Trabalho Interno, ou o grande roubo a banco, de dentro

por max 29. setembro 2012 03:10

 

Há pouco tempo, estive em Orlando, Flórida. Não ia para lá há muito tempo e vi algo que jamais havia presenciado ali: vários hotéis fechados, abandonados, com mato ao redor. Também fui ao que se conhece por Church Street Station: quase todos as firmas daquela antiga rua cheia de vida em outros tempos estavam fechadas. Imediatamente pensei na crise financeira norte-americana. Imediatamente pensei em Trabalho Interno (Inside Job, 2010).

Este filme, dirigido por Charles Ferguson, ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 2011. Ele nos explica, sem complicações nem termos técnicos, a causa dessa crise, que não foi somente norte-americana, mas também mundial. O próprio Ferguson disse isso em uma entrevista. Compreender o que aconteceu é fácil: foram roubos a bancos e os ladrões não eram criminosos armados que entraram com armas. Neste caso, o roubo partiu da parte de dentro (foi, pois, um inside job), partiu dos colarinhos brancos. O que é complicado, claro, são os detalhes, como conta o mesmo Ferguson. Mas o filme, nesse sentido, é uma maravilha do ponto de vista didático. Mostra o que ocorreu e conscientiza a respeito. Quem o realiza não é um recém-chegado ao mundo das cifras. Ferguson estudou Matemática em Berkeley e fez doutorado em Ciências Políticas, nada mais, nada menos que em M.I.T. Foi consultor de agências governamentais, inclusive da Casa Branca, e de empresas como Apple e Motorola. Em 2005, fundou a Representative Pictures, companhia que lhe serviu de plataforma para o próprio trabalho cinematográfico: No End in Sight (2007), seu primeiro documentário, centrado na administração Bush e no tema do Iraque, e Trabalho Interno (2010), este outro documentário baseado na crise financeira.

No documentário, Ferguson nos mostra como a falta de regulamentações governamentais unida à avareza e à mentira de companhias financeiras muito poderosas de Wall Street, além do silêncio e inclusive da mentira de importantes acadêmicos, produziu esta terrível crise em 2008. Todo um caso de cumplicidades, silêncios e mentiras de um pequeno grupo que acabaram afetando uma grande quantidade de pessoas e ao mundo inteiro.

Como disse o próprio Ferguson, os culpados não foram castigados e inclusive seguem ao lado do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quem, segundo o diretor, não fez nada relevante para corrigir o mau caminho, o mau passo. Caminho que, em determinado momento, percebeu-se, pura miragem, como a rota dos grandes tempos. Nesse sentido, é maravilhoso o tema "Big Times", de Peter Gabriel, para começar o documentário (aqui podemos ver o vídeo original de Gabriel). E, talvez, estes criminosos não tenham ido para a prisão, mas Ferguson os destaca com nomes e sobrenomes. Aí estão seus nomes, seus rostos (inclusive daqueles que não quiseram participar), e ali também a voz que os denuncia. E talvez, desde que o documentário se transformou em sucesso de público e crítica, estes ladrões de colarinho branco não estejam mais podendo dormir tão tranquilos como antes. Apenas talvez, lembre-se do "talvez"; o melhor não lhes interessa.

Trabalho Interno, documentário vencedor do Oscar, dirigido por Charles Ferguson, este domingo, 30 de setembro. Ah, a narração é de Matt Damon.

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