A Vida Durante a Guerra, ou a tristeza dez anos depois

por max 18. janeiro 2013 12:03

 

Um ano antes de Beleza Americana (American Beauty, 1999), as obscuridades de uma família americana do subúrbio por Sam Mendes, esteve passeando por festivais e depois por salas especializadas com bastante sucesso uma produção chamada Felicidade (Happiness). Todd Solondz, seu diretor, havia feito uma história também sobre família, também do subúrbio, mas não tinha deixado um só boneco com cabeça neste filme cruel, que tratava de um tema tão escabroso quanto o da pedofilia. Claro que não era um filme para todo mundo. Solondz demonstrava mais uma vez que não era um docinho. Tinha feito o mesmo com Bem-vindo à Casa das Bonecas (Welcome to the Dollhouse, 1995), história também muito brutal sobre uma menina como tantas outras que padece de maus trato na aula e em casa. Este filme de Solondz foi um sucesso absoluto em Sundance e levou o grande prêmio do júri. Já Felicidade recebeu o prêmio dos críticos em Cannes. Solondz, já em 1998, havia se tornado um animal de festivais, um guru do cinema independente. Estes anos, os 90, eram os do furor desse – chamado novo – cinema independente, algo assim como um cinema de autor feito por gente jovem, carregado da rudez cool dos tempos pós-modernos, e que tinha sua principal e mais fervente mostra no festival de Sundance.

O fato é que Solondz havia conquistado seu lugar como diretor inteligente e mordaz. Era, como costumam se referir aos novatos, uma promessa. Mas Solondz não se deixou levar, não foi afetado pela afetação. Nem tampouco saiu correndo para fazer mais filmes. Seguiu seu próprio ritmo. Daquele momento até 2011, dirigiu longas que mantiveram o espírito crítico diante da sociedade americana. De 2001 é Histórias Proibidas (Storytelling), feito em dois capítulos («Ficção» e «Não Ficção»). O capítulo «Ficção» mostra a vida de um escritor ganhador do Pulitzer, um fracassado que usa o prêmio para conquistar alunas. «Não Ficção» traz as filmagens de um documentário sobre um estudante e seus familiares durante o processo de inscrição para a universidade. De 2004 é Palindrome que, no início, se liga à Bem-vindo à Casa das Bonecas, para depois seguir seus próprios caminhos: história de uma garota – de novo, uma garota – que vai da gravidez ao aborto, e de um amante caminhoneiro à uma instituição que esconde fanáticos assassinos de médicos que fazem abortos. Sem dúvida, Solondz seguia por seus próprios caminhos da incorreção. Seu filme mais recente é Dark Horse (2011). A expressão dark horse pode ser traduzida como ovelha negra. Nesta história há duas ovelhas negras: Abe (Jordan Gelber) e Miranda (Selma Blair). Ele é um gordo que coleciona coisas dos Simpsons, ela tem hepatite B. E por aí vai.

Como se vê, Solondz tem seu próprio universo, seus temas, seus personagens já característicos. Isso fica ainda mais evidente em A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime, 2009), seu penúltimo trabalho. O filme parte de três irmãs que originalmente aparecem em Felicidade, para assim inventar três histórias «femininas». De certa forma, A Vida Durante a Guerra nos lembra que o diretor, certa vez, seguiu os passos de Woody Allen (Fear, Anxiety & Depression (1989), seu filme de estreia, tem fortes marcas de Allen). A Vida Durante a Guerra também retoma Bill, o pedófilo de Felicidade, desta vez já fora da prisão e em busca de redenção familiar. O papel originalmente interpretado por Dylan Baker, passa neste filme para Ciarán Hinds, o magnífico Júlio César de Roma, série da HBO. O que em Felicidade era obscura luz, ganhou aqui um tom de comédia melancólica que não deixa de remeter a um filme rodado logo depois dos atentados de 11 de Setembro. A visão destas mulheres e destas famílias fica diferente porque parece que assim é o que pensa o diretor, que estamos em um país agora diferente. Fica claro que Solondz não está fazendo uma sequência aoestilo Hollywood. Ele está contando seu mundo, o que é diferente de fazer uma sequência de Star Wars. E a este mundo, nesses tempos, se agrega a melancolia de um país que sofreu um duro golpe. Os temas de Solondz estão ali: pedofilia, violação, homossexualidade, perdão, família, adolescência e maturidade, mas com tom mais político e ao mesmo tempo mais triste. Tudo, dez anos depois, sempre é mais triste.

A Vida Durante a Guerra, neste sábado, 19 de janeiro. Irreverência, crítica à sociedade. O que você vê, quando vê o Max?

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