A rebelião dos objetos, ou mesa de dissecação com liquidificador e pneu

por max 14. dezembro 2011 12:59

 

 

Em 1917, Marcel Duchamp quis fazer um objeto utilitário passar por obra de arte. Aquele objeto, um pinico, assinado por R. Mutt, intitulava-se "A fonte" e foi apresentado para participar da primeira exibição da Sociedade de Artistas Independentes. Era preciso pagar um valor muito pequeno para conseguir um lugar na mostra, e a mesma não contava nem com júri nem curadores. Mas aquele urinol foi recusado. Foi recusado pelos artistas mais revolucionários da época, porque consideraram o objeto uma chacota, uma afronta moral. Não era arte, este foi o parecer dado. O que Duchamp havia feito para merecer aquilo? Além de desafiar o ego dos artistas do momento e de colocar-se algumas décadas à frente, Duchamp fez algo que não havia sido feito até o momento: converter um objeto industrial, utilitário, em uma coisa. Mas o que é uma coisa? Uma coisa é algo indeterminado. É muito comum a frase: Que coisa é essa? ou também "Passe aquela coisa pra mim". A coisa é o indeterminado, aquele que não tem nome, aquele que não se sabe o que é. O que não tem nome, dá medo, e o que dá medo se recusa. Duchamp converteu o objeto utilitário em uma coisa, algo que não tem nome nem aparente utilidade. Duchamp fez do objeto cotidiano uma forma de arte e a chamou ready-made. Desde então, a vida dos objetos do mundo industrial, do mundo leigo, tem a possibilidade de rebelar-se, de saltar dali, de onde esses objetos viram coisas indeterminadas, perigosas e ao mesmo tempo belas; o sublime está muito perto do horror e da destruição. Lembremos também que o Conde de Lautréamont, precursor dos conceitos de arte e da poesia das vanguardas, falou da beleza, dizendo o seguinte: "Belo como o encontro de uma máquina de costura com um guarda-chuvas sobre uma mesa de dissecação".

Nesta quarta-feira, dia 14, os objetos se rebelam, passam de ser aquilo para o que nos servem, úteis ferramentas do dia a dia, para coisas com vida, que nos revelam obscuras realidades, obscuros espelhos de nós mesmos.


 

Começamos com Reflexões de um Liquidificador (2010), comédia brasileira de humor negro dirigida por André Klotzel. Aqui, um liquidificador ganha voz e se transforma no melhor amigo de uma mulher chamada Elvira. Este melhor amigo, liquidificador mortal, adverte Elvira que o marido dela tem uma amante. Reflexões de um Liquidificador, uma comédia cruel e afiada com as lâminas desse aparelho que fala e acusa.


 

 

E seguimos com Pneu (Rubber, 2010), de Quentin Dupieux: a história de um pneu, simplesmente um pneu que se chama Robert e que descobre que tem poderes paranormais. Com eles, com os poderes paranormais, Robert começará, tal qual um serial killer, a matar gente na imensidão de uma solitária estrada. Trata-se, como se vê, de uma das comédias de terror mais originais dos últimos tempos.

Já sabe, nesta quarta-feira, 14 de dezembro, chega no Max a rebelião dos objetos. Não perca!

Rubber, o objeto assassino

por max 2. dezembro 2011 06:24

 

Outro objeto que se converte em uma coisa misteriosa e terrível. Um pneu que roda, que serve para fazer rodar, simplesmente um pneu, se encherá de uma estranha obscuridade, se transformará em uma coisa, tomará vida própria e será mortal. Sim, houve um tempo em que era moda os assassinos da estrada, personagens que davam carona, que passavam por simpáticos ou por enigmáticos e terminavam matando suas vítimas. A estrada sempre teve esse mistério, esse encanto misterioso. Mas pensar que esse tipo de filme viraria, na cabeça de alguém – neste caso, na cabeça do diretor francês Quentin Dupieux -, na história de um serial killer, um assassino em série em forma de pneu, já é algo que escapa de toda e qualquer possibilidade de previsão, providência e inclusive suspeita. Dupieux, sem dúvida, fez isso com Rubber (2010).

Apesar de ser mais conhecido como o músico de eletro-house Monsieur Olizo, Dupieux trabalhou em dois filmes anteriores a Rubber. Nesses, ele já vinha jogando com a mistura de gêneros sob o ponto de vista da sátira. Em seu primeiro filme, Nonfilm (2002) nos apresenta o ator de um filme de ação que acorda no meio de um tiroteio em um filme que não é seu...e o tiroteio, além disso, parece muito real. Em Steak (2007), os protagonistas são dois jovens não muito equilibrados que decidem fazer cirurgias plásticas (exageradas) com a finalidade de serem aceitos no mundo dos mais belos. Uma comédia dura que nos lembra o mestre Boris Vian.

Assim, em Rubber (2010), Dupieux vai além e o assunto aparece de uma forma ainda mais delirante: um pneu chamado Robert que mata pessoas. O objeto converteu-se em coisa. Que coisa é essa? Trata-se de um pneu com poderes telepáticos, assassino e obcecado por uma garota. O objeto deixa de ser um objeto para virar uma coisa, uma coisa terrível, protagonista deste filme que fica entre a comédia e o terror.

Quer mais? Veja, então, Rubber, este mês. No Max.

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