Chelsea On The Rocks, o hotel dos furacões da alma

por max 24. setembro 2011 04:36

    

Abel Ferrara nasceu no Bronx, é um nova-iorquino com todos da lei. De nascimento, herança de sangue, correndo em suas veias italiana e irlandesa (é possível ser mais Yorker?).

Roteirista, diretor, ator, produtor, Ferrara é um dos diretores-chave na história do cinema americano na década de oitenta e noventa, herdeiro, por assim dizer, do chamado novo cinema americano dos anos setenta, cheio de realismo e violência. Ferrara é a violência dramática ao extremo, filho de Scorsese, de alguma forma. Os dois unem o tema da violência com os temas da cidade de Nova York. Ferrara ficou conhecido no final dos anos setenta (em 1979) com o filme The Driller Killer. Sua personagem era um pintor louco pelo peso da realidade, que saia à noite para encher as mãos de sangue nas ruas de Nova York. Note que este, seu primeiro filme, foi dirigido pelo mesmo Ferrara. Em seguida, vêm Ms. 45 (1981) e Fear City (1986), dois filmes onde a violência da cidade gira em torno das mulheres. No primeiro, uma jovem muda é estuprada duas vezes no mesmo dia e decide tomar a lei nas suas mãos. No segundo, um psicopata anda solto matando nudistas. A rua, à noite, a violência, a loucura, Nova York. Ferrara entra no submundo, nos esgotos, nos becos escuros, olhando para as pessoas: o cafetão, a prostituta, a viciada em drogas, a polícia decadente. A rua é um lugar difícil, e Ferrara sabe retratar isso. Nos anos noventa, atingiu pontos altos em King of New York (1990) e Bad Lieutenant (1992). No primeiro com Christopher Walken, no segundo com Harvey Keitel. Ambos são considerados seus melhores filmes, especialmente Bad Lieutenant.

Em 1996, Ferrera se reúne com Walken em um de seus filmes mais representativos, The Funeral. Então, em 1998, faz um dos filmes de ficção mais estranhos: New Rose Hotel, um filme baseado em uma história do autor de ficção científica William Gibson, também estrelado por Walken, e Willem Dafoe. Em 2008, Ferrara empreende no gênero documentário. Seu primeiro trabalho é um grande sucesso. Com Chelsea on the Rocks, o cineasta volta a Nova York, seu eterno Nova York. Volta da mesma maneira, aos começos da exploração da personalidade artística. Que melhor lugar para falar de Nova York, que aquele onde passaram pela cidade, grandes artistas, glórias e sombras que o Chelsea Hotel? Este lendário hotel, localizado na 222 West 23rd Street, entre Seventh e Eighth Avenue. O hotel tinha quartos de longa duração, onde as pessoas podiam morar com seus livros, panelas, máquinas de escrever e instrumentos musicais. Nos quartos de curta e longa, estiveram uma série de artistas que passaram à história: Leonard Cohen, Dylan Thomas, Bob Dylan, Janis Joplin, Arthur C. Clark, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Andy Warhol, entre outros, foram os inquilinos de Chelsea. Lá amaram, discutiram, beberam, usaram drogas, criaram arte e houve assassinatos. O Hotel Chelsea era uma espécie de vórtice, de furacão de arte, um lugar que para alguns pode ser escuro, para outros brilhante, depende dos olhos de quem vê. Ferrara, em Chelsea on the Rocks utiliza uma grande quantidade de material de arquivo, o que naturalmente é abundante, sendo um lugar tão famoso, mas também explora os trabalhadores e ex-trabalhadores do hotel, os atuais moradores, os peritos, olhando anedotas famosas e íntimas daqueles que trabalharam lá, pessoas sem muita fama, mas com algo interessante a dizer. Entre os entrevistados estão Dennis Hopper, Milos Forman, Robert Crumb, Ethan Hawke, e Grace Jones.

Um filme, sem dúvida, perfeito para Abel Ferrara, o artista das profundezas da alma e as obscuridades e as luzes de uma Nova York que se transforma e não sabemos quantas mutações mais terá. Na verdade, o filme serve para lembrar que hoje o hotel fechou suas portas, e seu futuro é totalmente incerto.

Chelsea on the Rocks, este domingo, 25 de setembro, na Max.

