Goethe!, ou a luta entre a razão e a paixão

por max 17. fevereiro 2012 06:17

 

O pensamento da modernidade surge como reação à imposição do pensamento religioso único, do poderio da igreja católica e da superstição vindos da Idade Média. A modernidade advogava pela razão como bandeira indispensável para os novos tempos, nave veloz que levaria o homem a um futuro melhor, que o faria livre. A revolução industrial, o pensamento do Iluminismo, influenciado em grande parte por Descartes, a volta ao mundo clássico, sua reavaliação em busca da sabedoria, toda aquela firme crença na observação, o estudo e a utilização pura da mente em assuntos estritamente matemáticos e científicos, tomaram completamente a visão do mundo. Ou seja, todo pensamento superior, todo homem ou grupo de homens que tinham poder de influenciar a sociedade começaram a ver a realidade somente a partir dessa única perspectiva e nada mais. Como acontece com as novas ideias do homem, tudo fica exagerado, tudo torna-se extremamente demasiado, e tudo acaba sendo uma forma de radicalismo. Aquele que, no princípio, foi bom e além disso reagiu à tirania, termina virando a própria tirania e não admite outras perspectivas. No final do século XVIII surge, na Alemanha e no Reino Unido, um movimento que será uma reação ao pensamento da modernidade e que é conhecido como Romantismo. Assim, este movimento, tanto cultural quanto político, converte-se em crítica, em turbilhão ou redemoinho revolucionário, que alça o eu como entidade autonôma, acima dos estereótipos e das regras universas classicistas (da época clássica, como acontece no século XVIII). O romantismo coloca frente a frente o sentimento e a aventura da imaginação, e pensa no poeta como um artesão, um explorador de mundos diferentes e exóticos que estão além das fronteiras, ou no folclórico esquecido. O romântico busca a originalidade, o novo, o único, é um herói rebelde cheio de sensações. Frente à razão, o romântico opõe os sentimentos, o sentir profundo e arrebatado. Claro, o amor chamado romântico tem aqui um papel fundamental. O amor que é sentido profundamente, que é como uma tormenta sobre a campina, que prontamente torna-se impossível, que faz sofrer; esse é o amor que importa, o amor que vale a pena para o romântico.

O filme Goethe! (2010), do diretor alemão Philipp Stölz, representa esta luta entra a razão e o sentimento através da história juvenil de um dos autores mais importantes da Alemanha (para muitos, o mais importante), que influenciou, com sua personalidade e sua obra, a construção do romantismo alemão e europeu: Johann Wolfgang von Goethe, interpretado magistralmente por Alexander Fehling (Bastardos Inglórios), que incorpora o personagem com a paixão precoce que se requer para nadar nas águas da razão e do sentimento arrebatado, que é o que o cineasta busca representar.

Stölz, com habilidade e sutileza, propõe imagens, lugares, símbolos de ambos os mundos. Pelos terrenos da razão, campeiam os deveres, o trabalho mecânico, a instituição acadêmica, o compromisso amoroso surgido do dinheiro como forma de domínio, representando este domínio, este poder pela sociedade em geral e pelo personagem Albert Kestner (Moritz Bleibtreu, protagonista do inesquecível A Experiência (Das Experiment), antagonista do herói, chefe rico e dono do compromisso matrimonial de Lotte Buff (Miriam Stein), moça por quem o jovem Johann se apaixona. Os desvarios libertários do futuro grande poeta, sua repulsa ao trabalho, sua rebeldia inata e, claro, o amor desmedido e impossível são contrapartida para o enfrentamento do mundo da razão, que ele destacou. Essa luta, essa tensão entre ambos os pólos contribui para formamos uma ideia do homem que seria um símbolo da nação no futuro, um homem que, graças ao diretor, mostra-se mais humano, perdido em seus desejos e suas buscas, mais próximo.

Um filme de época muito bem recriado, atuações magníficas, paixões e poderes da razão que visam esmagar o sentimento. Leve e ao mesmo tempo dramático e profundo, Goethe! nos aproxima, de forma magistral, de um dos grandes poetas da Alemanha e do mundo, o que acaba transformando-se no grande trunfo do filme.

Goethe!, neste domingo, 19 de fevereiro. Reivente, imagine de novo... Descubra o Max.

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