A Pele que Habito, ou Almodóvar muito além da ciência

por max 15. agosto 2012 07:58

 

Dizem que A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011) foi um desafio para Almodóvar porque ele adentra no terror e no thriller. Pela parte do desafio é certo, mas não é sua primeira vez nesse tipo de investida. O cineasta já havia feito uma incursão pelo "terror repugnante" em Fale com Ela (Hable con Ella, 2002), no qual se descobre que o personagem Benigno fez sexo com uma mulher em coma (coisa que é apresentada, intencionalmente, de maneira patética e terrível ao mesmo tempo). Com o gênero fantástico, ele também havia se aventurado em Volver (2006), filme onde uma mãe volta da morte para acertar alguns assuntos familiares. Contudo, o fantástico de A Pele que Habito toma outros caminhos dentro do gênero, neste caso, a ficção científica, que no filme se transforma em uma referência para introduzir os temas próprios do diretor. Falar de ficção científica no sentido exato seria exagerado (apesar de Almodóvar já ter produzido Ação Mutante/Acción Mutante, muitos anos antes, para o então principiante Álex de la Iglesia); porém, a ciência unida ao sexo e ao fantástico (neste caso, próximo do milagroso) não é tão estranha em sua cinematografia. Em Tudo sobre Minha Mãe (Todo sobre Mi Madre, 1999), o tema da AIDS é fundamental. Ali temos uma freira com AIDS que, além disso, dá à luz um filho que não está infectado. A AIDS e a ciência são um fator de união importante no relato.

Poderia dizer que, com estes filmes, de alguma maneira Almodóvar ia preparando o caminho para o que seria seu mais recente trabalho, agregando novos elementos para continuar falando sobre sua principal temática dos últimos anos: a sexualidade. A alma e o corpo, a preferência sexual e a imposição social, a condenação através da rejeição, a estrutura física e as preferências sexuais, os limites entre amor e tabu e entre tabu e imoralidade. Almodóvar se inspira em Tarântula, história original de Thierry Jonquet, para abordar os temas de seu interesse, o que dá, certamente, uma variação e um toque original típicos de Almodóvar, a partir de sua visão sobre o argumento e o tema.

Quanto à fotografia e ao cenário, o cineasta apresenta um mundo altamente estético, minimalista e asséptico onde vivem o mal e a loucura. Antonio Banderas, no papel do doutor Lafargue, cirurgião plástico bem sucedido, transpira uma espécie de vazio vital unido a uma ira contida, tensa. Na superfície, ele é luz, embaixo, nos porões (no espírito e na realidade) é o torturador de um jovem rapaz, a quem vai transformando por meio de um inovador implante de pele artificial, cepa genética que ele criou.

Por que a transformação? Lafargue quer superar a perda de sua filha, morta em um suposto ato de violência. O suposto autor vai sendo transformado em mulher (Elena Anaya) e, para completar «o tratamento» ou o «castigo», será submetido a um processo de treino «cultural» sobre o feminino e também a um trabalho de educação «sentimental» que transite entre a síndrome de Estocolmo e a resignação do algoz, já há anos vítima do doutor.

Neste cenário, Almodóvar se pergunta e nos questiona sobre a constituição da alma humana e sobre as obscuridades da ciência pura, e faz pensar, uma vez mais, que estamos na presença de um diretor fiel à pós-modernidade. Neste caso, ele questiona a consistência da razão moderna quando usada em prol de certas necessidades e obscuridades da alma humana. O que faz com que um homem seja homem? O que faz com que uma mulher seja mulher? Podemos impor a um ser humano sua sexualidade, dizer como tem que agir e como tem que ser? Podemos ser os ditadores da alma? Nem a ciência, com sua pretensa capacidade para mudar tudo, pode entrar nas profundezas do espírito. O amor e o sexo são questões, paradoxalmente, de pele. Nunca uma pele real poderá substituir essa outra pele que constitui o verdadeiro âmago do ser.

Filme de terror, thriller psicológico, exploração existencial pós-moderna, estética bem cuidada que lança luz sobre a escuridão, cinema de autor, cinema muito de Amodóvar; assim é A Pele que Habito.

Estreia exclusiva neste domingo, 19 de agosto. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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