Revolução em Dagenham, ou a mulher contra a prisão da fábrica

por max 30. dezembro 2011 06:42

 

Um dos aspectos fundamentais da pós-modernidade é o tema dos sexos. No estouro dos grandes relatos de organizadores do mundo, ocorre o desequilíbrio ou a queda da concepção centralista do homem-masculino como o instaurador das realidades dos poderes. A mulher, na pós-modernidade, busca seu lugar no mundo, reclama seu lugar no mundo, sua igualdade de direito. A mulher busca sua voz e vai deixando de ser aquele ser menosprezado, esquecido de lado no lar, ou limitado à fábrica com menos benefícios do que o homem. Há alguns anos, vi Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier. Que filme excelente! Von Trier mostra uma realidade terrível, uma visão psicológica profunda: a visão do homem sobre a mulher. Von Trier mostra como, durante séculos, a mulher tem sido temida. Assim, temida pelos homens. Esse outro ser, fisicamente diferente, também tem sido considerado diferente sob o ponto de vista psicológico e também de alma. E tomara que seja assim mesmo, mas aquela discordância sobre o que o homem criou, no próprio homem, é temor e reflexo da obscuridade, da maldade, da loucura. A mulher, durante séculos, tem sido a louca, a bruxa, a má. É preciso dominá-la, mantê-la em rédea curta, mantê-la na linha, esse é o pensamento básico que predominou durante séculos, e isso é o que nos mostra Lars von Trier em seu filme terrível. Alguns menos avisados poderiam considerá-lo como mais um horror contra a mulher. Mas não é isso, o diretor fala mais bem da mulher do que o contrário. Anticristo é uma defesa da mulher.

Mas desculpem que tenha utilizado um filme para falar de outro. Preciso falar, na verdade, de Revolução em Dagenham (Made in Dagenham, 2010), um trabalho de Nigel Cole (Garotas do Calendário, O Barato de Grace), que centra-se na fábrica, esse lugar de aprisionamento, de disciplina. Michel Foucault falou dele em Vigiar e Punir e em outros textos. A fábrica se assemelha à prisão, se assemelha à academia militar, se assemelha ao colégio. A fábrica é um lugar de muitos, vigiado ou controlado por poucos. A fábrica é o lugar onde o corpo é adestrado, dominado e torna-se eficiente em função de produzir; ali o corpo não se revela, ali o corpo da mulher é uma máquina e não uma tentação. É neste recinto industrial onde Cole ambienta sua história, centrada em um fato histórico, ocorrido em 1968 na fábrica da Ford em Dagenham, na Inglaterra. Fundamental a atuação da atriz Sally Hawkins em seu papel de Rita O´Grady, uma personagem que não existiu na realidade mas que é uma fusão e uma lembrança das líderes daquele movimento que pleiteou igualdade de condições para as mulheres trabalhadoras da fábrica. Cole, como é seu hábito, opta por contar a história com certo frescor, sem cair nas obscuridades de Von Trier, e dando ainda um certo toque de comédia, de gostosa agilidade, o que dá um ar de humanidade, de esperança, de alegria e de triunfo à luta neste filme iluminado.

Revolução em Dagenham, neste 1º de janeiro, no Max.

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