Rota Irlandesa, ou as guerras de Ken Loach

por max 8. fevereiro 2013 12:34

 

Ken Loach é diretor comprometido. Seu mundo é o dos trabalhadores, o dos explorados, o das lutas contra os poderes. A guerra, esse lugar onde as tensões entre o homem e os poderes são tão fortes, já foi, é claro, tema de vários de seus filmes. Agenda Secreta (Hidden Agenda, 1990) apresenta o tema do terrorismo britânico no norte da Irlanda no formato de thriller político. Honra e dignidade são os temas deTerra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), drama histórico ambientado na Guerra Civil Espanhola, cujo protagonista é um britânico que se une ao grupo republicano. Em 2006, Loach volta à guerra em Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley) e, desta vez, se move para os terrenos da guerra da independência e da guerra civil na Irlanda. Aqui também ressalta o valor dos homens (dois irmãos em particular) diante da repressão dos ingleses, sua ânsia de liberdade, paixão e determinação em alcançá-la. Já em 2010, com Rota Irlandesa, sua visão da guerra parece ser outra.

Trata-se, sem dúvida, de uma película típica de Ken Loach, escrita por Paul Laverty, o roteirista que já o acompanhara em outro filme sobre a guerra, Ventos da Liberdade. O título Rota Irlandesa (Route Irish) vem da rodovia que liga o aeroporto de Bagdá à Zona Verde da cidade, em determinado momento do filme considerada a rota mais perigosa do mundo. Então, de saída, situa o espectador dentro da área que corresponde a seus filmes comprometidos que versam sobre a guerra. Mas, desta vez, Loach não vai ao passado para contá-la, como havia feito em duas ocasiões anteriores — e o que talvez dava ao próprio tema da guerra um tom romântico, idealista. Agora o cineasta vem a tempos mais próximos, à Guerra do Iraque, para mostrar como (e se isso fosse possível) até mesmo a ideia da guerra mudou para as mãos de uma brutal e mercenária privatização.

Loach se lança para os abismos da conspiração e se vale (de novo, como em Agenda Secreta) de um formato muito hollywoodiano para contar esta história. O thriller determina aqui um enredo muito mais centrado, diferentemente de outros filmes seus, para mergulhar, a partir desse centro, no mistério de uma morte, por trás da qual, já dissemos, há uma aparente conspiração que tem a ver com setores privados envolvidos na guerra.

Realista, sem sentimentalismo, acusador, Ken Loach rasga a cortina e se debruça sobre os prédios das companhias de segurança britânicas que atuaram no Iraque, meras máscaras privatizadas do mundo mercenário, onde a cobiça se movimenta com duros golpes de bilhete. A história está carregada da ira e da indignação de seu protagonista, Fergus Molloy (Mark Womack), que parte en busca das verdades por trás da morte de um amigo íntimo. No entanto, as paredes são altas, e campeia a impunidade. São outros tempos, tempos sem romantismos, sem ideais, tempos de capital, de interesses, tempos mais frios, calculistas, e, ao mesmo tempo, mais horrendos. É o que parece nos dizer Ken Loach.

Rota Irlandesa, neste domingo, 10 de fevereiro. Guerra, thriller, compromisso social, poder. O que você vê, quando vê o Max?

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Conflito das Águas, ou os paralelos da história

por max 9. novembro 2012 14:08

 

O homem moderno entende que a história não é cíclica, que não há elementos do pensamento sagrado que nos façam voltar às origens nem repetir certos acontecimentos por predestinação ou nada parecido. Contudo, a história moderna aceita, sim, que há certas constantes que se repetem em determinados momentos históricos e em lugares diferentes. Há certos padrões que obedecem causas muito complexas e que, claro, têm a ver com a essência do homem, com o uso excessivo do poder, com o abuso da liberdade. Para a ficção, tais repetições ou paralelos são muito atraentes, inclusive sob uma perspectiva quase mágica. Parece que a ficção, sim, se permite usar desse pensamento sagrado, dessa concepção cíclica. Há algo na literatura que abraça a magia com imprudência. O filme Conflito das Águas (También la lluvia, 2010), da diretora, roteirista e atriz espanhola Icíar Bollaín (Pelos Meus Olhos/Te doy mis ojos, Mataharis), assume a chamada narração no abismo, a de uma história dentro de outra história, para nos mostrar a crua realidade de um paralelo histórico que nos leva a uma compreensão do abuso do poder.

As filmagens de um épico sobre um Cristóvão Colombo cruel com os índios e faminto por ouro se desenvolve ao lado da chamada Guerra da Água, que aconteceu na Bolívia no ano 2000, guerra que não foi literalmente uma guerra, mas sim um grande protesto em Cochabamba contra a privatização do serviço de água por parte de uma companhia multinacional. As semelhanças ficam mais que claras. O poderoso, em seu abuso de liberdade, sempre desejará tudo para ele e sempre cometerá seus piores abusos exatamente onde a inocência das pessoas é maior. Porém, dentro dessa compreensão da história moderna, Bollaín honra a carga mágica da ficção e não fica apenas no simples paralelismo. Entende que os tempos mudam, e também os homens, os povos, e relata a luta daqueles cidadãos que combateram a privatização da água, daqueles que lutaram, que sofreram, que padeceram, mas também triunfaram.

Protagonizada por um grande ator espanhol como Luis Tosar, e pelo astro mexicano Gael García Bernal, Conflito das Águas transita sob as diretrizes do roteiro do veterano Paul Laverty, roteirista próximo de Ken Loach, um dos cineastas mais representativos do realismo social britânico. Não é de se estranhar, então, a forte corrente social que atravessa o trabalho de Bollaín. Nem é razoável, partindo de García Bernal, protagonista de Amores Brutos (Amores Perros), filme de relatos entrelaçados, pensar em uma certa influência de Alejandro González Iñárritu e seu roteirista Guillermo Arriaga.

Conflito das Águas teve justificado sucesso nos festivais de cinema internacionais como drama forte que é, preocupado com os temas sociais dentro do tema dos abusos de poder contra os mais desprotegidos. Assista a sua estreia exclusiva neste domingo, 11 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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