Gorbaciof, os gestos do bem e do mal

por max 1. março 2013 14:49

 

O mundo está cheio de malandros, que geralmente, tendem a falar muito. Para enrolar, deixar tonto, para confundir você. Mas atrás de todo malandro existe um grande silêncio. Existem malandros, é claro, que podem ser mais calados. Há de tudo na vinha do Senhor. Pode haver um malandro que sabe que em boca fechada não entra mosquito. No entanto, em todo malandro existe algo poderoso. Se não é a voz, pode ser que o corpo seja poderoso. E atrás desse poder da voz ou do corpo, nessa gestualidade exagerada, está o louco medieval. Quer dizer, todo gesto desarticulado, todo movimento repentino é uma ruptura da regra, da correção cultural. Essa singularidade rebelde teve em outros tempos caráter demoníaco, assim como o riso, o cômico. De tudo que herdamos, entre outros personagens, existe o malandro. Seu palavreado e excesso corporal são um indício do mal que nele habita. Seus gestos são uma espécie de marca de Caim que destaca o pecado cometido. Daí, talvez, vem a marca que exibe o ator Toni Servillo em Gorbaciof (2010) de Stefano Incerti. A marca de Mikhail Gorbachev, ex-presidente da União Soviética que, nos absurdos que correm pelo mundo, foi comparado ao Anticristo ou algo assim, devido à mancha em sua testa, seu número da Besta. Claro, o Anticristo e o mal não podem ter uma relação mais próxima. Nem mesmo o magnífico ator Toni Servillo poderia estar mais próximo desse personagem. Lembremos, por exemplo, que em Il Divo (2008) de Paolo Sorrentino, Servillo interpreta Giulio Andreotti. Sua atuação está extremamente marcada pelas expressões secas e os gestos fechados, iguais aos do famoso e controverso político. Servillo sabe, como todo grande ator, se comunicar também com seu corpo e seu rosto. O mesmo ele faz ao interpretar Gorbaciof, um carcereiro viciado em jogo que rouba dinheiro dos presos, que fala pouco, mas diz muito sobre o malandro que tem por dentro, através de seus movimentos desajeitados e acelerados, quase epiléticos. O personagem não fala muita coisa, nem pode se comunicar com a garota de origem asiática em quem acredita ter encontrado o amor. Ela a viu em um restaurante chinês, gostou dela, e logo vai colocar para fora o bem que tem por dentro. Os gestos também servem para ele. O corpo e esses gestos, em todo caso, podem servir tanto para o mal como para o bem, tanto para anunciar o seu mal, como para mostrar a linguagem do amor. Nesse sentido, podemos dizer, com o perdão do clichê, que o mal também é universal e que também tem seus movimentos clássicos, universais, reconhecidos. O personagem Gorbaciof carrega toda a complexidade que, não só por ser o malandro, um ladrão que rouba ladrão (mas sem redenção), mas também aquele que busca a salvação através do amor.

Um filme muito bem atuado, levado, como já disse, por Servillo, mas com uma mão sóbria. Stefano Incerti, com a finalidade de marcar o peso de tamanho ator, não caiu nos virtuosismos cinematográficos, mas sim deixou a câmera como testemunha dos acontecimentos que vão levando as malandragens e os amores, do bem e do mal que cruzam com a vida de Gobarciof.

Gorbaciof, domingo 3 de março. Malandragem, amor, excelentes atuações. O que você vê quando vê o Max?

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Il Divo ou a arte de ser anjo e demônio ao mesmo tempo

por max 17. abril 2011 20:14

 

 

Na quarta-feira, 11 de maio vai começar o 64º Festival de Cinema de Cannes e na Max vamos prestar homenagem a um ciclo de obras de vencedores do festival. Vamos começar com Il Divo, de Paolo Sorrentino, filme que ganhou o Prêmio do Júri, em 2008. Il Divo enfoca a vida do famoso político italiano Giulio Andreotti. O Divino, como eles dizem, é um personagem da vida real que parece ter saído da imaginação mordaz de um escritor satírico. Andreotti tem uma cara muito especial, uma visão única, com uma forma de caminhar muito reta, com os braços colados, como se seu corpo fosse um escudo que não deixa sair a mais profunda escuridão da alma. Porque Andreotti, chamado O Divino por suas relações estreitas com o Vaticano, talvez porque ele reze todos os dias, talvez porque fale latim com perfeição, talvez por ser democrata-cristão, talvez porque ele tenha grande carisma, talvez porque ele seja amado por muitos, é também conhecido como Belzebu. Belzebu, porque mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo e tem muitos inimigos, tanto como adoradores. Belzebu, sim, Belzebu, porque ele diz que teve relações ou negócios com a máfia. Porque foi sete vezes primeiro-ministro e porque durante 45 anos foi vinte vezes membro de todos os governos. Porque ele tinha muito poder e o poder de uma forma ou de outra, acaba sempre interagindo com o mal. Porque ele foi acusado de corrupção, porque ele tinha a ver com o famoso Tangentopoli, um caso de corrupção que começou em Milão, e envolveu comissões (em italiano tangente significa comissão e polis pela cidade italiana de Milão, ou seja, Cidade de comissões). Ele foi conectado da mesma forma com o colapso do Banco Ambrosiano (banco do Vaticano), com as comissões para os contratos de petróleo Enim-Petronim e com a compra de aviões Lockheed. Até foi acusado de ter mandado matar o jornalista Mino Pecorelli, que estava investigando a morte do lendário político democrata-cristão Aldo Moro. Moro, como se sabe, foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas em 1979, mas a questão não é tão fácil quanto parece e mais do que um só político esteve envolvido. No entanto, O Incombustível, como também é chamado Andreotti não se queimou com tanta perseguição e tem conseguido se livrar, com seus 92 anos, de todas as acusações. Esse homem, esse velhinho lindo, com muito bom humor, disse pérolas como esta: "Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano." Il Divo estrelado por Toni Servillo, mergulha profundamente nos gestos e na psicologia do famoso político e traz uma interpretação notável. Seu jovem diretor, Paolo Sorrentino, apresenta-nos, através deste filme estilizado e cheio de movimentos de câmera, um momento específico na vida do Divino, mas também viaja para o passado e mostra marcos importantes na vida deste personagem tão fundamental na sociedade italiana do século XX. Sorrentino fez um filme político, cheio de acidez, humor, drama e sujeira, um herdeiro do cinema de grandes cineastas italianos, da grande tradição da arte. Em Il Divo, corrupção e cinismo campeiam, igual que a violência, o assassinato e a corrupção. Qualquer meio justifica o fim. Mas a questão é, que fim?

Il Divo, na quarta-feira, 11 de maio, iniciando o ciclo de filmes premiados em Cannes que Max traz em exclusiva.

E você já sabe, descubra Max.

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