O Artista, ou alguns fragmentos sobre o silêncio e nosso tempo

por max 16. junho 2013 05:59

 

Hollywood tende a se apaixonar de vez quando por um europeu. Há alguns anos, em 1998, apaixonou-se por Roberto Benigni e por sua A Vida É Bela (La Vita È Bella, 1997), filme premiado com três Oscars, entre eles o de Melhor Filme Estrangeiro. Benigni pulou entre os bancos, parou, voltou a pular e todos aplaudiram de pé, encantados, dizendo como é louco, como esse italiano é simpático… depois, Benigni fez uma versão horrenda de Pinóquio (Pinocchio, 2002) que ninguém se lembra ou quer se lembrar.

 

Em 2011, o Oscar se apaixonou por Michel Hazanavicius e por O Artista (The Artist, 2011), estrelado por Jean Dujardin. A paixão foi tão grande que toda cerimônia do Oscar teve referências do cinema mundial, da sua época e do filme. Com toda coragem, Hollywood estava dizendo, <<estes são os homens, este é o filme, e estes são os vencedores>> (finalmente venceu como Melhor Figurino, Melhor Ator (Jean Dujardin), Melhor Diretor e Melhor Filme).

 

Mas talvez Michel Hazanavicius não seja Benigni, talvez não pule sobre os bancos – ele fez quando foi premiado, e talvez não seja tão histriônico. Ele é francês! Provavelmente não tenha uma versão de Pinóquio que deixe todos com vergonha. Hazanavicius, talvez, nos dará algo melhor, quem sabe. Por enquanto, ele tem feito alguns curtas-metragens sobre infidelidade, protagonizados por Jean Dujardin como protagonista que não esteve nada mal. Quem sabe tente a sorte mais uma vez com algum filme sobre seu ilustre agente secreto OSS 117 (também interpretador por Dujardin). Veremos...

 

Nós paramos de acreditar em tudo. Já não acreditamos nos princípios da modernidade. Não tem futuro, não tem história, não tem grandes relatos que nos expliquem o mundo. Vivemos em um abismo para não navegarmos de volta ao passado. Então, somos a grande nostalgia e a grande paródia. A arte do século XXI vive em nostalgia. Essa nostalgia gera a homenagem, a paródia/homenagem.

 

Hazanavicius transformou sua nostalgia no cinema mundial. Mas é uma nostalgia rara, é uma nostalgia em preto e branco que fica em silêncio... Embora, na verdade, uma parte tem som. George Valentin é a estrela das ribaltas silenciosas, das ribaltas de uma época glamorosa. Como astro, George Valentin nos fascina. Mas, ele também é teimoso, passado que se recusa morrer. E isso, não está nada bem.

 

Talvez a pergunta seja: Quando o som é mero efeito especial que serve para despertar emoções baratas e quando é parte fundamental do filme, da obra de arte?

 

Talvez outra pergunta seja: Uma boa história não precisa de diálogos?

 

E outra pergunta: Os diálogos salvam uma história ruim?

 

O Artista encanta por seu preto e branco, pela atuação de Dujardin e por essa primeira parte envolvida em uma atmosfera elegante, leve, agradável. Em O Artista, gostamos de Valentin no auge de sua fama. Em seguida, chega à época do som e o filme fica dramático, mas segue em silêncio, com exceção de uma cena magistral que deverá ficar para sempre em nossas memórias – sim, essa em que as coisas ganham vida através do som. Por que a segunda parte de O Artista continua sem som? Porque estamos vendo o mundo a partir do ponto de vista de Valentin, que não é mais que um dinossauro, um dinossauro de frente que não renunciou à extinção, mas que é, no entanto, secretamente admirado e amado pela estrela do cinema sonoro Peppy Miller (Bérénice Bejo), aquela garota que se apaixonou por ele quando Valentin era famoso. Peppy é a imagem dos novos tempos, mas ainda não nega o passado: está apaixonada por Valetin e quer ajudá-lo. Ela o ama sem conhecê-lo, mas o ama em seu fracasso (há alguma coisa no filme que também aborda a natureza da fama). Como personagem dominante do filme, Peppy é o equilíbrio. É o novo que não corta com seu passado. Peppy salva, resgata da decadência e do esquecimento o seu amado Valentin. De repente, o melodrama volta a ser a bela comédia e temos um final bem pensado com som, atingindo a dança, a alegria de viver, o diálogo e, finalmente, a voz de Valentin. Não é que todo passado seja melhor, mas também não é negado. Trata-se, na realidade, da nostalgia, que é uma espécie de equilíbrio, estilo de vida, vivendo no presente. A nostalgia mantém vivo o passado, mas não o para, não o afunda. Peppy e Valentin juntos, dançando, são a festa, a alegria, a combinação mais ou menos luminosa do que nossas tentativas contemporâneas. Nesse sentido, O Artista é um filme absolutamente pós-moderno: o futuro e o presente se misturam, são a regra, utilizam o equilíbrio. Estamos diante de um trabalho profundamente nostálgico que não faz mais que falar – em seu silêncio – de nossos tempos. Destes tempos onde o passado pode ter um futuro.

 

Outra pergunta: Nosso futuro será em preto e branco?

 

Max tem a honra de apresentar, domingo 16 de junho, O Artista. Nostalgia, comédia, drama, emoções silenciosas, silêncio que exalta. O que você vê quando vê o Max?

 

Para reapresentação, clique aqui.

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