A Rainha do Castelo de Ar, ou as leis do poder aplicadas por Lisbeth Salander

por max 3. fevereiro 2012 03:07

 

Vendo o último episódio da trilogia Millenium, pensei em O Profeta, de Jacques Audiard. Pensei em Malik El Djebena, pensei em Lisbeth Salander e pensei que eles têm semelhanças. Malik e Lisbeth são duas pessoas periféricas da sociedade, apartados, reclusos. Malik foi para a prisão, Lisbeth a uma instituição psiquiátrica. Nenhum dos dois é louco perigoso ou psicopata assassino. Estão mais para pessoas indefesas que acabam esmagadas uma vez ou outra, pessoas que são anuladas, que são mantidas no vazio absoluto: não são nada, são brinquedos velhos, são coisas. O que os agressores não sabem é que a coisa que eles pretendem anular, na verdade, volta-se contra eles, defendendo-se agressivamente, quando sua vida é ameaçada. A coisa, desgastada, mínima, deixada de lado, acumula obscuridade e cresce e devolve o mesmo que foi ensinado a ela. Malik e Lisbeth transformam-se em figuras cerebrais e silenciosas, que mantêm seu aspecto frágil, inocente. Eles descobriram o mundo dos que gritam, sobreviver é uma questão de silêncios. De fato, além do tema do gênero, de violência contra a mulher e todo aquele assunto absolutamente importante e sério, o que me impressiona nestes filmes é a capacidade de ambos os personagens para, com o uso supremo da inteligência e das mesmas armas do poder, conseguir o que pretendem, que é exatamente derrotar aqueles que detêm o domínio do mundo. De As 48 Leis do Poder, de Robert Greene, extraio três elementos utilizados magistralmente por Lisbeth Salander, personagem ao qual me limitarei neste texto.

A lei número 4 do livro de Greene nos diz: "Diga sempre menos do que o necessário". Em A Rainha do Castelo de Ar (The Girl Who Kicked the Hornet´s Nest / Luftslottet Som Sprängdes, 2009), Lisbeth Salander fala o estritamente necessário e, às vezes, menos. Quando o fiscal pergunta, não responde, de fato, quase como se tratasse de um processo kafkiano, e lhe acusa de silêncio. Mas Lisbeth Salander somente espera para responder no momento adequado, obedecendo assim à lei do poder que, ao seu tempo, como já disse, é uma lei de sobrevivência. Disse Greene no critério da lei 4, que é uma espécie de resumo: "Leve em conta que, quanto mais você diz, mais vulnerável estará e menor controle da situação terá." Salander, uma vez mais, parece saber isto e, por causa disso, guarda um silêncio prudente, que somente dura até o momento que as suas palavras realmente são necessárias. Claro, Lisbeth Salander esconde suas intenções e, enquanto todos trabalham contra, ela trabalha em silêncio. Oculte suas intenções, que é a terceira lei de Greene. Mas, além disso, espione seus inimigos, e faça isso através da tecnologia, de seus amigos hackers. Tal como Sun Tzu explica, Maquiavel e o próprio Greene, na lei 14: "Mostre-se como um amigo, mas atue como um espião." Lisbeth Salander, em contrapartida, não age precisamente de forma amável, mas espiona, sim, a seus inimigos, a fundo. Greene diz: "É de fundamental importância saber tudo sobre seu rival. Utilize espiões para reunir informações valiosas que lhe permitam manter sempre uma vantagem sobre ele. "Nossa heroína, claro, faz isso. Graças aos seus conhecimentos da internet, chega às mais profundas sujeiras, baixarias dos seus inimigos, daqueles que pretendem voltar e trancá-la, para sempre, em uma clínica psiquiátrica. Mas Lisbeth Salander, além disso, faz algo maravilhoso: utiliza de forma perfeita o papel que lhe foi designado: a da louca, da boba. A lei número 21 de Greene é específica: "Finja inocência para armar contra os ingênuos: mostre-se mais bobo que sua vítima." E sigo citando Greene para que fique ainda mais claro: "O truque consiste em fazer as vítimas se sentirem sagazes e inteligentes e, sobretudo, mais sagazes e inteligentes que você mesmo. Uma vez que as tenha convencido disto, nunca suspeitarão que você tem motivações ocultas contra elas (as vítimas)." Isso é o que faz Lisbeth Salander, ela se mantém no quadro que pintaram para ela, se mantém como esse ser estranho que parece não pensar muito, não entender o mundo, não ser profundo. Esta maneira de ser de Lisbeth Salander conhecemos desde os primeiros filmes mas, neste último, ganha maior importância, pois nesta parte final estão em jogo a liberdade e sua própria vida.

Para resumir, A Rainha do Castelo de Ar é, sob essa visão, uma demonstração de estratégias e táticas das lutas de poder. Lisbeth Salander esmagou, anulou, estragou para sempre o Estado e seus negócios sujos, o Estado e seus interesses, seu poder. Ela, por sua vez, entende que, para sobreviver, deve usar armas parecidas, não as mesmas, não tão baixas, mas similares, retiradas da mesma entranha, do monstro, onde se move a obscuridade do poder.

A Rainha do Castelo de Ar, última produção da série Millenium de Steig Larsson, neste domingo, 5 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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