Bem-vindo ao mundo, drama da guerra na Bósnia estrelado por Penélope Cruz

por max 13. março 2014 01:40

 

Penélope Cruz, a única atriz espanhola ganhadora de um Oscar, em seu caso, como o de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme de Woody Allen Vicky Cristina Barcelona (2009), estará conosco no Max, dentro do ciclo dedicado às mulheres voluntárias, fortes e rebeldes.

Atriz de reconhecido talento, Penélope Cruz é uma bela madrilena que estudou dança e conseguiu ser notada por seus papéis engraçados, sexys e também dramáticos nos filmes de Almodóvar. Desde o ano 2000 vem desenvolvendo uma carreira em Hollywood, atuando em filmes como Espírito Selvagem de Billy Bob Thornton com Matt Damon, Profissão de Risco de Ted Demme com Johnny Depp, ou Vanila Sky de Cameron Crowe, com Tom Cruise (com quem teve um relacionamento por um tempo). Mas, claro, sua grande oportunidade foi em Vicky Cristina Barcelona.

No entanto, a atriz nunca se desvinculou da Europa. De fato, Vanilla Sky, como você se lembrará, é um remake de Abra Os Olhos (Abre Los Ojos) filme de sucesso de Alejandro Amenábar. Assim temos Penélope, por exemplo, trabalhando com Almodóvar em 2009 em Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos) e em 2004 com o cineasta italiano Sergio Castellitto em Não Se Mova (Non Ti Muovere), filme baseado em um roteiro da esposa de Castellitto, Margaret Mazzantini. Em Abraços Partidos, Castellitto tinha uma relação apaixonada com uma mulher de poucos recursos chamada Italia. Claro, Italia era Penélope Cruz. Em 2012, ela voltou a trabalhar com Castellitto e sua esposa em Bem-Vindo Ao Mundo (Venuto Al Mondo), filme apresentado este mês no Max dentro do ciclo de filmes dedicados à mulher.

Com roteiro de Margaret Mazzantini, Bem-Vindo Ao Mundo é também a história de um amor quase impossível que aconteceu entre o passado e a guerra. Gemma (Penélope Cruz) voltará ao lugar onde se apaixonou por Diego (Emile Hirsch), onde sofreram com a impossibilidade de terem um filho, onde finalmente tiveram um filho e onde, também, morreu Diego: estamos falando sobre a Bósnia, da Bósnia que temos acesso em dois momentos, a dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 e a do terrível conflito que teve início em 1992, resultado da queda da União Soviética e das aspirações libertárias da Bósnia-Herzegovina contra a República Socialista Federal da Iugoslávia.

Gemma volta com seu filho já adolescente (interpretado por Pietro Castellitto, filho do cineasta) e vai recordando a história de seu amor, que ao mesmo tempo é a história da guerra. Nessa memória se misturam o caos e o amor, e quem vai se aprofundando é Gemma, interpretada magnificamente por Penélope Cruz.

Bem-Vindo ao Mundo, este mês no Max.

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Pina, os encontros da arte

por max 23. fevereiro 2013 04:56

 

 

Primeiro encontro

Pina Bausch foi uma das coreógrafas mais importantes dos nossos tempos. Foi a precursora do que chamamos de dança-teatro, herdeira do expressionismo (muito alemão, certamente) e de toda aquela dança surgida na vanguarda que fez uma mudança radical no que era, até então, uma série de regras acadêmicas, de pesos, engessados ao tradicional balé clássico. Fundadora da célebre Tanztheater de Wuppertal, Bausch abriu as portas no início dos anos sessenta, época da liberdade artística, da revolução cultural e jovem; também podemos dizer que foi época do pós-modernismo, onde os jogos, o cruzamento das disciplinas e a beleza do heterogêneo criaram um campo fértil.

O medo, a violência, o sexo, a dor, o amor, o delírio, a alma fragmentada, nossa alma, eram os temas da coreógrafa, tudo isso dentro de cenários que buscavam romper os limites entre os palcos e a realidade, entre os palcos e a paisagem externa, principalmente urbana.

Odiada, adorada, Pina Bausch, a fumante inveterada, se tornou uma lenda. A grande lenda das artes, que alguns podem chamar de pós-moderna e, embora ela sempre se mantivesse nos bastidores, foi o objeto da lente de diretores como Fellini, Almodóvar ou Wim Wenders.

