O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, documentário que homenageia o rebelde número um do cinema americano

por max 5. maio 2014 04:12

 

Roger Corman é o homem da rebeldia, o rei do cinema independente por excelência. Claro, atualmente quando se fala de cinema independente fala-se, na maioria dos casos, sobre um trabalho artístico um pouco mais intelectual e requintado, certo? Na verdade, o verdadeiro cinema independente começou com os realizadores do chamado "Cinema B". Vale lembrar que, no início, os filmes do cinema B eram aqueles que entravam na sessão dupla das salas de cinema (os grandes estúdios detinham, naquele momento, o poder da distribuição e das salas de cinema); quer dizer, o filme A é a grande produção do estúdio, aquela que custou muito dinheiro, enquanto o filme B, projetado antes do grande evento, é a produção de baixo orçamento e de pouca qualidade, que está lá só para rechear, como um extra para que o público sinta que recebe mais pelo mesmo dinheiro.

Foram várias as razões que levaram os estúdios a realizar filmes B: Primeiro, como evolução lógica do espetáculo de variedades que era apresentado antes da exibição do filme principal. Tal espetáculo, no início, consistia em uma pequena cena burlesca ou na projeção de um curta-metragem. Logicamente, esta sessão prévia foi evoluindo, tornando-se cada vez mais complexa, até chegar a um filme. Em segundo lugar, a crise americana também teve influência, pois, desde os anos vinte, afastou o público das salas de cinema. Pode-se dizer que os filmes B surgiram como um incentivo para o público decidir gastar o pouco dinheiro que tinha nos bolsos. Mas, afinal, o que estes filmes B tinham especificamente? Eram filmes muito baratos, produzidos com orçamento muito, muito mínimo e com temática de cultura popular, como terror ou ficção científica.

Com o tempo, este cinema B se transformou em um negócio. Junto dos grandes estúdios (que foram os produtores originais destes filmes) surgiriam empresas dedicadas exclusivamente a esta produção. Por isso, nos anos quarenta, quando uma lei derrubou o monopólio de distribuição dos grandes estúdios, os filmes B continuaram a ser produzidos. E, no final dos anos sessenta, quando os códigos de censura foram flexibilizados, estes filmes começaram a explorar temáticas ainda mais atrevidas. Digo ainda mais porque, trinta anos antes, o cinema B já estava fazendo praticamente tudo o que queria. Como eram filmes que estavam lá para encher o espaço, ninguém tinha interesse e, por isso, ninguém os vigiava muito de perto. Isto abriu espaço para a experimentação tanto de temas como de formatos. Na época em que as leis de censura foram relaxadas, o terreno já estava preparado para abordar e explorar novos temas. Observe que usei a palavra "explorar", pois a qualificação que os novos filmes tipo B receberam foi exploitation: explorou-se sexo, raça (eram os anos das lutas por direitos civis), violência, sangue, vulgaridade.

Roger Corman surgiu nestes anos. Ele era diretor de filmes B e trabalhava para uma empresa que fazia filmes B, a American International Pictures (AIP), onde Corman fez uma série de filmes baseados nos contos de Edgar Allan Poe. Estes filmes, já sabemos, foram o começo da lenda Corman, um diretor que queria fazer filmes que agradassem ao público, filmes interessantes e assustadores, que divertissem. Claro, isto é o mesmo que Hollywood queria. A diferença é que Corman não se deixava enrolar pelos grandes executivos e fazia os filmes com baixíssimo orçamento. Nosso homem até chegou a virar independente, fundando sua própria empresa para continuar a fazer o que achasse melhor, com roteiros rápidos, produções baratas (inclusive em cenários de outros filmes) e filmagens onde não se exigia nada dos atores nem se repetiam as cenas. Vale dizer que, em muitas destas filmagens, passaram nomes que depois seriam grandes artistas da indústria, como Jack Nicholson, Martin Scorsese e Peter Fonda, entre outros.

O documentário O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood (Corman's World: Exploits of a Hollywood Rebel, 2011), de Alex Stapleton, fala sobre este cineasta lendário que, naquela época, chegou a dizer que já tinha realizado mais de cem filmes sem gastar um centavo. Na realidade, agora são mais de quatrocentos… sem gastar um centavo. No documentário, para fazer uma homenagem, estão aqueles que devem ao diretor a paixão pela arte: Tarantino, Scorsese, Nicholson, Robert De Niro, Jonathan Demme, Peter Fonda, Bruce Dern, Peter Bogdanovich, William Shatner, entre muitos outros.

