Of Snail and Men, ou a vida que está na mente

por max 25. julho 2013 07:39

    

No filme Of Snails and Men (Despre Oameni si melci, 2012) encontram-se diversas causas que ajudam a moldar esta comédia dirigida por Tudor Giurgiu. Por um lado, a queda do regime socialista romeno em 1989, que é a mesma coisa que falar do terrível governo de Nicolae Ceaușescu. Embora não seja exatamente esse o pano de fundo, pois o filme se passa três anos depois, e com a turnê de Michael Jackson muito presente. Os tempos mudaram, sem dúvida. O capitalismo chegou e o mundo novo é algo como um caminho que vai se formando à medida que progride. Os romenos não poderiam saber, haviam ficado fechados sobre si mesmos durante muito tempo. Tudo o que vinha de fora era novidade, muito irresistível.

Assim, em uma cidade desta Romênia pós-comunismo chega o mercado, o negócio, a liquidação de uma fábrica de automóveis para se transformar em outra coisa, supostamente em uma fábrica de escargots. Há crise, há, portanto, ameaça de fechar. Aqui nós encontramos outra referência importante: a literatura, que vem do título. Como em Ratos e Homens (Of Mice and Men) de Steinbeck, que nos coloca diante de uma situação econômica paupérrima e que faz os personagens da história agirem. Enquanto no romance, George Milton e Lennie Small se movem de um lugar a outro, agricultores derrotados pela Grande Depressão, no filme, os trabalhadores decidem lutar, vão comprar a fábrica. Em especial há Gica (Andi Vasluianu), que tem uma ideia genial para o grupo de trabalhadores. Gica propõe que todos vendam seu sêmen a um banco de sêmen, claro, e com o dinheiro comprem a fábrica. Aqui, o filme entra em outra de suas áreas de influência. Estamos diante de uma comédia onde um grupo de pessoas decide fazer algo fora do comum e que é simpático. Isto nos coloca contra a influência de filmes como Brassed Off (1996) de Mark Herman, Ou Tudo Ou Nada (The Full Monthy, 1997) de Peter Cattaneo ou Garotas do Calendário (Calendars Girls, 2003) de Nigel Cole. Uma comunidade unida, uma comunidade repentinamente alegre, a criatividade, o pensamento humano que, elevado para o bem, tudo realiza. Temos uma constante busca que transcende qualquer pensamento político, de qualquer coisa terrena ligada às leis de qualquer relato maior, como o capitalismo e o socialismo. Nos filmes desse estilo, o que se eleva é a criatividade, a capacidade humana para fazer que nossas mentes concebam ideias universais que nos enchem de orgulho e alegria. Assim, a metáfora perfeita para exemplificar esse poder, esta força que emana das alturas humanas, é o sêmen. E é assim, o sêmen é a imagem principal neste filme. Chevalier e Gheerbrant falam sobre o sêmen em seu Dicionário de símbolos (1991):

 

"Para Galeno, o sêmen vem do cérebro. Esta teoria foi disseminada na idade média. A medula espinhal vai do cérebro ao pênis e de lá vem o sêmen, segundo o que se lê no Bahir. O sêmen simboliza a potência da vida, e a vida humana não pode descender mais do que caracteriza o homem, o cérebro, a sede de suas faculdades."

 

Há, portanto, o símbolo do sêmen, a forte relação com o cérebro, a fonte da vida humana. Estes trabalhadores de Of Snails and Men se negam a morrer na miséria, porque deixar-se derrotar é como morrer, e eles, ao que parece, já estiveram mortos durante muito tempo por causa de um regime ditatorial que não os deixava usar suas mentes. Está vivo quem pensa, está vivo quem acredita. Os personagens desta comédia fresca e profunda não são simples caramujos enfiados em suas "conchas-cárceres-refúgios"; estes homens são homens, homens que estão vivos e lutam unidos com a melhor de todas as armas: a inteligência.

Of Snails and Men, sexta, 26 de julho. Cinema europeu, cinema de vanguarda, cinema profundamente humano. O que você vê quando vê o Max?

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