Amor Pleno, ou os silêncios e as crises

por max 14. dezembro 2013 03:12

 

Terrence Malick é um diretor de silêncios e vozes serenas em off. Geralmente, essas vozes que percorrem seus silêncios são colocadas na pós-produção, não estão no roteiro original. Malick sabe que muito de nossa vida, de nossos movimentos na vida, é realizado a partir de zonas que não necessariamente têm alguma conexão com um discurso expressivo, um discurso ordenado e explícito. Muito do que fazemos obedece a impulsos localizados em áreas escuras de nosso espírito, em áreas que são limites, crepúsculos. Depois, ao longo do tempo, quando tudo passa, quando olhamos para o passado, vamos colocar em palavras o que aconteceu conosco. Assim Malick, em sua maneira de fazer cinema, procede da mesma forma: primeiro filma, trabalha com o material bruto, com a matéria, e vai vivendo, sem se preocupar em ter uma estrutura fechada e racional. Depois, quando está na edição, começa a dar sentido a todo esse material bruto que é o filmado (como material bruto é o vivido) e coloca palavras e reflexões sobre aquilo que simplesmente experimentou, procurando a origem das coisas, procurando o porquê das coisas. Aristóteles falava da experiência e da arte, a qual ele equiparava com a ciência, com a filosofia, que é uma ciência, diz. Em Metafísica lemos: "Os homens experientes sabem bem que tal coisa existe, mas não sabem por que existe; os homens da arte, pelo contrário, conhecem o porquê da causa". Então, de alguma forma, parece como Malick age; a filmagem, o processo de ir registrando as atuações e as situações, obedece a uma experiência; a edição, por sua parte, obedece a uma busca do porque e da causa. Essa dinâmica, como eu já disse, também acontece na vida real. As crises são grandes e profundos silêncios vividos. Nunca sabemos bem quando entramos em crise, nem por quê. Ao longo dos anos, geralmente, começamos a buscar explicações para tudo. Nós colocamos palavras. Mas, enquanto isso, vivemos profundamente nos silêncios que gritam. É ali, nesse mistério das crises, que as pessoas aproveitam, sofrem, se destroem, ressuscitam. É lá, dentro desses silêncios angustiantes que está a maravilha da vida.

Amor Pleno (To The Wonder, 2012), o mais recente filme de Terrence Malick, explora essas crises e esses silêncios. Começa a partir de um caso de amor, que é uma crise, se entendemos a crise como aquilo que produz uma mudança abrupta no cotidiano da existência, como aquilo que nos levará a outra fase da vida. O caso de amor altera, desestabiliza, desconcentra o poder emocional que nos leva a um momento em que a visão cotidiana, sem dúvida, se altera, sem que possamos definir exatamente o porquê. Dizemos que estamos apaixonados, temos essa experiência, mas por que não nos apaixonamos por uma determinada pessoa, por que justo em um determinado momento nos sentimos assim, talvez, no presente ou no futuro, não podemos identificar. Para representar tal crise, Malick nos propõe os personagens de Neil (Ben Affleck) e de Mariana (Olga Kurylenko). Eles se conhecem na Europa, vivem um romance arrebatador, juram amor, ele segue para Oklahoma, inclusive com a filha dela. Eles geram, por cima do silêncio arrebatador dos discursos de amor, promessas, poesias. (Isso acontece, não é mesmo? Depois de algum tempo dizemos 'eu não sei o que aconteceu, não sei como disse essas coisas'). Essa primeira crise, que é o amor, segue um período de equilíbrio que vai mergulhando os personagens mais uma vez no novo cotidiano da vida do casal. E assim, em certo momento, vai começando outra crise. Marina começa a ter uma relação estranha e se envolve com um pastor de origem espanhola chamado Quintana (interpretado pelo grande Javier Bardem) que, para temperar, para confirmar estes argumentos, também está em crise. Quintana está passando por uma crise religiosa. Tanto o amor como a religião são questões de fé. Ambas se unem ali, na fé. Um acredita no amor, o outro acredita na fé, mas também deixa de acreditar. Ou também duvida, entra em crise. Essa crise de Quintana, claro, abre portas a possibilidades amorosas. Mas, é claro, Neil também vive sua crise e esta se expressa através de Jane (Rachel McAdams), uma mulher do passado. Cada um por si só está em seu turbilhão, todo mundo vacila, todo mundo vive à sua própria maneira as terríveis marés internas e caladas que marcam seus movimentos, essas marés que nos abalam, que nos tiram do tédio, que fazem nos sentirmos vivos novamente.

A vida, parece, está em crise. Ali, nesses silêncios que nos sacodem, vive a maravilha, essa coisa que nos incomoda, que nos torna rebeldes, que nos tira da morte. A dor, o amor, a falha, os vícios de ser o que dá sentido.

Amor Pleno, domingo, 15 de dezembro.

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