 

Segundo encontro

Wim Wenders é um diretor alemão que nos apaixonou com filmes como Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1994), essas histórias sobre anjos com um certo elemento rilkeano. Mas Wenders é também o autor de obras como O Amigo Americano (1977), com Dennis Hopper (baseado no famoso romance de Patricia Highsmith), e também de Paris, Texas (1984), com roteiro de Sam Shepard e atuação de Nastassja Kinski. Wenders era amigo de Pina Bausch.

 

Terceiro encontro

Nos últimos anos o cineasta alemão tem se interessado por música. Como Pina Bausch, procurou fazer o cinema sair de seus limites. Assim, fez documentários onde o cinema e a música se encontram. Seu trabalho mais conhecido sobre essa busca é, sem dúvida, Buena Vista Social Club (1999), documentário que, com o guitarrista Ry Cooder e o produtor Nick Gold, resgatou do esquecimento um grupo de músicos cubanos. Wenders também realizou trabalhos com U2; e documentários sobre Willie Nelson, no blues, e com a banda de rock alemã BAP, com a finalidade de homenagear sua cidade natal, Colônia.

Há um tempo, Wenders está buscando o encontro desses caminhos: o documentário, a ficção, a música, as artes, o cinema. Em 2011, alcançou o auge (não sabemos se haverá outro) dessa busca com Pina, filme que foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2012.

 

Quarto encontro

Pina não é só um documentário sobre Pina Bausch. De fato, Pina morreu durante o processo de realização do documentário. Wenders que, como já havíamos dito, era amigo dela, decidiu deixar seu trabalho para trás, mas os alunos de Pina o convenceram a continuar. Wenders, então, continuou as filmagens de Pina que não é um documentário sobre Pina, e nem sequer é um documentário propriamente dito.

Pina é parte documentário e parte teatro-dança fora dos palcos. O filme tem quatro obras da coreógrafa realizadas nas ruas e também é filmado em 3D, um 3D que nas salas de cinema contribuiu para mostrar a magnífica profundidade do formato. Wenders, um cineasta que sabe realmente o que fazer com a tecnologia, fez do formato uma ferramenta para mesclar corpos, cenário e música em uma peça cinematográfica de primeira classe.

O espírito de Pina Bausch passeia por este trabalho de Wenders com sua energia, com sua inteligência e intuição radicais. Claro, com sua morte repentina, há muito de suas melancolia, de suas lembranças. Mas a tristeza se torna uma presença benevolente, que realça o filme, esta estranha e maravilhosa mistura de documentário com dança e homenagem póstuma.

 

Despedida

Pina, de Wim Wenders, domingo 24 de fevereiro. Dança, paixão, tristeza, arte. O que você vê quando vê o Max?

 

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Potiche – Esposa Troféu, ou as mulheres e Ozon

por max 7. dezembro 2012 11:58

 

François Ozon é o Pedro Almodóvar dos franceses. Ok? Bom, talvez sejam bem semelhantes. Também pode se dizer que Almodóvar é o Ozon dos espanhóis, o que pode até parecer sexy para alguns. Melhor, não é?!

A verdade é que Ozon adora fazer filmes com mulheres, nos quais elas são más, boas, as heroínas absolutas. Defensor da causa da mulher, Ozon escreve e dirige seus filmes repletos de crítica social, de burguesia ambiciosa e desenfreada, e de mulheres em situações extremas e delirantes, que em momentos podem se mostrar terríveis, como Perséfone, mas também como as protagonistas absolutas, as lutadoras, as braços fortes do intenso drama ou da comédia "leve".

Este mês, o Max apresenta Potiche – Esposa Troféu (Potiche, 2010), uma claríssima mostra deste aspecto da cinematografia de Ozon. Potiche, palavra que designa um enfeite de casa caro, é também metáfora para esposa bonita, mas inútil que decora o lar de um marido próspero. Aqui é Catherine Deneuve, no papel da senhora Pujol, o "vaso" mais que adorado do dono de uma fábrica de guarda-chuvas, que, de um dia para o outro, é atacado pelos empregados, que o sequestram. O marido da personagem de Deneuve, vale dizer, é um tirano, um desalmado, que, no entanto, tem coração, pois teve problemas no coração durante o seu sequestro. É por isso que a senhora Pujol terá que tomar as rédeas do negócio. O senhor Pujol pensa que a inútil será uma boneca perfeita enquanto ele se recupera. E o que acontece? A inútil acaba sendo uma maravilha de gerente que soluciona o conflito trabalhista, se torna querida e respeitada, e, além disso, volta a encontrar o amor - um ex-amante que agora é político conhecido, interpretado por Gérard Depardieu. Mas ela, é preciso ser dito, não faz tudo isso com o furor de uma feminista agressiva; continua elegante, charmosa, maravilhosa em sua posição de líder. Por que perder uma coisa em detrimento da outra?

