Miral, ou um judeu contando uma história palestina

por max 10. setembro 2012 09:58

 

Parece que Julian Schnabel nunca havia prestado muita atenção a assuntos judeus e palestinos, nem muito menos havia se interessado por temas religiosos hebreus (é novaiorquino e judeu). Até que ele conheceu e se apaixonou, aos 59 anos, por Rula Jebreal, uma atraente jornalista de 37 anos e de origem palestina. Então Schnabel fez um filme, Miral, baseado na biografia de Rula, que conta a história de três gerações de mulheres, desde a criação do estado de Israel até o final dos anos 90. Antes deste filme, o diretor havia feito outros três, que lhe deram fama nos festivais mais prestigiados do mundo: Basquiat - Traços de uma Vida (1996), Antes do Anoitecer (2000) e O Escafandro e a Borboleta (2007). Em Veneza, foi indicado para o Leão de Ouro por Miral, ganhou o prêmio especial do júri por Antes do Anoitecer e os prêmios Unicef e Unesco por Miral; em San Sebastian, levou o prêmio do público por O Escafandro e a Borboleta; foi indicado para o Oscar e ganhou seus respectivos prêmios de melhor diretor em Cannes e no Globo de Ouro. Excepcional marca para um diretor que começou como artista plástico. Nos anos 80, Schnabel ganhou fama no movimiento bad painting, considerado um braço do neoexpressionismo, graças a algumas enormes pinturas às vezes figurativas, às vezes constituídas por meros pratos quebrados, às vezes uma mistura do retrato figurativo e dos pratos quebrados.

Miral, seu quarto filme, é produto do amor. Do amor por Jebreal e do amor por seu compromisso humano com o conflito árabe-israelense. Rodado em Israel e protagonizado pela atriz indiana Freida Pinto (Quem Quer Ser um Milionário?), não é considerado um dos melhores de Schnabel por alguns críticos, que o julgam políticamente correto demais. É bom recordar que o filme causou indignação entre grupos judeus dos Estados Unidos, por ser considerado anti-israelense. "Minha mensagem é que precisamos abrir nossos corações e considerar essas pessoas seres humanos", declarou Schnabel em uma entrevista, falando dos palestinos. Respondeu que o desprezo e o ódio não eram um estilo tradicional hebreu para tratar as pessoas. "Quando fiz o filme, trabalhei tanto com judeus quanto com palestinos. Todos eles queriam paz", disse o diretor, que não queria um filme típico sobre os judeus, pois essa história já havia sido contada muitas vezes. Por isso, ele decidiu narrar o conflito entre Israel e os palestinos a partir de outro lado, o dos palestinos, por meio da adaptação do romance de Rula Jebreal, essa jovem jornalista que, aos cinco anos, diante da morte de sua mãe, foi colocada em um orfanato pelo pai. Graças a uma bolsa do governo italiano, Jebreal estudou jornalismo na universidade de Bolonha, e acabou se transformando na primeira âncora de origem estrangeira no noticiário italiano. Jebreal cobriu a guerra do Iraque e em 2005, aos 33 anos, recebeu o mais importante prêmio do jornalismo na Itália, o Ischia International para o melhor jornalista do ano. Publicado em 2003, seu romance, também intitulado Miral, foi um imediato sucesso de vendas pelo tratamento do conflito de forças a partir da visão feminina, centrada especialmente nas mulheres: Hind, a dona do orfanato, e Miral, uma menina que chega ao lugar depois da norte de sua mãe.

Schnabel adapta essa história que se desenvolve através de vários momentos históricos e varias gerações. Tal como no romance, fixa sua atenção em Miral, uma garota de 16 anos interpretada por Freida Pinto, sua relação com Hind (a atrtiz Hiam Abbass) e com um militante da OLP, Hani (Omar Metwally).

Assim, Miral passa a fazer parte da pequena lista de filmes que, nos últimos tempos, tem tratado do conflito árabe-israelense, tais como Paradise Now (2005), de Hany Abu-Assad, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Líbano (2009), de Samuel Maoz, ou o maravilhoso Valsa com Bashir (2009), de Ari Folman, que passou há algum tempo no Max.