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, terça, 6 de maio, no Max.

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Início do Ciclo EUA Independentes com o filme 28 Quartos de Hotel

por max 4. setembro 2013 12:27

 

Isso que tem entre os ancestrais de Roger Corman, Orson Welles, Samuel Fuller, John Cassavetes, entre outros. Isso que chegou ao auge com os novos cineastas de Hollywood (Scorsese, Coppola, entre outros) e que todavia, sob o controle dos estúdios tinha seu ar de independente. Isso que promoveu e promove com sucesso o festival de Sundance (paradoxalmente como negócio que Hollywood havia descoberto). Isso que relacionamos com Tarantino, mas talvez não seja Tarantino. Isso que se caracteriza por filmes sem enredo convencional, por contar histórias de famílias disfuncionais, por acumular personagens fora do comum que lutam para se manterem dignos neste mundo quadriculado e cruel. Isso que pode ser encurralado por prostitutas, homossexuais, anões, pessoas solitárias e drogas. Isso com raras músicas de fundo; com preservação de diálogos ou com diálogos agudos. E claro, isso qye não faz festa com grandes orçamentos e nem efeitos especiais… ou pelo menos, não ao estilo dos grandes estúdios. Isso que chamamos de cinema independente, esse amplo espectro de maravilhas, terá seu espaço este mês de setembro, no Max, com exibição toda quinta. Começa nesta com 28 Quartos de Hotel (28 Hotel Rooms, 2012), de Matt Ross. Na próxima semana, quinta dia 12, tem Inverno de Alma (Winter´s Bone, 2010), de Debra Granik, e dia 19, 96 Minutos (96 Minutes, 2011), de Aimee Lagos. E o ciclo EUA Independentes encerra com O Futuro (The Future, 2011), de Miranda July, na quinta, dia 29.

 

 

Para começar, 28 observações sobre 28 Quartos de Hotel do estreante Matt Ross:

 

  1. Uma história de amor que no início não pretende o amor, é uma verdadeira história de amor.
  2. Os amantes se calam, não dizem que se amam. Seus corpos falam por eles. Seus corpos gritam o amor.
  3. Lá fora está o mundo, o mundo que esmaga.
  4. Entra, vê a porta aberta e entra. Depois não sabe como sair. Assim é o amor que cresce dentro dos amantes.
  5. Existe um pacto. Que não iriam se apaixonar. Mas começam a sonhar outra vida. Neste instante, eles sabem, estão perdidos.
  6. Um quarto de hotel não salva de nada. Desta porta o amor também tem as chaves.
  7. Quarto de hotel, pacto de não se apaixonar. Fracasso certo... do pacto.
  8. Quarto de hotel, refúgio atômico contra a realidade. A realidade é o Apocalipse dos amantes.
  9. Os amantes querem ser como os aeroportos. Esquecem que os voos sempre atrasam, que sempre ficam mais tempo do que realmente era necessário.
  10. Para os corpos nada é passageiro.
  11. Não saber nada do outro não garante o esquecimento.
  12. Nada é certo, menos que se apaixonará.
  13. E a morte.
  14. Mas o amor é como a morte.
  15. Quando percebe que comprou uma passagem sem volta. Ali, naquele lugar.
  16. Quando começa a não saber o que fazer com sua vida. Ali, naquele lugar.
  17. Quando quer uma bola de cristal. Ali, naquele lugar.
  18. Quando entende que o destino existe, mas a vida é sua inimiga. Ali, naquele lugar.
  19. O amor ri dos que dizem: "Não vamos nos apaixonar".
  20. O amor os faz dizer: "Não vamos nos apaixonar".
  21. O amor tem três pernas. É uma mesa de mago. Um mago é um ilusionista... e uma fraude fascina.
  22. Quando foi isso? Foi ontem que disse que não se apaixonaria?
  23. Ontem sim.
  24. E hoje já.
  25. E hoje não há remédio.
  26. Você já esteve em 26 quartos, e desde o primeiro você já sabia.
  27. 28 Quartos de Hotel, quinta, 5 de setembro, no ciclo EUA Independentes. No Max.