É uma comédia, sim, mas não uma comédia qualquer. É uma comédia de François Ozon, perspicaz, inteligente, estridente e, além disso, carregada de cores e imaginário kitsch, pois é ambientada nos anos 70, época de cortes fortes e fortes enfrentamentos libertários e ideológicos, a mesma época em que se situa a peça de teatro na qual está baseado o filme. Comédia leve, sim, mas, ao mesmo tempo, certeira e crítica. Igualmente emocionante, agradável e interpretada de forma magnífica. Não é fácil fazer algo assim, perguntem a Woody Allen, que certamente lhes dirá que sim, é fácil. Ou perguntem para Almodóvar, que não sei o que dirá.

Potiche – Esposa Troféu, domingo, 23 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Pele que Habito, ou Almodóvar muito além da ciência

por max 15. agosto 2012 07:58

 

Dizem que A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011) foi um desafio para Almodóvar porque ele adentra no terror e no thriller. Pela parte do desafio é certo, mas não é sua primeira vez nesse tipo de investida. O cineasta já havia feito uma incursão pelo "terror repugnante" em Fale com Ela (Hable con Ella, 2002), no qual se descobre que o personagem Benigno fez sexo com uma mulher em coma (coisa que é apresentada, intencionalmente, de maneira patética e terrível ao mesmo tempo). Com o gênero fantástico, ele também havia se aventurado em Volver (2006), filme onde uma mãe volta da morte para acertar alguns assuntos familiares. Contudo, o fantástico de A Pele que Habito toma outros caminhos dentro do gênero, neste caso, a ficção científica, que no filme se transforma em uma referência para introduzir os temas próprios do diretor. Falar de ficção científica no sentido exato seria exagerado (apesar de Almodóvar já ter produzido Ação Mutante/Acción Mutante, muitos anos antes, para o então principiante Álex de la Iglesia); porém, a ciência unida ao sexo e ao fantástico (neste caso, próximo do milagroso) não é tão estranha em sua cinematografia. Em Tudo sobre Minha Mãe (Todo sobre Mi Madre, 1999), o tema da AIDS é fundamental. Ali temos uma freira com AIDS que, além disso, dá à luz um filho que não está infectado. A AIDS e a ciência são um fator de união importante no relato.

Poderia dizer que, com estes filmes, de alguma maneira Almodóvar ia preparando o caminho para o que seria seu mais recente trabalho, agregando novos elementos para continuar falando sobre sua principal temática dos últimos anos: a sexualidade. A alma e o corpo, a preferência sexual e a imposição social, a condenação através da rejeição, a estrutura física e as preferências sexuais, os limites entre amor e tabu e entre tabu e imoralidade. Almodóvar se inspira em Tarântula, história original de Thierry Jonquet, para abordar os temas de seu interesse, o que dá, certamente, uma variação e um toque original típicos de Almodóvar, a partir de sua visão sobre o argumento e o tema.

Quanto à fotografia e ao cenário, o cineasta apresenta um mundo altamente estético, minimalista e asséptico onde vivem o mal e a loucura. Antonio Banderas, no papel do doutor Lafargue, cirurgião plástico bem sucedido, transpira uma espécie de vazio vital unido a uma ira contida, tensa. Na superfície, ele é luz, embaixo, nos porões (no espírito e na realidade) é o torturador de um jovem rapaz, a quem vai transformando por meio de um inovador implante de pele artificial, cepa genética que ele criou.

Por que a transformação? Lafargue quer superar a perda de sua filha, morta em um suposto ato de violência. O suposto autor vai sendo transformado em mulher (Elena Anaya) e, para completar «o tratamento» ou o «castigo», será submetido a um processo de treino «cultural» sobre o feminino e também a um trabalho de educação «sentimental» que transite entre a síndrome de Estocolmo e a resignação do algoz, já há anos vítima do doutor.