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Um Dia de Cão ou o professor que ensinando aprende dos seus alunos

por max 1. junho 2011 11:16

 

Quando Tubarão foi lançado em 1975, Steven Spielberg tinha 29 anos. Começava, corria, crescia o novo cinema americano. Spielberg tinha brilhado, aquele ano, tinha dado um grande pulo. Ele era dono da bilheteria, Tubarão foi um grande fenômeno. Diz Peter Biskind no livro Como a geração Sexo-Drogas-e-Rock 'n' roll salvou Hollywood, que alguns de seus amigos zombavam de seu sucesso, que diziam que era apenas sorte, que o filme foi indicado ao Oscar só pela bilheteria. Biskind diz: «Spielberg estava tão confiante de que ele seria indicado para um Oscar como diretor, que convidou uma equipe de televisão ao seu escritório para filmar sua reação quando recebesse a boa notícia. Mas não houve nenhuma. Tubarão, porém, foi indicado como melhor filme, o diretor se sentiu ofendido. Em lugar disso, a Academia escolheu Robert Altman por Nashville, Milos Forman por One Flew Over a Cuckoo's Nest, Stanley Kubrick por Barry Lyndon, Sidney Lumet por Dog Day Afternoon (Um Dia de Cão) e Federico Fellini por Amarcord, uma lista esplêndida de diretores e filmes para o ano de viragem. Quando a câmera começou a gravar, com o rosto enterrado nas mãos, Spielberg se queixou: "Eu não posso acreditar. Escolheram Fellini antes de mim!" Que o seu filme fosse indicado e ele não, foi uma verdadeira bofetada.» Bem, Spielberg, era um garoto arrogante, que queria conquistar o mundo, ansioso por subir rapidamente. O fato de que não pudesse acreditar que indicassem Fellini e não ele, é um fato significativo. Essa lista, tal como Biskind diz era brilhante, todos eles tinham bem merecido prestígio. O vencedor foi, de fato, Milos Forman. Mas hoje quero falar sobre Lumet.

Sidney Lumet tinha nem mais, nem menos que 22 anos de diferença com Spielberg. Lumet não era exatamente um daqueles novos diretores que surgiram com Spielberg, aqueles que foram treinados em escolas de cinema, chamados de movie brats ou pirralhos do cinema, entre os quais estavam Martin Scorsese, Brian De Palma e George Lucas. Lumet estava a meio caminho entre a Hollywood de outros anos e essa que estava começando a emergir, selvagem, criativa, inquieta, cheia de luz. Este novo cinema que Andrew Sarris, do Village Voice, defendia como cinema de autor sob a premissa não totalmente verdadeira, não inteiramente falsa, de que o diretor do filme é o único autor de sua obra. Essas idéias, é claro, foram fortemente influenciados pelos franceses. Assim, Lumet não estava totalmente dentro da nova camada, mas era um dos diretores ativos do momento. Tinha sido destaque em 1957 pelo muito teatral filme 12 Homens e Uma Sentença; brilhava depois de uma série de filmes mais ou menos afortunados, com Longa Jornada Noite Adentro, de 1962, e em 1973 começou a adotar novas idéias do cinema que começaram a surgir com o drama policial Serpico. Assim, para 1975, a indicação de Lumet foi mais do que justificada, não só pela sua carreira, mas também porque Um Dia de Cão foi um filme refrescante, duro, afiado, inteligente e muito bem interpretado. O cineasta combina magistralmente o drama e crítica dos meios de comunicação, ao apresentar estes dois homens desesperados que se tornam assaltantes de bancos. Um, carismático e rebelde (Al Pacino), o outro instável e muito perigoso (o inesquecível John Cazale). Ambos acabam com reféns, rodeados pela força da lei e o poder dos meios de comunicação. Quem é mais perigoso? É onde trabalha Lumet e onde a sua experiência vem à tona. A hipocrisia, o interesse comercial, as classificações são armas mais perigosas que uma espingarda de polícia, parece dizer o diretor. A Hidra da mídia primeiro mostra um rosto amigo, aliado, exerce a defesa criminal, um homem desesperado (Al Pacino), uma metáfora para a situação social e económica. Mas como ele sobe, como é exaltado, a Hidra logo se volta contra ele e mostra um rosto escuro, cheio de preconceitos e Sonny, personagem do Al Pacino, não é um herói, porém um homossexual perverso cujo amante é também seu cúmplice.

Lumet trabalhou uma direção muito urbana, muito realista, longe do tom e do olhar da lente teatral e, sem dúvida estava inspirado pelas novas tendências do momento, mais próximo da crueza, do documentário, a representação da realidade como um lugar para falar sobre o homem moderno e seus conflitos sociais e humanos. Um Dia de Cão é um trabalho que, dentro do cinema americano, é fundamental. Existe como uma das maiores representações do novo filme que floresceu nos anos setenta. Paradoxalmente, o seu diretor, não era um daqueles pequenos gênios ranzinza que queriam tudo para eles. No entanto, Lumet deve muito a aquele tempo, e a dinâmica daqueles jovens, e com um filme como Um Dia de Cão paga suas dívidas e os seus tributos. Um professor sabe dar aulas e aceitar que os alunos também podem ensinar.

Um Dia de Cão, domingo 05 de junho. Descubra Max.

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