O mundo de Roger Corman, ou essa fibra profunda de nossa alma

por max 19. agosto 2013 12:24

 

Quando você se senta para lembrar de um filme antigo, aquele que te impressionou pelo terror, apesar de você se lembrar de efeitos especiais ruins, então você está lembrando de Roger Corman. Isso, essa clara situação na memória de uma história de Edgar Allan Poe, estrelada por um homem jovem que logo é reconhecido como Jack Nicholson, esse posicionamento nítido (diria um expert em marketing) é o império de Roger Corman sobre todos nós. Os filmes de Roger Corman foram produzidos há muito tempo (embora ainda ele esteja produzindo), ocorreram em uma época em que você não se interessava em saber o custo e quantos efeitos computadorizados foram inseridos em apenas poucos segundos, uma época em que você se assustava de verdade, mas ao mesmo tempo se sentia protegido na tranquilidade do seu lar, no sofá, ou debaixo do cobertor em sua cama. Roger Corman pertence a um tempo sagrado em que fomos mais felizes, em que ainda éramos capazes de nos assustar. Esse é seu verdadeiro alcance. Quando levamos o pensamento até Corman, também vamos a uma área de nossa alma que está intacta.

Existem outras explicações, é claro, que têm a ver com a história, com a rebeldia, com o cinema independente. Corman queria fazer filmes que ele gostasse para pessoas que queriam ter um bom momento. Isso também é o que Hollywood quer. A diferença é que Corman não se deixava levar pelos grandes executivos. Nosso homem lenda fazia as coisas distantes deles. Fazia seus roteiros, conseguia cenários (geralmente a partir de outros filmes e que ele usava sem problemas), gravava em tempo recorde e era um excelente caçador de jovens talentos, entre eles, Jack Nicholson e Martin Scorsese.

O documentário O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood (Corman's World: Exploits of a Hollywood Rebel, 2011), de Alex Stapleton, fala deste cineasta lendário que em sua época chegou a dizer que havia produzido mais de cem filmes sem gastar um centavo. Na realidade, agora são mais de quatrocentos... Sem gastar um centavo. E lá estão para fazer homenagem, aqueles que devem a ele e que deveriam a ele a paixão e a praticidade da arte (Tarantino, Scorsese e Nicholson, entre outros).

Não há dúvidas, é difícil encontrar um homem prático hoje em dia. Um homem que é como é, não tem nenhum protocolo, nem esnobismo, nem ostentação. Roger Corman é este tipo de homem, esse que quis fazer filmes e ganhar dinheiro com isso, sem se enganar com intelectualismo, sem alegar que estava fazendo a sétima arte. Como diria Foucault, eu acho, Corman se preocupava mais em cuidar de si mesmo do que conhecer a si mesmo. Ele já se conhecia, ele queria se cuidar, ser prático, se ocupar estando bem e fazendo o que gosta: criar filmes engraçados, que chegam às profundidades de nosso espírito imortal. A essência do que os outros pretendiam com temas mais inteligentes e falharam. O bom cinema é para poucos.

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, terça, 20 de agosto. Cinema B, biografia, arte, rebeldia, entretenimento. O que você vê quando vê o Max?

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Método Para a Loucura de Jerry Lewis, ou a herança do comediante idiota

por max 23. outubro 2012 07:11

 

Na Idade Média, o gestual exagerado era considerado coisa do demônio. O gestual correto do nobre, por exemplo, devia ser rígido, moderado. O corpo era um templo feito por Deus e devia ser respeitado, devia ser como O Criador, longilíneo, estático, hierático. O corpo de movimentos exagerados era o corpo possuído, o corpo em pecado. O carnaval permitia os exageros dos movimentos. O menestrel também podia mover-se além da conta, assim como o bufão. Mas, se para eles era permitido, isso não era visto com bons olhos, o tempo todo.

O corpo e a doença têm uma relação estreita. A semiologia médica estuda os sintomas do corpo para determinar a doença. Hipócrates, em sua teoria dos humores, estabelecia o equilíbrio da bílis em suas diferentes variantes no corpo como causa das doenças, inclusive mentais.

