Um Conto Chinês, ou o outro e o absurdo

por max 21. dezembro 2012 05:25

 

No texto de suas Mitologias, que Roland Barthes intitulou "Marciano", dedicado, especialmente, aos marcianos, o autor diz que um dos traços constantes da mitologia pequeno burguesa é "essa impotência para imaginar o outro." Não há nada mais difícil que aceitar o outro, é antipático para o senso comum, diz Barthes. O senso comum é isso, algo que me iguala a todos que me rodeiam. O outro não se encaixa ali nesse mundo de espelhos, de cópias em série. O outro não tem sentido nestas circunstâncias e, portanto, pode ser perigoso dentro da vida pequeno burguesa, que tem tudo dentro de certos padrões.

No filme Um Conto Chinês (Un cuento chino, 2011), do realizador Sebastián Borensztein, o protagonista é um pequeno burguês que vive separado do mundo. De alguma maneira é o outro ao qual ele tanto teme, mas minimizado, oculto, disfarçado de dono de loja de ferragens. Vive o cotidiano, sim, vive o mundo que a todos rodeia, mas algo o separa dos demais. Ele se mantém encoberto, mas é distinto, um mal humorado, simplesmente, e esse mau humor é permitido dentro dos limites. Mas há algo mais nesse Roberto. O espectador intui isso e quando o outro aparece, esse chinesinho extraviado que não fala nem um pouco de espanhol, Roberto (interpretado com magnífico minimalismo por Ricardo Darín), atua como uma articulação em dobro. Primeiro, a rejeição: este é o outro que não entendo, que me entedia, que tem problemas que não me dizem respeito, o outro que deveria estar bem longe de mim. Depois, a aceitação: apesar de tudo, Roberto não o abandona. E, talvez, não o faça, não apenas porque todo ser humano tem seu lado bondoso, mas porque aquele outro não é totalmente outro. Aquele sujeito chinês tem algo de Roberto, algo que se parece com ele, um segredo triste, uma parede invisível que, como acontece com ele, o separa do mundo.

Assim, em Um Conto Chinês, essa dupla relação do "eu" e o outro vai se traduzindo nas situações inteligentes de uma comédia leve, humana, comovente, que trata do desamparo em um mundo no qual o absurdo iguala a todos. Porque, no fundo, o outro não existe, todo mundo padece igual, à mercê, sem exceção, de qualquer e repentina volta que as engrenagens da máquina invisível da vida faça. Essa máquina invisível, esse absurdo existencial (a guerra ou uma vaca que cai do céu são aqui sinais do mesmo absurdo) pode ser, contudo, transformado na compreensão do outro. Porque entender a desgraça do outro, a vida do outro, é compreender a vida que foi dada a você, é ser um pouco mais livre. Quem escuta o outro (escuta de verdade, sem importar que o outro fale chinês), quem lê no absurdo e vê a si mesmo, sem as limitações que o meio impõe, é um pouco mais livre, um pouco mais ser humano. Essa é, talvez, a situação de Roberto. Essa é, talvez, a resposta em sua vida para um chinês que, não sei se metaforicamente, caiu do céu.

Um Conto Chinês, neste domingo, 23 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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