Preso na Escuridão, Um filme de um diretor nada virtual

por max 17. maio 2012 02:52

 

A realidade virtual tem estirpe. Se lembrarmos a caverna de Platão, já a partir dali estamos falando de um mundo de aparências, de sombras. Cada vez mais entendemos que nossa percepção do mundo é limitada, que aos nossos sentidos escapam milhares de detalhes. Por outro lado, as teorias de Vlatko Vedral, físico quântico de Oxford, sobre a informação e a superposição de quanto elas são insólitas. "É incorreto, lógica e fisicamente, ou melhor, experimentalmente, falar de fragmentos de energia ou matéria que existam com independência de nossa capacidade de confirmar-los experimentalmente", diz Vedral. E ele vai mais fundo: "Nossa interação com o mundo é fundamental para que surja o próprio mundo, e não se pode falar dele independentemente disso. Por esta razão, minha hipótese é que as unidades de informações são o que se acredita ser a realidade, não as unidades de matéria, nem de energia."

A realidade não é uma só e não existe apenas uma resposta para entendê-la. O cinema e a literatura (e a filosofia) vem afirmando isso há tempos. Antes das visões da realidade virtual de Matrix (The Matrix, 1999), outros filmes e séries de televisão trabalharam essa ideia. Na década de 70, a série Dr. Who já falava de um lugar chamado The Matrix. E Tron (1982), filme da Disney, se passa todo no interior de um computador. O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven, mostra um Arnold Schwarzenegger enredado entre duas realidades. O filme é baseado em conto de Philip K. Dick. Um dos principais escritores de ficção científica, ele publicou suas primeiras obras nos anos 70 e várias foram adaptadas para o cinema. Para Dick, a exploração dos mundos paralelos, virtuais, era uma maneira de questionar a realidade, de colocá-la em dúvida, de fazer-se perguntas sobre a existência. Mestre dos mestres, Philip K. Dick levou este tema à novas fronteiras e logo foi seguido por outros, como William Gibson nos anos 80.

Sim, o tema de uma realidade paralela, alterada, virtual, não é novo. Muita água correu embaixo dessa ponte e seguirá correndo. Um filme de primeira categoria, que explora a alma humana a partir da perspectiva de uma segunda vida, de uma nova oportunidade - não se sabe se bem sucedida - em uma realidade diferente, é Preso na Escuridão (Abre los Ojos), do espanhol Alejandro Amenábar.

Segundo filme do então ainda jovem realizador (40 anos), Preso na Escuridão se transformaria em outra mostra de seu inegável talento. Amenábar conheceu o sucesso já na estreia com Morte ao Vivo (Tesis, 1996), thriller emocionante e cru que se passa no mundo especulativo, quase se poderia dizer virtual, dos snuff films. As expectativas para os próximos filmes do diretor eram imensas e ele não decepcionou. No ano seguinte, com todos os olhares voltados para ele, lançou Preso na Escuridão, que encantou público e crítica.

Eduardo Noriega é outra vez o protagonista e Mateo Gil (com quem ele ainda trabalha), o roteirista. Amenábar conta uma história carregada de profunda desolação onde nem o amor, nem o sexo, nem o dinheiro trazem as respostas. Ao final, debaixo de toda essa tramóia montada pelo ego para nos convencer de que somos alguém e que estamos bem com o que somos, sem nada além da superfície, ao final disso, o que existe é um grande vazio, uma grande cegueira.

Preso na Escuridão reflete sobre isso e vai além. É um filme cheio de suspense, até com elementos de terror, uma jóia da ficção-científica sem efeitos especiais, onde o que importa é a história. Quando não se conta com um grande estúdio, o que realmente importa é roteiro e atuações. E o filme tem Eduardo Noriega, Najwa Nimri e Penélope Cruz em grande momento. Eles levam o roteiro, excelente desde o começo, além de suas expectativas. Ágil, ligeiro, cuidadoso com a fotografia, Amenábar dirige com mão leve e certeira este filme que já é um clássico. Tom Cruise refilmou a história em 2001 (Vanilla Sky), mas essa é outra história. Em 2005, com Mar Adentro, Amenábar ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e esta também é outra história. Mas é uma história muito agradável e importante porque mostra que Amenábar não é um diretor qualquer, um diretor virtual, desses que desaparecem depois da fama dos primeiros sucessos.

Preso na Escuridão, sexta-feira, 18 de maio. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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