Em Why the French Love Jerry Lewis: From Cabaret to Early Cinema (2001), de Rae Beth Gordon, vimos que começa um interesse por parte do público e da arte em relação à histeria a partir de Jean-Martin Charcot, que fez estudos sobre a histeria no hospital de La Salpétriêre (1862 e 1881), assim como a publicação da iconografia fotográfica da mesma instituição por parte de Régnard, Londe, Bourneville, Gilles de la Tourette e Richer. Nessas fotos, apareciam as pacientes de La Salpétriêre em diferentes posições, bem estranhas e com expressões faciais não menos impressionantes. Os artistas de cabarés começaram a fixar-se em tais expressões, em tais movimentos. Queriam que seus corpos imitassem o histérico, o idiota, o epilético no palco. Charcot havia dividido aquelas posições em três categorias: a epileptoide (movimento convulsivo), a apalhaçada (ou clownismo, entendido a partir da perspectiva do corpo tomando posições, digamos, acrobáticas) e, finalmente, a de atitudes passionais (posições de êxtase). Então, não é de se estranhar que, com a moda, surgiram apresentações relacionadas a estes estudos de Charcot. É preciso dizer, inclusive, que os contorcionistas e os fenômenos de cabarés já ocupavam um lugar importante há algum tempo.

A hipnose, os estudos sobre o sonambulismo, a histeria estavam em toda parte, estavam na moda. Eram os anos também das ideologias políticas, do anarquismo, do comunismo, do socialismo. Estes grandes temas também permeavam as apresentações nos cabarés; como se sabe, arte, ideologia e crítica social sempre andaram de mãos dadas.

Assim, o corpo começa a ser entendido como um objeto desejado por todos os poderes, como um lugar a ser dominado e, portanto, também entrava nesta luta pela liberdade, pela rebelião. As posições do corpo da histeria e da epilepsia utilizadas pelo artista eram, de alguma forma, o modo de falar de um corpo em desobediência que, na verdade, acata outros poderes, o poder supremo do inconsciente. Tais expressões corporais, tais rebeldias serão vistas, mais adiante, no movimento Dadá, naqueles jovens poetas ou artistas que entravam abruptamente nos cafés, recitando seus poemas incompreensíveis.

A tradição dos comediantes de cabaré, de salão, continuou no cinema. No início do cinema e da televisão, muitos comediantes dividiam seu tempo entre teatros, cabarés e as atuações na tela. Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, todos vinham do teatro de variedades. Laurel e Hardy mudaram para o vaudeville – essa versão americana do cabaré europeu. Os irmãos Marx tiveram sucesso no vaudeville e na Broadway. Assim, de alguma maneira, essas correntes subterrâneas da histeria, do cômico idiota (o Cômico Idiota era uma categoria de cabaré), vieram à superfície em algum momento da Comédia americana, tanto na televisão, quanto no cinema. Jerry Lewis foi, talvez, a expressão máxima dessa tendência. Lewis levou seus personagens para novos níveis da comicidade, onde a expressão corporal e o gesto eram motivos de exagero dentro do campo do personagem idiota. Seus personagens eram preguiçosos, irritantes, lunáticos como quem não tinha o cérebro funcionando direitinho, e andavam pelo mundo, levando suas ideias e suas bobeiras para quem cruzasse seu caminho.

Como muitos comediantes, ele começou trabalhando em dupla. O dueto de Lewis era particularmente interessante, porque seu companheiro foi Dean Martin, um galã de voz maravilhosa que encantava as mulheres. Lewis, ao seu lado, era o lerdo, o bobo, o idiota. Assim funcionaram muito bem durante muito tempo, mas depois Lewis começou a trabalhar de maneira independente como ator e como cineasta. O comediante escrevia e dirigia seus próprios filmes. Tinha tudo sob controle. Sempre fez o que lhe veio à cabeça, sempre contou as histórias que quis. Paradoxalmente, em alguns de seus filmes, continuou trabalhando como se tivesse uma colaboração, pois Lewis gostava de interpretar vários papéis em seus filmes, sempre a partir de dois personagens extremamente opostos. Como em O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, 1960), por exemplo, no qual interpreta ele mesmo, ou seja, a estrela Jerry Lewis, mas também um carregador de malas mudo e completamente idiota. O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), um de seus trabalhos mais conhecidos, também é exemplar, pois apresenta um professor lerdo e abobado que, para melhorar sua vida social, inventa uma fórmula que o transforma em outro homem, um que não acaba sendo o terrível Mr. Hyde, mas sim um galã de primeira categoria. Lewis, como diretor, conta com mais de 20 filmes e, como ator, com mais de 70. Sua marca está em tudo o que realizou. Ele era esse tipo desagradável, de trejeitos exagerados, abestalhado e desajeitado, que colocava todo mundo em apuros. Seus personagens oscilavam da perfeição ao disparate, da norma social à lerdeza, que faz sentir a "glória repentina" de Thomas Hobbes. Sua herança está em atores como Jim Carrey, Robin Williams, Pe-wee Herman, Chevy Chase, entre outros.