Estamos diante de um filme que adapta uma perspectiva humana e sentimental, como muitos dessas produções que se interessam mais pelo espírito do que pela guerra. Um filme que não descamba para o melodrama e que explora os aspectos políticos a partir da alma dos personagens, sem querer marcar uma posição presa a radicalismos. Entre Hind e Hani estarão os limites do mundo da menina, que oscilará entre a ação política, guerrilheira (ou terrorista) e a solução pacífica dada pela educação e o humanitarismo em meio àquele mundo devastado pela raiva, radicalismo e guerra.

Miral, de Julian Schnabel, no domingo, 16 de setembro. Reinvente, imagine de novo. Descubra o Max.

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Lebanon, ou a guerra vista do interior de um tanque

por max 1. junho 2012 11:54

 

A experiência do cinema sempre foi virtual. Desde aquela projeção no salão Indien do Gran Café em Paris, na qual os irmãos Lumière mostraram um trem chegando à estação e o público se assustou e saltou das cadeiras, acreditando que o trem vinha para cima deles, desde então o cinema tem nos envolvido com sua sensação de realidade.

Os filmes de guerra, por exemplo, desde o princípio tiveram interesse em recriar a experiência do que se vive em um campo de batalha. Esta experiência sempre funcionou em grandes espaços. A guerra é de muitos e acontece em grandes áreas, e por aí a maioria dos filmes tem seguido. Contudo, o que faz o diretor Samuel Maoz com Lebanon (2009), seu segundo filme, é exatamente o contrário, e deixa de mostrar quão terrível pode ser uma guerra.

No filme, recria-se o início da primeira guerra do Líbano, quando Israel invadiu o país em 1982, sob a justificativa de erradicar a presença de terroristas da OLP, mas Maoz conta a história a partir de uma perspectiva totalmente diferente da tradicional. O diretor escolhe o espaço mínimo, o confinamento, quase a claustrofobia, pois conta a história a partir da visão de quatro soldados israelenses que vão, em missão, para uma cidade do Líbano. Câmera na mão e espaço reduzido, Maoz enfrenta a dura experiência da guerra a partir de uma perspectiva, literalmente, interior. Pois não somente nos encontramos dentro do tanque, vivendo uma experiência da guerra totalmente inédita, mas também entramos no espírito dos soldados e experimentamos seus profundos conflitos.

Atirar e, sobretudo, matar não é qualquer coisa, e isso compreendemos quando o diretor centra-se nos personagens e, a partir dessa visão, retrata a crua realidade que vai além de uma simples cena de ação. Em muitos filmes, atirar é fácil, mas estes soldados são um assunto à parte. Eles não são criminosos, nem heróis de mentira ou simples personagens rasos, sem profundidade. Eles são seres humanos com destinos desafortunados, que os levaram a entrar na guerra. São pessoas que nunca, jamais, pensaram que matar seria uma questão divertida ou de honra. A guerra, que muda tudo, fará estes soldados entenderem que, em casos assim, as fronteiras entre o bem e o mal são tão delicadas como as fronteiras entre a sobrevivência e a morte.

É inevitável lembrar de outro filme, também de Israel, que soube tomar com maestria estes complicados caminhos de uma guerra sem heróis, de uma guerra de medos justificados e de atos sem valores heroicos: falo de Valsa com Bashir (Waltz with Bashir), de 2008, magnífico trabalho de Ari Folman, que antecede em um ano esta outra joia de seu conterrâneo Samuel Moaz. De fato, há um elemento em comum: a guerra do Líbano é o contexto dos dois filmes. Mas o início e o final do filme de Maoz se unem a Valsa com Bashir nas imagens de natureza, dos campos virgens e distantes do terror da guerra, a esse terror tão real, que nos remete ao trem que vem em nossa direção, como naquele distante 28 de dezembro de 1895, quando as pessoas pensaram que o trem vinha para cima delas. A guerra vem para cima de nós, a guerra é real e nos sentimos dentro dela em filmes como este excelente trabalho de Samuel Maoz.

Lebanon, neste domingo, 3 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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