglaterra. O rosto, não o corpo. Por aqueles lados da Europa, também outra garota causava sensação, era Uschi Obermaier, uma modelo e atriz que chegou a ser considerada como o ícone sexual da geração de 1968. Podemos dizer que a deusa hippie da revolução sexual era magra e pequena, e seus seios, pequenos e infantis, foram idolatrados, fotografados frontalmente para revistas em várias ocasiões, para representar a nova beleza.

 

(Uschi)

Assim estavam as coisas com as mulheres naquele tempo; essa era a estética que a contracultura (sempre de mãos dadas com a cultura) buscava impor e impunha. E então, em 1966, é lançado nos Estados Unidos um filme onde os dinossauros e os homens conviviam em uma não muito feliz harmonia. Tratava-se de uma produção da companhia Hammer, uma nova versão de um sucesso dos anos 40. Um Milhão de Anos Antes de Cristo (One Million Year B.C.) é uma história de luta e sobrevivência, um filme bem simpático que teve grande sucesso em mostrar, num maiô do tempo das cavernas, a espetacular atriz que já havia feito um ou outro filme mas que, agora, com tão pouca roupa, deslumbrava a todos.

 

 

Estamos falando da jovem Raquel Welch, Loana no filme, uma mulher das cavernas guerreira, mas com um corpo que explodia em curvas, em carnes, em delícias. Raquel não era Twiggy, Raquel não era Uschi. Raquel era uma beleza completa, uma beleza absoluta; Raquel era o corpo. Todos os homens do planeta e todas as mulheres a queriam, a idolatravam, a desejavam, pregavam seu pôster na parede do quarto. Não importava quanto o feminismo gritava e criticava. Ela foi uma deusa, e como deusa estava investida de um poder supremo. Era superior ao macho, superior a qualquer patriarcado. Aquele produto cultural, no fundo, terminaria sendo, no meu modo de ver, uma magnífica expressão do que era a contracultura. Raquel Welch lembrava a todos, mas especialmente a todas, que o corpo também era parte da revolução, parte fundamental da mulher, e que não devia ser depreciado de maneira alguma. Talvez sem estar muito consciente do que fazia, Raquel Welch trouxe essa nova dimensão, esses novos significados para uma época convulsionada pelos desejos de liberação das mulheres. Ela, e seu corpo, estiveram ali para transmitir uma mensagem tão antiga quanto a própria humanidade.

 

 

Nesta segunda-feira, 7 de novembro, o Max começa um ciclo muito especial intitulado Ícones do Cinema, centrado em atores e diretores que deixaram sua marca na cultura e na contracultura da arte e do entretenimento. São 20 artistas em 20 filmes que você poder ver a partir desta segunda-feira, até 2 de dezembro. Woody Allen, Jack Nicholson, Stanley Kubrick, Divine, Daniel Day-Lewis, George Lucas, Martin Scorsese, Warren Beatty, Clint Eastwood, Al Pacino, Natalie Wood, Elizabeth Taylor, entre outros, estarão presentes no maravilhoso ciclo que começa com o corpo de Raquel Welch.

Lembre-se: Um Milhão de Anos Antes de Cristo dá início ao ciclo Ícones do Cinema. Nesta segunda-feira, 7 de novembro, no Max.

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