O Mágico, A magia nostálgica de Chomet e Tati

por max 20. abril 2012 10:41

 

Jacques Tati disse certa vez: "Temos o conforto, mas o preço foi altíssimo: acabou-se a fantasia. Somente as crianças conservam a imaginação." Talvez esta frase seja o resumo perfeito da maneira de olhar o mundo de Tati. Olhar esse que, claro, está seus filmes. São filmes cômicos, humanos e que transitam entre dois mundos: Tati é herdeiro do cinema mundo, da gag, da comédia pastelão (foi atleta quando jovem). Ele fez cinema mudo nos tempos do cinema sonoro (Mr. Bean é um de seus herdeiros). Aqueles que adoraram O Artista (The Artist, 2011), deveriam ver os filmes deste magnífico comediante e diretor, com poucos diálogos e com o som e a música predominando na narrativa.

Jacques Tati foi o defensor de um mundo que ele sentia desaparecer, de um mundo pisoteado pela modernidade, pelas máquinas, pela automatização. Um nostálgico em defesa do melhor da vida que ia ficando para trás: o simples, o humano, a harmonia com as coisas.

Claro que Jacques Tati não era perfeito. Entregou-se ao trabalho com absoluta dedicação e descuidou das obrigações paternais, por exemplo. Sabe-se que teve uma filha ilegítima, Helga, fruto de uma relação com a bailarina Herta Schiel que conheceu aos 33 anos, trabalhando no Lido, em Paris, nos anos 40. Filho de família rica cheia de preconceitos – o pai era um nobre russo de sobrenome Tatischeff -, o jovem ator se viu obrigado a não reconhecer a filha e também a abandonar a mãe. Consta que ele nunca conheceu essa filha.

Pouco tempo depois, se casou com Micheline Winter e em 1946 nasceu Sophie-Catherine Tatischeff, a quem, também abandonou. Anos mais tarde, em 1956, Tati escreveu o roteiro de um filme – não se sabe se inspirado em Helga ou Sophie -, que nunca chegou a ser realizado, onde, de alguma maneira, tenta remediar o erro do abandono. É a história de um mágico que conhece uma menina abandonada e começa a dividir, com ela, seus dias, fracassos e pequenas alegrias. Este roteiro ficou décadas à espera de um diretor, até que que entraram em cena Sophie Tatischeff, Jerome Deschamps, Macha Makeieff e Sylvain Chomet. Famoso ator e diretor teatral, Jerome Deschamps é sobrinho de Jacques Tati. Herdeiro cultural do comediante, junto com a esposa Macha, ele assumiu a tarefa de recuperar seus filmes e organizar exposições e palestras para manter vivo o nome de Tati.

Chomet é animador e diretor francês que, em 2003, recebeu duas indicações ao Oscar por As Bicicletas de Belleville, animação passada na França dos anos 30 que tem muito a ver com o humor de Tati, homenageado em vários momentos. Quando realizava As Bicicletas de Belleville, Chomet conheceu Sophie Tatischeff, filha de Tati. Ela lhe deu permissão para usar cenas dos filmes do pai, contou sobre o roteiro inédito e o colocou em contato com o casal de diretores teatrais. Esse encontro não poderia ser mais feliz e dali saiu O Mágico (L'Illusionniste, 2010).

Chomet queria o filme pronto em 2007, mas só conseguiu estreá-lo três anos depois. Animação com orçamento de 17 milhões de dólares é o filme mais caro da Escócia. São mais de 300 mil desenhos, desenvolvidos por uma equipe de cerca de 300 pessoas em dois estúdios na Escócia, um na França e outro na Coreia. É importante falar aqui da Escócia, pois o filme se desenvolve em Edimburgo - e não em Praga, como planejou o autor. A cidade é retratada com tanta ternura que vira praticamente um personagem da história

O Mágico mostra essa preocupação paternal de Tati na história do encontro do mágico com a menina, mas também a ideia que ele tinha do mundo (Chomet respeitou 80% do roteiro original). O mágico acaba sendo uma espécie em extinção, perdido num mundo de novas formas de entretenimento, num mundo que perdeu o romantismo, um mundo automatizado, onde "a fantasia acabou". Tal como expressa o mesmo Tati na frase do começo desse texto, só a alma infantil conserva a imaginação, apenas a menina acredita nos mágicos, no poder deles. É um filme triste, saudosista, mas ao mesmo tempo belíssimo, que presta homenagem ao grande Jacques Tati e mergulha na recordação e no carinho dos tempos mais inocentes e mais simples, tempos que estavam morrendo àquela época e que, nos dias de hoje, desapareceram totalmente. Tempos que só vivem na magia das histórias, dos filmes.

O Mágico, Domingo, 22 de abril. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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