Incompreendido em sua época, amado pelos franceses e reabilitado em nossos dias, Jerry Lewis é visto, atualmente, como um mestre da comédia norte-americana. Um documentário como Método Para a Loucura de Jerry Lewis (Method to the Madness of Jerry Lewis, 2011) faz justiça a ele. Seu diretor, Gregg Barson, certa vez, entrevistou Lewis para outro documentário que estava realizando e então surgiu a ideia. Mas, claro, tinha que fazer um documentário sobre o mestre incompreendido! Logo começaram a trabalhar. Barson não somente teve o consentimento do comediante em questão, mas outros como Quentin Tarantino, Billy Crystal, Jerry Seinfeld, Steven Spielberg, Carol Burnett, Alec Baldwin, Chevy Chase, Eddie Murphy e Carl Reiner também adoraram participar. O documentário, que levou três anos para ser finalizado, não somente foca no legado de Lewis na comédia, mas também no mundo dos negócios e inclusive nas contribuições técnicas (sim, contribuições técnicas) de Lewis para o cinema.

O Marlon Brando da comédia americana - assim o chamam em algum momento do filme. Esse Marlon Brando vagabundo e desajeitado que deixou algo de sua arte – de sua arte boba, com raízes profundas naquelas velhas fotos de La Salpétriêre — em muitos dos comediantes contemporâneos e que marcou maneiras de olhar o mundo e de fazer comédia no cinema, também vagabundo e muitas vezes cruel.

Método Para a Loucura de Jerry Lewis, domingo, 28 de outubro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Um Gato em Paris, ou o que um gato faz durante a noite

por max 5. julho 2012 03:34

 

O que os gatos fazem durante a noite? O que fazem depois que sobem no telhado? Estas e outras perguntas são respondidas na ficção Um Gato em Paris (Une vie de chat, 2010), de Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol, animação que foi indicada ao César em 2011 e ao Oscar em 2012, como Melhor Filme de Animação em ambas as premiações. Os diretores mostram Dino, o gato desta história, em seus dois mundos: o do gato doméstico diurno, que vive com sua dona (e dona poderíamos citar entre aspas, porque uma pessoa nunca é totalmente dona de um gato), a pequena Zoé, que não fala desde que um criminoso tirou a vida de seu pai, um agente policial que apenas cumpria seu dever. Todas as manhãs, Dino leva para Zoé uma lagartixa morta, mas, num belo dia, ele aparece com um bracelete. Esse bracelete é, como o espectador já sabe desde o início, um indício da outra vida de Dino. O felino, em suas andanças sob a lua, acompanha um simpático ladrão chamado Nico, que pelas circunstâncias, acaba sendo outro gato da noite e vira um personagem querido da história, mas também um cúmplice do assassino do pai de Zoé. Atrás da pista do bracelete estão a mãe de Zoé, que é policial, e seu companheiro de trabalho. Mas Zoé não ficará para trás e, de seu jeito, acompanhará Dino em suas aventuras noturnas. Assim, com todos buscando resolver o mistério, vão aparecer confusões e perigos.

Personagens estilizados, que lembram art-decó, a luz, a noite, as igrejas, as gárgulas, os gatos (claro), um ladrão que lembra um pouco cavalheiros galantes como Rocambole ou Arsenio Lupin, personagens tão tipicamente franceses, e um grupo de adoradores que fazem homenagem ao cinema de Quentin Tarantino. Tudo isso, dá forma a este filme elegante, delicado e belo, com aventura e redenção, relações familiares e enigmas que fascinam. Um magnífico trabalho de animação na melhor tradição europeia, com tintas e homenagens ao cinema americano. Mas isso sim, nada mais francês que um gato sobre um telhado. E, ao fundo, a torre Eiffel.

Um Gato em Paris, nesta sexta, 6 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Martin Scorsese, ou um cara tímido e inteligente que sabe estourar

por max 25. novembro 2011 11:40

 

"A sua era uma vocação como poucas. Respirava, comia e cagava cinema". Assim Sandy Weintraub chegou a falar de Martin Scorsese, que continua tendo uma vocação como poucos, que segue respirando, comendo e cagando cinema. Costuma-se dizer que Tarantino sabe muito de cinema porque trabalhou em uma videolocadora e tudo o mais, mas quem realmente conhece cinema, quem lembra cada cena, cada tomada de todos os filmes que o fascina é ele, Marty, Martin Scorsese.

Ele era filho de alfaiate e costureira, e sempre andava e continua andando com roupas impecáveis. Viveu a maior parte de sua vida no bairro de Little Italy, em Nova York, e ama Nova York tanto como Woody Allen pode amá-la. Suas origens são humildes, e viu nas ruas de Little Italy, entre outros, aqueles imigrantes italianos, o verdadeiro rosto da violência e da máfia. Costuma-se dizer que ele cresceu entre padres e mafiosos. O jovem Marty tinha visto todas essas coisas e era pequeno, doentinho, sem pescoço, cegueta. Estava nas ruas, mas digamos que não era "feito"/apto para elas. Era testemunha, era um olho observador, mas não protagonista. Foi para um seminário estudar para ser sacerdote. Logo deixou o monástico refúgio e foi buscar outro mais profano e que tivesse mais a ver com seus interesses: começou a estudar cinema na NYU (Universidade de Nova York). Ali, encontrou-se com professores totalmente distanciados das imagens e das ideologias da Hollywood de então. Ali, falavam para ele de contar, fazer cinema com o que conhecia, com a vida da rua. Acreditava-se no realismo, acreditava-se na realidade nua e crua. O jovem Marty havia visto coisas, sabia que o mundo dos italianos não era como o de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo. Ele queria contar estas coisas, ele tinha a paixão, o conhecimento vivencial e o intelectual para contá-las. Era uma mente inquieta que falava a toda velocidade. Hoje em dia, continua sendo isso: um homem vestido com elegância, que fala a toda velocidade, que não deixa de falar de cinema e que sabe fazer cinema. Um cinema violento e real.

Então, naqueles primeiros anos, o jovem Marty esteve ali para fazer parte dessa Nova Hollywood junto com Spielberg, Coppola, Beatty, Altman, Kubrick... Coppola, um pouco anterior a ele, introduziu a fascinação italiana nos estúdios e no público. A fascinação italiana podia ser entendida como as histórias dos ítalo-americanos com armas, mas também a fascinação pelo cineasta ítalo-americano, jovem e com pretensões de ser autor, assim como o europeu, como eram Godard e Truffaut, por exemplo. Nasceu ali o filme que tornou Scorsese conhecido e que, claro, lhe causou problemas nos estúdios, como todos os novos filmes estavam dando problemas nos estúdios: estamos falamos de Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973). Era um filme da rua, muito cinema-verdade, que retratava a vida do bairro italiano de Nova York segundo Scorsese. Pequenos negócios sujos, pequenas vidas, muita falta de humanidade, abjeção. A realidade da violência é crua e aquele jovem diretor mostrou-a como era, um lugar sempre a ponto de explodir. A mente do homem também. Com Scorsese, entende-se que dentro do ser humano habitam obscuridades que dão dentadas. Que o homem é um animal estranho e que a realidade também é um animal estranho e violento. Desde aqueles primeiros tempos, Scorsese estava metido ali: rasgando a superfície serena do mundo, fazendo explodir os perigos, as histórias, os personagens. Filmes como Gangues de Nova York (Gangs of New York), Os Bons Companheiros (Goodfellas), Taxi Driver (Taxi Driver), Touro Indomável (Ranging Bull), Cabo do Medo (Cape Dear), Cassino (Casino) ou a Ilha do Medo (Shutter Island) são claras mostras de sua obsessão pelas obscuridades da mente e por mostrar como o mundo é um lugar perigoso, onde nunca estaremos a salvo. O jovenzinho magro, adoentado, com medo de tudo, surge nestes filmes. Um rapaz contido que explode, que também pode gerar violência. Um dos filmes onde se refletem tais traços desta parte da cinematografia de Scorsese é Depois de Horas (Afters Hours, 1985). Trata-se de uma produção classificada como comédia e que, pra mim, é mais um épico, mas um épico noturno e nova-iorquino. Depois de Horas é uma viagem às profundezas da noite, uma viagem de herói que sofre, de herói que não é herói, de guia de si mesmo. Porque é assim, Paul Hackett (Griffin Dunne), o protagonista de Depois de Horas vai chegando, a cegas, a si mesmo através de uma galeria de lugares e de personagens da noite. Mas aqui, a picaretagem fica atenuada, anula-se digamos na alma anglo-saxônica, e melhor ainda, nosso herói sofre, sofre como sofreria um personagem de Kafka através de situações embaladas por uma noite labiríntica. Paul Hackett vai rasgando a superfície da noite, e embaixo vai descobrindo perigo, loucura e morte. Paul Hackett poderia ser uma vítima, mas também poderia reagir e explodir no meio de todo esse turbilhão obscuro. Um filme irreal? A noite tem uma realidade tão irreal, e inclusive uma irrealidade tão real, que não saberia dizer.

