Sacha Baron Cohen, um incômodo ícone do cinema

por max 29. novembro 2011 08:23

 

Ser incômodo, estar ali para incomodar, para tirar da rotina; nem todo mundo se atreve a fazer isso. Nem todo mundo gosta de fazer dezenas, centenas de inimigos. O humorista inglês Sacha Baron Cohen é um dos que não se importa. É um dos poucos que se atrevem, e dos poucos também que têm talento para fazer isso de forma original. Porque Sacha Baron Cohen é um humorista, mas também ator de caracterizações, de personagens. De personagens, certamente, muito particulares. Há algo neles, principalmente em Borat e Bruno, que demonstra que perderam o gesto cultural que todos possuímos. As boas maneiras, o recato, o filtro mental. São personagens que têm uma falha, algo que não está bem neles. Carentes de certos elementos do gesto cultural, parecem mesclar inocência e maldade. São como os perversos polimorfos de Freud. São, além disso, minoria. Borat é um jornalista de um pequeno país euro-asiático. Inclusive, dentro de seu mesmo país, é uma exceção (quantos jornalistas haveria em um país pobre como aquele?), Bruno é também jornalista, gay e da Áustria. Ambos são minoria, ambos são extrovertidos, ambos são inocentes e, ao mesmo tempo, malucos, ambos amam os Estados Unidos. Por que digo que um personagem como Bruno é inocente? Pois é uma alma superficial, com certas ideias fixas e sem meio termo, como uma criança malcriada. Mas, ao mesmo tempo, é inocente, porque pensa que, sendo um jornalista, fará parte do mundo da moda que tanto deseja. Bruno quer ser alguém e, para ser alguém, tem que estar onde estão os bons e na nação onde todas as pessoas podem realizar seus sonhos. É inocente, como uma criança, porque diz e faz a primeira coisa que lhe vem à cabeça. É um personagem inconveniente, egoísta, narcisista, carente dos gestos culturais que mantêm certas verdades silenciadas. Mas, com certeza, graças a Bruno (e antes, a Borat), Sacha Boran Cohen pode dizer suas verdades e fazer um filme onde a verdade a ficção se movem em campos imprecisos (tal como em seu primeiro filme, onde o protagonista é Borat).

No filme Brüno (2009), Sacha Baron Cohen repete estruturas, mas não personagens. Trata-se de um mockumentary, um documentário que não é um documentário, mas sim ficção. Cabe dizer que, com este filme, não sabemos onde está a diferença. As entrevistas, as iras, as impertinências do personagem se colocam em uma fronteira imprecisa que nos enche de surpresa, de horror e risos – nervosos ou não. Bruno, jornalista desempregado, gay, austríaco, se encontra no meio de uma situação existencial crítica. Não pode viver sem seu vício (a câmera), não pode nem quer aceitar que é realmente parte da periferia, dos últimos da sociedade bem sucedida e brilhante. Assim que começa a buscar o caminho da fama, e nesse desejo termina transando com o morto do duo Mini Vanilli, depois dando voltas por Jerusalém, pelo Líbano, em Nairóbi e, finalmente, em Hollywood. Claro que cada situação é uma desculpa para que o ácido comediante britânico faça das suas e desnude as piores castas da sociedade. Uma sociedade ignorante, preconceituosa, e radical em suas ideias, sem a menor capacidade para o humor ou a tolerância. Essa gema do cinema, Sacha Baron Cohen, esse ícone do cinema da irreverência, nos joga tudo na cara, como um pastelão recheado de ácidos que queimam.

Nesta terça-feira, 29 de novembro, acompanhe Sacha Baron Cohen em Brüno, na semana final do ciclo Ícones do cinema. No Max.

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