Nascidas para sofrer, ou a comédia da solidão

por max 24. fevereiro 2012 09:28

 

Quão valente podemos ser diante da solidão? Há quem diga que suporta, há quem acredita que pode com ela. Talvez alguns tenham essa força. Pois, o filme Nacidas para Sufrir (2009), de Miguel Albaladejo, é uma comédia que gira em torno das angústias, das resistências e das lutas que nascem do possível enfrentamento com os espaços imensos da solidão. Flora (Petra Martinez) descobre, da noite para o dia, que viveu, durante toda a sua vida, a vida dos outros, cuidando deles, educando-os, preparando-os para o futuro. Ela vem sendo uma abnegada, ou uma resignada, que nas suas pequenas ilhas de existência, se sacrificou como faziam as muitas mulheres de antigamente – que fazem ainda hoje – pelos demais. O ideal cristão (a figura da jovem freira não é demais aqui) está ali de fundo, o amor ao próximo que fará feliz à humanidade inteira. Tem sido boa, tem se esforçado para ser boa e por fazer o bem, o que, às vezes, isso de ser bom converte-se em competência ou concorrência entre as mulheres. Serem boas e sofrer, sofrer e serem boas. Sempre e para sempre.

Contudo, quando já se encontra livre dos penosos cuidados, quando suas sobrinhas órfãs já cresceram e já se foram, Flora percebe que o que tem pela frente é o arcabouço da solidão. Com 72 anos, está perto de cair na via fácil (para os familiares) do geriátrico. A solução para não cair no esquecimento? Casar-se com Purita (Adriana Ozores), uma jovem submissa que sempre a acompanhou em seus trabalhos. Simples assim. Mesmo que pareça, em alguns momentos, que a desculpa não parece tão desculpa assim e que a senhora abnegada e boa, no fundo, está mais para uma tirana que encontra sua escrava.

Miguel Albaladejo consegue, dentro dos esquemas da comédia de costumes, trazer os assuntos contemporâneos e universais para o mundo rural. Porque a província, esse lugar no campo, não está exilado do mundo e está até bem próximo do que é próprio da cidade, também dos prédios, onde se vive talvez até com mais escândalo, resultado de discussões entre senhoras. A solidão, esse tema tão usado, o casamento entre parceiros do mesmo sexo, as uniões amorosas entre pessoas com diferenças enormes de idade, tudo isso está aqui, em um trabalho conjunto formado por mulheres, mulheres boas, caridosas, mas não sei se tão longe de um ataque de nervos (impossível não lembrar de Almodóvar), mas certamente da solidão, de um medo da solidão que se aproxima até meio divertido em sua maneira de apresentar-se. Porém, por trás disso tudo, entendemos que a comédia é uma porta para a crítica social, aprendizado que o cineasta obteve diretamente de seu mestre Luis Garcia Berlanga, com quem trabalhou em Todos a La Cárcel.

Humor negro e ternura em um filme que equilibra as duas coisas com o drama, para oferecer frescor, reflexão e gratos momentos. Nacidas para Sufrir, o melhor do cinema espanhol, neste sábado, 25 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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