Nostalgia da Luz, ou telescópio para os tiranos

por max 23. março 2012 04:44

 

Buscamos, buscamos no céu, nos confins do universo, com um telescópio no lugar mais alto, a três mil metros, perto do azul, do diáfano, do translúcido. Buscamos pelos deuses, ou por Deus, ou pelo segredo de Deus, buscamos uma resposta para nossa vida, para nossa beleza, para nossa nostalgia. Buscamos, em alguma parte de nós mesmos, algo como uma luz, algo que acreditamos estar desaparecido, enterrado, mas nunca esquecido. Buscamos, no céu, os traços da nossa grandeza, mas também procuramos na terra. Também o desaparecido, o enterrado, mas aqui pela fúria, pelos monstros da razão. Aqui, nessa terra, que na realidade se fez para nascer, para formar, para discordar dos mortos, dos nossos orgulhosos mortos, nunca acreditamos nestes, os anônimos, os difamados. Aqui no Atacama, aqui onde os astrônomos sonham com deuses elétricos, com deuses de matéria negra, com deuses big bang, aqui, bem debaixo do telescópio, as mães, as filhas, as esposas buscam embaixo das pedras. Buscam as raízes, suas raízes de família, buscam seus ossos de família, os ossos que dizem ser caules, troncos, ramos, folhas e bocas testemunhais de uma dor não tão antiga, de uma queda não tão angelical, de um horror tão recente, como recente é a ambição do homem. As mãos das mulheres buscam, buscam os que não voltaram porque não deixaram que voltassem. São mãos com rachaduras, cheias de terra, mãos secas, como desertos, mãos que alguma vez amaram e acariciaram e que agora somente escavam a terra. Acima, o céu nos observa, a galáxia, o universo e, em silêncio, eles nos julgam; enquanto isso, nós, iludidos, acreditamos que vemos, que sabemos que, a cada dia, ganhamos olhando ainda mais acima. Mas, tudo bem, tudo bem olhar para cima, talvez se olharmos mais acima, baixaríamos menos a cabeça, e alguns de nós escavariam menos, e outros de nós seriam mais humildes. Aos tiranos deveríamos dar telescópios de presente, para que percebam, para que entendam de uma vez por todas, quão pequenos são, quão pequenos somos.

Nostalgia da Luz (Nostalgia de La Luz, 2010), documentário dirigido por Patrício Guzmán, neste domingo, 25 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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