Ninguém como Scorsese tinha conseguido fazer das explosões da mente, da violência e da loucura urbana uma forma de arte. Scorsese é o primeiro. Os diretores de hoje em dia, como Tarantino ou Ritchie, não estariam fazendo o cinema que têm feito se não fosse por Scorsese, que abriu essa porta nos anos 70, e deixou passar todo maquinário de sangue, barulho e fúria de seu cinema. O garoto tímido, o garoto bem vestido e inteligente, obcecado com o cinema, lança-se agora à cultura do cinema mundial como aquele que realmente é: um titã da sétima arte.

Delicie-se nesta segunda-feira, 28 de novembro, continuando com o ciclo Ícones do Cinema, com Martin Scorsese e Depois de Horas. Descubra seu ícone do cinema, descubra Max.

Dead Snow, horror e humor no cinema pós-moderno

por max 12. maio 2011 02:52

 

O cinismo da pós-modernidade faz arte. Arte divertida que vem do pensamento de quem já não acredita nas grandes narrativas da modernidade, na seriedade dessas narrativas mega pós-modernas que já não são válidas. Humor, cinismo e homenagem, a paródia da paródia, o humor do humor. Todos estes elementos pertencem à estética, à sensibilidade da pós-modernidade. Olhar para o passado, quando não há futuro (a queda das grandes histórias, a validade da história) olhar para lá, recriar, fazer pastiche e colagem. Uma arte de aditivos, arte referencial da pós-modernidade. Zumbis na Neve (Dead Snow, Død snø, 2009) do diretor norueguês Tommy Wirkola, é uma amostra bastante representativa de tais características. Lembre-se que Wirkola tornou-se um nome na indústria cinematográfica em seu país e alguns circuitos especializados por meio de Kill Buljo: The Movie (2007), um filme que presta homenagem, a paródia e o exagero de Kill Bill (2003 e 2004) de Tarantino. Temos aqui uma paródia da paródia: os famosos filmes de Tarantino são tributos de outros filmes do passado. Então a peça de Wirkola é um objeto imediato, cujos objetos dinâmicos (aqueles que são seus referentes) se referem a outras referências, a outras representações e portanto, formam uma interessante semiose fílmica. Zumbis na Neve, uma vez mais, têm as suas referências em outros filmes, neste caso de horror, especificamente de zumbis. Os clássicos americanos estão muito presentes, com suas constantes e seus lugares comuns, mas desta vez combinados em uma maneira que é bastante original: jovens amigos, festas, neve, sexo e zumbis... mas nazistas. Sim, os zumbis neste filme são nazistas. Zumbis na Neve é uma excelente mistura de terror com humor que sabe a hora de nos fazer rir, que sabe quando pode nos assustar e também sabe quando nos fazer dar gargalhadas nervosas. Uma jóia de ação, mau gosto, humor, horror e cinema contemporâneo.

Zumbis na Neve, na terça-feira 24 de Maio. Descubra Max.

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