A Vida Durante a Guerra, ou a triste sátira dez anos depois

por max 19. abril 2013 07:48

 

Um ano antes do lançamento de Beleza Americana (American Beauty – 1999), um outro filme mostrava as obscuridades de uma família norte-americana dos subúrbios passeou por festivais de cinema e depois pelas salas especializadas com boa repercussão, seu título era Felicidade (Happiness). Seu diretor, Tood Solondz, fez uma história, uma "comédia", também familiar, também dos subúrbios, mas arrancou a cabeça de todas as bonecas. Aquele filme, de feliz não tinha nada. Ao contrário, a desgraça, a solidão, a neurose, a pedofilia, a infelicidade em geral, ocupavam cada segundo daquele trabalho que não era, sem dúvida, para qualquer um. Solondz demonstrou mais uma vez que não era um docinho. Fez o mesmo com Bem-Vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse - 1995) outra comédia (sempre a partir da perspectiva do diretor) também muito brutal sobre uma menina, como tantas outras, que sofre abusos na escola e em casa. Este segundo filme de Solondz foi sucesso absoluto em Sundance e ganhou o Grande Prêmio do Júri; E Felicidade (Happiness), recebeu o prêmio dos críticos em Cannes. Em 1998, Solondz já havia se tornado um animal de festivais, um guru do cinema independente. Estes anos, os 90, foram os de furor do – chamado novo – cinema independente norte-americano, algo como um cinema de autor realizado por jovens, carregados da rudeza cool dos tempos pós-modernos, e que teve sua principal e mais calorosa mostra no festival de Sundance.

O fato é que Solondz havia conquistado seu espaço como diretor inteligente e mordaz. Era, como costumam se referir aos novatos, uma promessa. Mas Solondz não se deixou levar, não foi afetado pelo sucesso. Nem saiu correndo para fazer mais filmes. Seguiu no seu próprio ritmo. Daquele momento até 2011, dirigiu quatro longas, mas - quatro comédias, melhor dizer sátiras – que mantiveram o espírito crítico diante da sociedade norte-americana. Em 2001 lançou Histórias Proibidas (Storytelling), feito em dois capítulos ("ficção", e "não ficção"). O capítulo "Ficção" mostra a vida de um escritor ganhador do Pulitzer e que usa seu prêmio para conquistar alunas, e no "Não Ficção", mostra a gravação de um documentário sobre estudantes e seus familiares durante o processo do vestibular. Em 2004 lançou Palíndromos (Palindromes), um filme que, no início, se liga a Bem-vindos à Casa de Bonecas (Wellcome to the Dollhouse), para depois seguir seus próprios caminhos, uma história onde uma garota – novamente uma garota – vai da gravidez ao aborto, e também vai de seu amante caminhoneiro à uma instituição que esconde um grupo de assassinos fanáticos disfarçados de médicos para praticarem abortos. Sem dúvida, Solondz seguia seus próprios caminhos da incorreção. Seu último filme, de 2011, foi Dark Horse. A expressão "dark horse" tem o mesmo sentido que a expressão "ovelha negra". Nesta história tem duas ovelhas negras: Abe (Jordan Gelber) e Miranda (Selma Blair). Ele é um gordo ao estilo de George Constanza (lembra de Jason Alexander em Seinfield?) que coleciona bonecas e ainda vive em seu quarto da infância; ela, portadora de hepatite B, também volta a viver na casa de sua mãe após romper um relacionamento com um árabe. E por aí vai. Como se vê, Solondz tem seu próprio universo, seus temas, seus personagens já característicos. E isto fica ainda mais evidente em seu penúltimo trabalho. A Vida Durante a Guerra (Life During Wartime - 2009), um filme que parte das três irmãs que originalmente aparecem em Felicidade, para assim compor três histórias "femininas". De certa forma, A Vida Durante a Guerra lembra que, uma vez, Solondz seguiu os passos de Woody Allen (seu primeiro trabalho Fear, Anxiety & Depression – 1989, tem fortes marcas de Allen). A Vida Durante a Guerra também retoma Bill, o pedófilo de Felicidade, desta vez fora da prisão e em busca de redenção familiar. O papel originalmente interpretado por Dylan Baker, passa neste filme para Ciarán Hinds, de quem lembramos com mais clareza como o magnífico Julio César da série Roma, da HBO. No entanto, o que em Felicidade era uma sátira cruel de obscura luz, em A Vida Durante a Guerra ganhou um tom de comédia melancólica e nebulosa que não deixa de remeter a um filme rodado logo depois dos atentados de 11 de Setembro. A visão destas mulheres e destas famílias fica diferente porque parece que assim é o que pensa o diretor, que estamos em um país agora diferente. Fica claro que Solondz não está fazendo uma sequência ao estilo de Hollywood. Ele está contando seu mundo, o que é diferente de fazer uma sequência de Guerra nas Estrelas (Star Wars), e a este mundo, nesses tempos, se agrega a melancolia de um país que sofreu um duro golpe. No entanto, os temas de Solondz estão ali: pedofilia, estupro, homossexualidade, perdão, família, adolescência e maturidade, mas com tom mais político e ao mesmo tempo mais triste. Tudo, dez anos depois, sempre é mais triste.

A Vida Durante a Guerra, domingo 21 de abril. Cinema de autor, sátira, a sociedade contemporânea, crueldade. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem