Pina, os encontros da arte

por max 23. fevereiro 2013 04:56

 

 

Primeiro encontro

Pina Bausch foi uma das coreógrafas mais importantes dos nossos tempos. Foi a precursora do que chamamos de dança-teatro, herdeira do expressionismo (muito alemão, certamente) e de toda aquela dança surgida na vanguarda que fez uma mudança radical no que era, até então, uma série de regras acadêmicas, de pesos, engessados ao tradicional balé clássico. Fundadora da célebre Tanztheater de Wuppertal, Bausch abriu as portas no início dos anos sessenta, época da liberdade artística, da revolução cultural e jovem; também podemos dizer que foi época do pós-modernismo, onde os jogos, o cruzamento das disciplinas e a beleza do heterogêneo criaram um campo fértil.

O medo, a violência, o sexo, a dor, o amor, o delírio, a alma fragmentada, nossa alma, eram os temas da coreógrafa, tudo isso dentro de cenários que buscavam romper os limites entre os palcos e a realidade, entre os palcos e a paisagem externa, principalmente urbana.

Odiada, adorada, Pina Bausch, a fumante inveterada, se tornou uma lenda. A grande lenda das artes, que alguns podem chamar de pós-moderna e, embora ela sempre se mantivesse nos bastidores, foi o objeto da lente de diretores como Fellini, Almodóvar ou Wim Wenders.

 

Segundo encontro

Wim Wenders é um diretor alemão que nos apaixonou com filmes como Asas do Desejo (1987) e Tão Longe, Tão Perto (1994), essas histórias sobre anjos com um certo elemento rilkeano. Mas Wenders é também o autor de obras como O Amigo Americano (1977), com Dennis Hopper (baseado no famoso romance de Patricia Highsmith), e também de Paris, Texas (1984), com roteiro de Sam Shepard e atuação de Nastassja Kinski. Wenders era amigo de Pina Bausch.

 

Terceiro encontro

Nos últimos anos o cineasta alemão tem se interessado por música. Como Pina Bausch, procurou fazer o cinema sair de seus limites. Assim, fez documentários onde o cinema e a música se encontram. Seu trabalho mais conhecido sobre essa busca é, sem dúvida, Buena Vista Social Club (1999), documentário que, com o guitarrista Ry Cooder e o produtor Nick Gold, resgatou do esquecimento um grupo de músicos cubanos. Wenders também realizou trabalhos com U2; e documentários sobre Willie Nelson, no blues, e com a banda de rock alemã BAP, com a finalidade de homenagear sua cidade natal, Colônia.

Há um tempo, Wenders está buscando o encontro desses caminhos: o documentário, a ficção, a música, as artes, o cinema. Em 2011, alcançou o auge (não sabemos se haverá outro) dessa busca com Pina, filme que foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2012.

 

Quarto encontro

Pina não é só um documentário sobre Pina Bausch. De fato, Pina morreu durante o processo de realização do documentário. Wenders que, como já havíamos dito, era amigo dela, decidiu deixar seu trabalho para trás, mas os alunos de Pina o convenceram a continuar. Wenders, então, continuou as filmagens de Pina que não é um documentário sobre Pina, e nem sequer é um documentário propriamente dito.

Pina é parte documentário e parte teatro-dança fora dos palcos. O filme tem quatro obras da coreógrafa realizadas nas ruas e também é filmado em 3D, um 3D que nas salas de cinema contribuiu para mostrar a magnífica profundidade do formato. Wenders, um cineasta que sabe realmente o que fazer com a tecnologia, fez do formato uma ferramenta para mesclar corpos, cenário e música em uma peça cinematográfica de primeira classe.

O espírito de Pina Bausch passeia por este trabalho de Wenders com sua energia, com sua inteligência e intuição radicais. Claro, com sua morte repentina, há muito de suas melancolia, de suas lembranças. Mas a tristeza se torna uma presença benevolente, que realça o filme, esta estranha e maravilhosa mistura de documentário com dança e homenagem póstuma.

 

Despedida

Pina, de Wim Wenders, domingo 24 de fevereiro. Dança, paixão, tristeza, arte. O que você vê quando vê o Max?

 

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