Neste cenário, Almodóvar se pergunta e nos questiona sobre a constituição da alma humana e sobre as obscuridades da ciência pura, e faz pensar, uma vez mais, que estamos na presença de um diretor fiel à pós-modernidade. Neste caso, ele questiona a consistência da razão moderna quando usada em prol de certas necessidades e obscuridades da alma humana. O que faz com que um homem seja homem? O que faz com que uma mulher seja mulher? Podemos impor a um ser humano sua sexualidade, dizer como tem que agir e como tem que ser? Podemos ser os ditadores da alma? Nem a ciência, com sua pretensa capacidade para mudar tudo, pode entrar nas profundezas do espírito. O amor e o sexo são questões, paradoxalmente, de pele. Nunca uma pele real poderá substituir essa outra pele que constitui o verdadeiro âmago do ser.

Filme de terror, thriller psicológico, exploração existencial pós-moderna, estética bem cuidada que lança luz sobre a escuridão, cinema de autor, cinema muito de Amodóvar; assim é A Pele que Habito.

Estreia exclusiva neste domingo, 19 de agosto. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Nascidas para sofrer, ou a comédia da solidão

por max 24. fevereiro 2012 09:28

 

Quão valente podemos ser diante da solidão? Há quem diga que suporta, há quem acredita que pode com ela. Talvez alguns tenham essa força. Pois, o filme Nacidas para Sufrir (2009), de Miguel Albaladejo, é uma comédia que gira em torno das angústias, das resistências e das lutas que nascem do possível enfrentamento com os espaços imensos da solidão. Flora (Petra Martinez) descobre, da noite para o dia, que viveu, durante toda a sua vida, a vida dos outros, cuidando deles, educando-os, preparando-os para o futuro. Ela vem sendo uma abnegada, ou uma resignada, que nas suas pequenas ilhas de existência, se sacrificou como faziam as muitas mulheres de antigamente – que fazem ainda hoje – pelos demais. O ideal cristão (a figura da jovem freira não é demais aqui) está ali de fundo, o amor ao próximo que fará feliz à humanidade inteira. Tem sido boa, tem se esforçado para ser boa e por fazer o bem, o que, às vezes, isso de ser bom converte-se em competência ou concorrência entre as mulheres. Serem boas e sofrer, sofrer e serem boas. Sempre e para sempre.

Contudo, quando já se encontra livre dos penosos cuidados, quando suas sobrinhas órfãs já cresceram e já se foram, Flora percebe que o que tem pela frente é o arcabouço da solidão. Com 72 anos, está perto de cair na via fácil (para os familiares) do geriátrico. A solução para não cair no esquecimento? Casar-se com Purita (Adriana Ozores), uma jovem submissa que sempre a acompanhou em seus trabalhos. Simples assim. Mesmo que pareça, em alguns momentos, que a desculpa não parece tão desculpa assim e que a senhora abnegada e boa, no fundo, está mais para uma tirana que encontra sua escrava.

Miguel Albaladejo consegue, dentro dos esquemas da comédia de costumes, trazer os assuntos contemporâneos e universais para o mundo rural. Porque a província, esse lugar no campo, não está exilado do mundo e está até bem próximo do que é próprio da cidade, também dos prédios, onde se vive talvez até com mais escândalo, resultado de discussões entre senhoras. A solidão, esse tema tão usado, o casamento entre parceiros do mesmo sexo, as uniões amorosas entre pessoas com diferenças enormes de idade, tudo isso está aqui, em um trabalho conjunto formado por mulheres, mulheres boas, caridosas, mas não sei se tão longe de um ataque de nervos (impossível não lembrar de Almodóvar), mas certamente da solidão, de um medo da solidão que se aproxima até meio divertido em sua maneira de apresentar-se. Porém, por trás disso tudo, entendemos que a comédia é uma porta para a crítica social, aprendizado que o cineasta obteve diretamente de seu mestre Luis Garcia Berlanga, com quem trabalhou em Todos a La Cárcel.

Humor negro e ternura em um filme que equilibra as duas coisas com o drama, para oferecer frescor, reflexão e gratos momentos. Nacidas para Sufrir, o melhor do cinema espanhol, neste sábado, 25 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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