Tiranossauro, ou violência e redenção à inglesa

por max 10. setembro 2012 10:38

 

A alma se rompe com a perda, no que podia ter sido e não foi. Rompe-se na frustração de uma vida que não foi completada como alguma vez se quis. Nessa ruptura, nesse buraco negro, se instaura a dor, e esta, em muitas ocasiões, se entorpece em falsas doses de bem-estar, de prazer. O álcool proporciona esse entorpecimento, é um placebo. A ira também, a violência. Somente se deseja mitigar essa dor, calar a cabeça por algum tempo, fazer fugir o corpo e a vida para um mundo artificial, mundo que dura apenas algumas horas ou alguns segundos. Depois, naturalmente, vem o horror da consciência, os pés na terra, mais dor.

Tiranossauro (Tyrannosaur, 2011), primeiro filme dirigido e escrito pelo ator Paddy Considine (Vingança Redentora, A Luta pela Esperança), tem suas raízes no realismo social britânico de cineastas como Ken Loach e Mike Leigh, e até mesmo uma marcante influência de Violento e Profano (Nil by Mouth, 1997), escrito e dirigido pelo ator Gary Oldman, a quem Considine agradece explicitamente no filme. Tiranossauro, baseado em Dog Altogether (2007), bem sucedido curta-metragem dirigido pelo mesmo ator, está carregado de uma forte tônica de realismo social britânico (muito naturalista, diria eu), com a intenção de ir fundo na classe trabalhadora, o machismo, a dor, a fúria e o vício.

Em matéria de representação, há um magnífico Peter Mullan no papel de Joseph, um homem alcoolizado e cheio de fúria que perdeu a mulher há alguns ano. A aparição do personagem não pode ser mais estarrecedora: chega em casa bêbado, tropeçando, e espanca seu pequeno cachorro até matá-lo. Depois, arrependido, carrega para dentro da casa. Revelador também é o visual do cartaz promocional do filme: Joseph, curtido, com a pele endurecida, enrugada, gasta pelo tempo e maltratada, carregando o que parece ser um perigoso taco de beisebol. Mas sua atitude ao segurar o taco não parece ser violenta, mas de arrependimento. O gesto de Joseph parece ser o de penitente, o de um monge violento. Estamos na presença de um tipo rude, absorvido pelo ódio, por causa da dor, um desprotegido que foge de sua desesperança pessoal e social através do álcool. É cínico e autodestrutivo, e quando lhe oferecem a oração, o descanso, a mão da religião, ele se esquiva, diz não crer e, no entanto, começa a abrir-se.

Essa imagen da luz é oferecida por Hannah, encarnada intensamente por Olivia Colman. Hannah está, social e economicamente, acima de Joseph, a quem ela encontra caído certa manhã em frente a sua loja de mercadorias religiosas. Mas por trás de seu mundo aparentemente perfeito, também habita a dor: Hannah também é alcoólatra. Sua dor é a impossibilidade de ter tido um filho, e um marido violento (Eddie Marsan), que bate nela e a humilha.

Estamos então diante de um inferno, onde duas almas atormentadas se encontrarão, não sei se para se salvar, mas sim, pelo menos, para se proteger, para sobreviver. Não estamos diante de uma simplista história de amor nem de redenção. O filme é mais profundo, mais humano, mais triste e mais cruel, e busca não cair nas soluções fáceis. Essas pessoas estão despedaçadas, e o despedaçado, ainda que volte a se unir, remendar-se, ficará para sempre rachado, apesar de sua necessidade de luz e de redenção. Momentos muito fortes se alternam com breves instantes de beleza, neste filme onde as atuações são o prato mais forte. Um ator de primeira dirige outros atores de primeira, e estes nos entregam uma imagem nua e crua de um setor da sociedade inglesa carregado de perdas, desesperança, dor, violência e vício.

Tiranossauro deu a Considine o premio BAFTA como diretor e roteirista estreante. Também na categoria revelação, ganhou o British Independent Film Awards, e no Sundance foi reconhecido como Melhor Diretor. Olivia Collman ganhou os prêmios de Melhor Atriz no festival de Chicago, na preamiação dos críticos de Londres, no British Independent Film Awards, e também compartilhou com Peter Mullan o prêmio especial do júri em Sundance.

Tiranossauro, na quarta-feira, 19 de setembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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