Esta Não É Minha Vida, ou a busca da identidade

por max 3. setembro 2012 12:11

 

É a eterna pergunta do homem, a eterna pergunta da humanidade. Saber de onde vem para entender quem é e saber para onde vai. As origens são necessárias; mesmo que acreditemos em uma entidade superior ou em nós mesmos como medida de tudo, ainda assim nos baseamos simplesmente em nossa história nacional, mundial, cidadã. A origem ajuda a conhecer-nos, ajuda a termos identidade. Não somos uma aparição momentânea no mundo. Temos história, temos passado. Somos o que fomos e o que outros foram em nós. De fato, para saber quem e para definir nossa própria bondade, nossos limites em relação ao mal, nossas próprias liberdades, necessitamos de nós mesmos e dos outros. Sei quem sou, sou livre. O amor nos faz escravos, porque não nos reconhecemos no amor. O álcool e as drogas nos fazem escravos, porque saímos de nós mesmos. Um governo déspota pretende dizer-nos quem somos, sob a égide de uma ideologia: tu és quem nós dizemos, o que a ideologia diz.

A identidade nos dá liberdade, nos dá alma. Desde a antiguidade grega, a identidade é assunto importante. A máscara do teatro (persona vem de máscara) nos lembra que somos apenas um buraco que emite uma voz, que somos personagens, máscaras, que talvez nunca cheguemos a ser nós mesmos. Na literatura fantástica, o tema da duplicidade gira fundamentalmente em torno da identidade. Jekyll não se reconhece em Hyde; Hyde o escraviza, o domina, o põe a perder. Em Kafka, Gregório Samsa acorda convertido, transformado em bicho. Não sabe quem é, tem uma crise de identidade e está perdido: foi condenado ao encarceramento do quarto. Perder a identidade é coisa terrível. Em Persona (1966), Bergman nos mostra Alma, a enfermeira, apoderando-se da mudez acidental e permanente de Elisabeth. Ao fazê-lo, possui tudo o que a atriz Elisabeth possuía. Alma se esconde dela mesma assumindo outra identidade, que é anulada. Em O Passageiro – Profissão Repórter (1975), de Antonioni, um homem (Jack Nicholson) assume a identidade de outro. Entediado com sua vida, assume o papel de um homem morto, um traficante de armas. Assumir a identidade de outro alguém é uma maneira de dizer que te perdeste em ti mesmo, que fracassaste na busca de tua identidade.

Séries como Além da Imaginação (Twilight Zone) exploraram em várias oportunidades esse caminho. Uma mulher, em um país estrangeiro, sai para buscar um remédio para sua mãe, quando regressa, a mãe não está e ninguém se lembra dela no hotel (dela, a filha). A senhora perdeu sua identidade, começa desesperadamente a busca.

Em The Prisoner, série inglesa de suspense e ficção científica do final dos anos 60, assistimos ao sequestro e posterior encarceramento do Agente Número 6 na Villa. Ali o interrogam constantemente, necessitam de informação (não sabemos qual) e ele, de sua parte, necessita escapar da ilha. A série é um jogo permanente de ocultamento e fuga de identidades, desenvolvido em 17 episódios, onde a identidade do Número 1 (o encarregado da Villa) é sempre um mistério, e a identidade do Número 2 muda com frequência. O Número 2 é a suposta face visível da equipe de agentes da Villa, mas, tal como já assinalei, seu rosto (o ator) mudava em determinados episódios.

Em 1995, a série americana Nowhere Man foi exibida no canal UPN. Nessa série, um fotógrafo chamado Thomas Veil realiza uma exposição com material fotografado em uma república de bananas possivelmente controlada pelo governo norte-americano. Supomos que ali há algo de comprometedor para os poderosos, pois depois disso se desencadeia o que causa estranheza: sua esposa agora está casada com outro e não sabe quem é ele, seus cartões de crédito foram cancelados e ninguém o reconhece como Thomas Veil. A quebra da personalidade é tal que até seu pai parece estar envolvido no assunto.

Aqui recordo aquele magnífico filme protagonizado por Jim Carrey e dirigido por Peter Weir, O Show de Truman (The Truman Show, 1998), no qual o personagem descobre que toda sua vida foi um grande engano. A cidade em que vive é falsa, seus pais são falsos, sua mulher é falsa, sua vida é falsa: tudo é nada mais que um show televisivo, uma operação realizada por meios de comunicação muito poderosos.

Acabamos de vê-lo: saber quem se é pode levar à perdição, se o que realmente és se sustenta sobre o vazio. Em Coração Satânico (Angel Heart, 1987), de Alan Parker, o detetive Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, acaba descobrindo que Johnny Favourite, aquele obscuro personagem que ele devia procurar por contratação de um tal Louis Cyphre (Lúcifer, foneticamente), é, na realidade, ele mesmo. Angel é Favourite, e Angel é também um psicopata, um assassino que vendeu sua alma ao diabo, esse Cyphre, interpretado por Robert De Niro.

Versões mais recentes de perda e recuperação de identidade estão na série de filmes de Bourne, que remetem de alguma forma a The Prisoner. No entanto, Bourne realmente não se lembra de quem é, e pouco a pouco vai descobrindo que é um agente especial, um assassino treinado, que, todavia, busca redimir-se. É esse descobrimento do terrível passado que o leva à redenção.

Neste mês, o Max nos traz uma nova série de primeira categoria que gira em torno desse mesmo complexo tema da identidade. Um thriller de ficção científica, um magnífico herdeiro – uma vez mais – de The Prisoner, tanto no tocante à ficção científica quanto no tema da identidade. Trata-se de Esta Não é Minha Vida (This is not My Life), uma série de 2010, produzida na Nova Zelândia.

No idílico povoado de Wainona, tudo é ar puro, há muito espaço e muita natureza, e o número exato de pessoas. Tudo é perfeito, até os automóveis são elétricos. Mas, é claro, estamos no ano 2020 e vivemos em um mundo feliz. Em determinada casa dessa pequena cidade, certo dia, um personagem chamado Alec Ross (Charles Mesure) acorda e se encontra, como é lógico pensar, com sua família. Mas há um problema: Alec não reconhece sua esposa Callie (Tandi Wright) nem seus filhos. Por incrível que pareça, não sabe onde está nem como chegou ali. Tampouco, como acontece em The Prisoner ou em O Show de Truman, pode ir embora. Ele só tem certeza de uma coisa: que não é Alec Ross.

A série, além da ficção científica e o muito bem manipulado tema da identidade, vai levando o espectador por diferentes estágios de possibilidades, onde entra em jogo o motivo da conspiração, herdado de séries como Millenium e Arquivo X – O Filme (X-Files), ambas criadas por Chris Carter. É total o clima de mistério proposto por seus roteiristas e diretores e as peças vão se encaixando ao longo dos 13 episódios da série.

A partir de setembro, você vai se encantar com outra dessas séries diferentes e de altíssima qualidade que somente o Max pode oferecer. Esta Não é Minha Vida, quarta-feira, dia 5 de setembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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