Superclássico, ou o fantasma contra a realidade

por max 14. setembro 2013 02:05

 

De alguma forma, esta comédia do dinamarquês Ole Christian Madsen (Flame & Citron) passeia sobre a ideia do fantasma de Lacan, ou pelo menos acha que passeia e trabalha dentro desta ideia fetiche que temos de uma pessoa ou de um evento determinado; algo que nos deixa obcecados e nos impulsiona a realizar determinadas ações, às vezes até além da nossa própria razão, por cima do nosso bem ou de nossa estabilidade mental. O fantasma é uma fantasia, para simplificar, que por sua vez determina a relação da pessoa com o outro. Quer dizer, também podemos ver o fantasma como um discurso, uma maneira como gostamos de escrever a realidade que nos deixa obcecados. Christian (Anders W. Berthelsen), o protagonista de Superclássico (Superclásico, 2011) tem uma ideia fixa sobre o que foi seu casamento, apesar de que sua relação foi um grande fracasso e de que sua esposa Anna (Paprika Steen) o deixou por Juan Diaz (Sebastian Estevanez), um jogador de futebol argentino que é a sensação mundial. Para piorar a situação, nosso patético personagem se entregou ao vinho e à sua loja - de vinhos – que, aliás, não vai muito bem. Quando sua mulher disse que os papeis do divórcio estavam prontos, ele foi para a Argentina com seu filho Oscar (Jamie Morton), um adolescente que se transformou em um silencioso e arrogante garoto gótico. Christian começa a viagem na esperança de recuperar sua mulher e, assim, daria vazão ao seu espírito. Contudo, Ole Christian Madsen deixa aparente que o que Anna vive também é fantasia. Anna tem seu próprio discurso da realidade, algo generalizado, muito comum, ela é cheia de amor clichê. Tudo é belo, tudo é perfeito para Anna. Ela tem uma nova casa e seu novo namorado escultural, famoso, simpático; Anna até voltou a ser mãe sem filhos. Mas claro, a chegada de Christian será um confronto com a realidade, que irá gerar para o casal uma série de situações engraçadas que marcam o nível deste filme, mas devemos dizer que marcam sem seguir os passos de Hollywood, longe de ser a típica comédia romântica. O tema é o amor, claro, e o tema também é um casal, claro, mas o cineasta leva a história a outros caminhos, mais profundos, onde se toca a alma dos personagens, onde as circunstâncias se misturam com o drama e com a tragédia. Porque, como já disse, esses fantasmas que carregamos nos dominam, superam nossa razão e, em certas ocasiões, podem nos causar grandes problemas. Como de costume em nossas vidas, o superclássico, como se diz no futebol argentino, o de sempre, a tradição é assim: nossas fantasias, nossas ideias de vida contra a realidade, contra a dura realidade.

Superclássico, domingo, 15 de setembro. Obsessões, manias, relações de casais, comédia, drama, reinterpretações da comédia romântica. O que você vê quando vê o Max?

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