Beleza Sul-africana, ou a beleza e a verdade

por max 10. outubro 2013 14:02

 

Francois van Heerden leva uma vida digna, uma vida dentro do padrão. É um Bôer de Bloemfontein como qualquer outro: másculo, racista, rude. Digamos que, dentro desta vida mediana que leva, tem um nível médio de beleza, entendendo a beleza neste caso como toda aquela estética que o ser humano obtém por parte dos meios de produção, que por sua vez, estão intimamente ligados com o controle dos desejos. Isto é o que é dado a desfrutar, isto é o que pode desfrutar, isto é, também, o que deseja desfrutar e isto é o que moralmente é belo. Porque é assim, a beleza tem uma moral, uma tradição e dentro dela devemos nos mover. Quem faz uso da beleza deve se sentir cômodo dentro deste prazer: não deve ter medo de aproveitar, porque essa beleza que é dada, é moralmente correta; o resto é segredo ou miséria da vida privada, e deve ser ocultado, escondido, calado, ou negado com raiva. Se tem uma beleza padronizada, que a sociedade oferece para o consumo geral, uma beleza que também é superficial, porque vive para o suposto bem geral. Trata-se de um prazer masculino, ocidental, tradicional, estreito.

Van Heerden, produto do apartheid tem seus parâmentros de estética e moral; obedece a uma tradição que foi cultura dominante durante muito tempo. Mas agora tudo é diferente. O Bôer não detém controle absoluto da sociedade, tudo se desfaz ao redor dele, porque tudo ao redor aponta para novos parâmentros de vida. Há discordância em Francois van Heerden. Sua alma tem uma fenda, e por essa fenda começa escapar o ar de conflito. Mas também esta mesma fenda é uma janela por onde podemos entrar e descobrir os segredos profundos que darão corpo à história de Beleza Sul-africana (Skoonheid, 2011), do diretor Oliver Hermanus.

Francois Van Heerden, interpretado por Deon Lotz, começa a desmoronar. Tudo aquilo que foi, toda aquela beleza e moral interior que se moveu está desmoronando. Chega o momento em que Francois já não se limita, em que Francois já não é o Bôer que precisa ser. Chega o momento em que, o personagem decide buscar a beleza que ele anseia profundamente: Francois tem encontros sexuais orgiásticos com outros homens brancos, casados e machos, mas também começa a se tornar obcecado por seu sobrinho, Christian (Charlie Keegan), um garoto, claro, muito mais jovem que ele. No entanto, não estamos diante da morte veneziana de Luchino Visconti. Aqui esta beleza não é um ideal, não é uma figura sombria e angelical, aqui essa beleza é objeto de um desejo destrutivo que termina gerando violência. Assim, Hermanus nos mostra como todo ódio violento não é somente ignorância, mas também ódio mesmo, um ódio que é um olho espião e acusador. A tradição e a hipocrisia podem mais que a essência humana, que a honestidade; ambas fundam o ódio como uma maneira de distrair a atenção sobre quem, no fundo, são os verdadeiros causadores de todos os males.

Beleza Sul-africana, sábado 12 de outubro. Beleza, feiúra, hipocrisia, verdade, cinema do melhor. O que você vê quando vê o Max?

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