Vampire, ou o vampiro suave

por max 1. junho 2013 05:40

 

Atualmente, a imagem do vampiro tem sido relacionada cada vez mais com a marginalidade, com os chamados "renegados da sociedade", sempre sob a perspectiva de solidariedade com os vampiros para transformá-los no centro das histórias. Hollywood e os best-sellers os encheram de glamour e beleza física. Os garotos góticos, marginalizados e diferentes nos colégios foram relacionados - dentro do possível –a este tipo de vampiro juvenil, cuja elegância tem suas raízes profundas nos distantes eslavos de sangue, e que acabou virando moda com a versão cinematográfica do romance de Anne Rice, em 1994. No entanto, outras propostas fora do mercado mainstream, e mais honestas em sua expressão, têm abordado a figura do vampiro por uma visão focada no problema da marginalidade, sempre em busca de um enfoque solidário, fechado, compreensivo. Vampire (2011), primeiro filme do cineasta japonês Shunji Iwai realizado nos Estados Unidos, é um claro exemplo disto.

Vale destacar que, apesar de ser realizado nas instalações do cinema do espetáculo, o trabalho não se deixa levar pelos brilhos, muito pelo contrário: Vampire resulta em um trabalho incrível de câmera, com roteiro e atuação desprovidos de efeitos especiais e da grandiloquência vampírica. Além do que seu protagonista, Simon (Kevin Zegers), nem sequer é um vampiro tradicional: é um tímido professor de escola, com uma mãe em estado psíquico lamentável. Simon também passa horas e horas em chats de temas suicidas. Sua finalidade: encontrar garotas bonitas dispostas a morrer. Ele as conhece, estabelece com elas uma relação carregada de ternura e logo as convida a morrer: e oferece um método indolor. Uma vez que elas morrem, ele bebe o sangue. Simon precisa beber sangue, se não beber ele pode morrer. Portanto, poderíamos ver Simon como um vampiro. "Um vampiro é alguém que bebe sangue", disse em algum momento o próprio personagem. Essa é a definição minimalista do vampiro, uma definição despreocupada de todo o peso. E, de fato, como a imagem dos balões que percorre toda a história, Vampire aborda o gênero com leveza. No entanto, "com leveza" não quer dizer "com superficialidade". Neste caso, entendemos "leveza" como o distanciamento da parafernália de efeitos (todos os clichês de vampiro) desses pesos decorativos, os realmente superficiais, para focar na alma de seres separados da corrente principal do mundo: o vampiro e os (as) suicidas. Em Simon está o dilema de ser um mortal comum e atual que tem uma necessidade psíquica que está alheia ao mundo. E nelas, nas suicidas, está a tragédia da dor e a necessidade de afundar no prazer final, na morte. A liberdade de eleger a morte é, sem dúvida, um tema espinhoso.

Lírico, assustador, comovente, Vampire tem a marca de um cinema de autor muito independente, de um cinema também com um forte toque asiático onde o drama da marginalidade, a beleza das imagens e o horror da morte se reúnem para lançar uma obra original, destacada, inovadora.

Vampire, domingo, dia 2 de junho. Originalidade, drama, transgressão. O que você vê quando vê o Max?

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