Bill Murray, o rosto de sucesso da resignação

por max 30. novembro 2011 14:30

 

Devo dizer assim, logo no começo, para não confundir ninguém: para mim, Bill Murray nunca foi um ator cômico. Não é, propriamente, um ator que nos faça cair na gargalhada, que nos pareça engraçadíssimo como os três patetas, ou como Mike Myers. Mesmo que Mike Myers também não seja particularmente cômico. Este tipo de atores, saído do Saturday Night Live, é mais sarcástico, burlesco, bruto. Myers, com personagens como Austin Powers, com suas capacidades para disfarces, pode nos soar cômico. Há muita comicidade no gesto, na falsa lerdeza, no teatral. Cômico, com sua acidez, claro, é Jim Carrey. Mas digam vocês, o que de teatral, gestual e de lento tem Bill Murray? Murray é um ator de expressões mínimas, que inclusive vem acentuando esta característica no decorrer dos anos. Murray, de cômico, entendida a comicidade como um exagero dos gestos e movimentos do corpo, não tem nada. Em Murray, o gesto cultural está totalmente presente. Lembremos que a comédia (como uma ramificação do humor) faz crítica ao social, zomba do social. O cômico apela ao riso. O cômico que tropeça, que exagera seus gestos, está provocando as normas certinhas do comportamento social. Ninguém anda pela vida caminhando engraçado de propósito, nem fazendo gestos exagerados, nem se disfarçando. Isso não é correto, normal. O cômico desafia essa correção, provoca as normas sociais, é um rebelde. Lembremos que, na Idade Média, por exemplo, o gesto exagerado era considerado pecaminoso, satânico. Bill Murray, se nos basearmos nisto, então, não teria nada de cômico e, de fato, cômico não é. Seu rosto, seus movimentos, são mais contidos, como de alguém que não quer chamar a atenção. Seu gesto, este sim, não é normal: sua expressão constante é a de um homem que sofre. As origens de Murray são humildes. Faz parte de uma família de nove irmãos que tiveram que trabalhar desde pequenos, prestando serviços como ajudantes em campos de golfe. Murray conheceu a pobreza, as privações, a penúria. Seu rosto é a de alguém que viveu isso, que passou por aquilo. Se Murray tem algo de teatral é porque seu rosto é a máscara da tristeza com que costuma representar a arte dos palcos, em contraposição sempre ao rosto sorridente. Murray pertence mais aos terrenos do absurdo. O humor e o absurdo combinam, vão muito bem juntos, e essa irmandade é onde Murray se encontra. Não creio nessa crítica que diz que Murray foi, no decorrer dos anos, buscando papeis sérios. Não, para mim, o que Murray tem feito é buscar papeis que se encaixem nele: ser ou não ser comédia. Murray é um mestre do absurdo, faça o que fizer. Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993) foi o filme que acabou de elevá-lo ao nível de ator de absoluto talento, fora do rótulo da comédia. Tinha que fazer assim, Feitiço do Tempo é um dos filmes sobre o absurdo existencial mais importante que Hollywood já realizou nos últimos anos. Harrold Ramis nessa roda de repetições do mesmo dia que Murray, com seu magnífico rosto de resignação, sabe carregar durante todo o filme. Sob a direção de Sofia Coppola fez o mesmo: mostrar sua resignação diante das vicissitudes e das impossibilidades da vida. Com Wes Anderson trabalha algo parecido: seus personagens estão imbuídos de uma profunda tristeza, de um desejo de ser algo mais que não são e que, sem dúvida, não podem ser. Pensemos nele inclusive em seu pequeno papel em Zumbilândia (Zombieland, 2009). Sua atuação ali é muito significativa, porque Murray faz ele mesmo. Em um mundo apocalíptico, habitado por zumbis, Murray é um sobrevivente em sua própria mansão. Vive sozinho ali e se faz passar por zumbi para que os zumbis não o machuquem. Põe maquiagem, sai ao mundo com sua cara de zumbi. Graças a essa maquiagem, a esse rosto de morto vivo, ele pode seguir sendo um ser humano. Isto não é absolutamente alegórico? Murray é e existe e tem sucesso no mundo graças ao seu rosto. Ao seu rosto de resignação, de pessoa arrasada pela vida, de pessoa quase morta. Nesta pequena aparição, Murray quer dar uma surpresa aos humanos visitantes em sua casa. Dentro dele, há um demônio interno que é temerário, que quer se divertir apesar de conhecer os perigos que se escondem nessa brincadeira pesada. E assim Murray aparece na sala de cinema de sua mansão com a finalidade de assustar os jovens protagonistas. O jovem se põe em pé e dá um tiro em Murray. O ator morre atuando, morre com a máscara posta. Sua vida e sua arte voltam a ser uma só. Este rosto de resignação, de tédio diante da vida, lhe acompanhará sempre, dentro e fora de cena. A vida de Murray não é fácil; recentemente, em 2008, sua esposa o abandonou por violência conjugal e alcoolismo. A vida cria demônios internos, e ai de quem se resigna diante de seus demônios e diante da vida. Murray, pelo menos o ator Murray, soube tirar proveito de sua desgraça. Não estudou com Lee Strasberg, mas poderia ter sido seu melhor aluno com cara de reprovado.

Delicie-se ou sofra com prazer com Bill Murray em Três é Demais (Rushmore), de Wes Anderson, nesta quarta-feira, 30 de novembro, já na semana final do ciclo Ícones do cinema, no Max.

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