Sunset Strip, ou o lugar de paradoxos

por max 24. setembro 2013 11:56

 

Boulevard vem do holandês, bolwerk, que significa fortaleza, uma palavra antiga que junto com uma leva de outras palavras, sofreu uma série de modificações em seus significados.

Mas vejamos: ao final da Idade Média e da queda simbólica, mas também real, de um de seus maiores signos, o castelo, toda a periferia, o fosso, as ruas próximas ao muro, tanto fora como dentro, tudo aquilo que cercava o burgo fortificado (burgo era entendido como a cidade fortificada) se transformou, se abriu, quebrou, virou estrada, ruas. Estas estradas que rodeavam o castelo e que marcavam a distância para o próprio castelo, tornaram-se parte da cidade e serviram para conectá-la a suas áreas mais distantes.

O burgo fortificado passa a ser o burgo aberto, o burgo do burguês, daquele que, apesar de vir do bairro fortificado, já não vivia em confinamento criado pela nobreza. O burguês se separava assim de uma história que não era sua e o burgo agora era uma cidade, um espaço aberto. Já não pertencia à era medieval. O burguês era um homem novo que produzia coisas novas para ele mesmo, para a cidade e para outras cidades. Do que mais precisavam? Se comunicar, se mover, precisavam de ruas. No entanto, as cidades permaneceram medievais durante muito tempo.

Em meados do século XIX, com Napoleão III e o barão Haussmann, a Paris Medieval se transformou e abriu espaço para a grande cidade dos jardins e boulevares. A burguesia aumentava seu poder e se deliciava com uma cidade mais limpa, mais cuidada, de estética triunfal. Novos esgotos, novas avenidas, novos prédios, ruas mais amplas e largas.

O labirinto de ruas medievais desaparece, mas também desaparece – ou se reduz – a possibilidade de protesto e rebelião. As ruas medievais eram ideais para as barricadas, para as fugas no labirinto. O boulevard não permite isso. Assim, a nova cidade se transforma em uma nova cidade de muralhas, não físicas, mas estratégicas. A possibilidade de revolta se reduz e as classes trabalhadoras são relegadas à periferia.

No centro tudo é belo, o centro da resistência, o centro fortalecido de si mesmo graças à inteligência do novo desenho que entende o espaço que envolve os cidadãos como uma nova forma de domínio. Os espaços, as distâncias podem levantar muralhas. Poderíamos pensar a partir da perspectiva de Michel Focault no panóptico, ou seja, o poder exercido através da vigilância institucionalizada, neste caso, a urbana. A cidade é um espaço de amplitude visual, não tem onde se esconder.

O boulevard é um espaço para observar, ser observado e ser vigiado. Por trás da amplitude e liberdade do boulevard está a vigilância, a disciplina. O burguês faz parte de um grupo – é seu dever fazer parte – é alguém que não é visto ou singularizado dentro do grande boulevard, alguém que passa despercebido. O boulevard cumpre assim sua função normativa, reguladora, "panóptica".

Mas agora vamos a outro paradoxo. E é o mesmo que observa Foucault: o padrão individualizado. Nesse lugar onde todos são observados, controlados, disciplinados, a falta cometida é individualizada. A lei o observa e indica seu nome para castigo e exemplo. Esse processo de individualização acaba escapando – com certo prazer – destas observações panópticas e acaba ocorrendo por fora dela, tendo vida própria dentro de suas dobras ou bolhas ou esconderijos particulares.

Aquele que se percebe vigiado levanta-se, torna-se rebelde, entende a si mesmo como indivíduo e se faz ver entre os outros que também se individualizaram na rebeldia. Estes personagens normalmente não vão se movimentar dentro do grande boulevard iluminado. Ou sim, mas em outro que não seja iluminado pela lei. Este é o caso do Boulevard Sunset Strip, em Los Angeles.

O Sunset Strip, apesar de ser um boulevard, estava na periferia da cidade. Por estar localizado além das fronteiras da cidade, não estava incorporado à jurisdição do condado de Los Angeles. Quer dizer, o Sunset Strip era uma área fora dos olhos vigilantes, uma área de regras relaxadas.

O paradoxo: aquela ampliação, mas, sobretudo, aquele alargamento que fez do boulevard um panóptico, também contribuiu para que o Sunset Strip, desde sua criação, fosse um lugar das exceções, dos indivíduos rebeldes, da ilegalidade e, claro, das artes. Nos anos 20, 30 e 40, o Sunset Strip foi um lugar de contrabando. O lugar da máfia e seus negócios. Durante este período construíram restaurantes e clubes de luxo que atraíam o melhor e o pior da sociedade daqueles anos; os chamados ricos e famosos.

Ciro´s, Trocadero, Mocambo eram clubes sofisticados onde se apresentavam artistas de primeira linha (a arte e o ilícito, a arte e o prazer). Embora estes negócios fossem legalizados e de classe alta, a relação com o submundo e o pensamento divergente, ou simplesmente fora do comum, estavam lá presentes. Nos anos 60, o Strip mudou de público e de donos, mas não mudou sua relação com o poder.

Nos anos 60, o Strip foi o epicentro da contracultura em Los Angeles. Flower Power, Paz e Amor. Sem guerra. Drogas. A rebelião dentro do panóptico. Também podemos lembrar dos distúrbios de novembro de 66, quando a área teve um toque de recolher que afetaria os negócios da noite, gerando protestos e enfrentamentos entre a massa de jovens hippies e a polícia. Nos anos 80, o Strip deu lugar à música disco e ao glam metal.

É preciso dizer, então, que a ideia de fortaleza ou da preservação dela nunca desapareceu. Mas, sim, estava lá, mas ao contrário: o Strip foi o reduto espiritual murado daqueles que se concentravam na periferia, daqueles que estavam individualizados e, de certa forma, rejeitados pela grande máquina da normalidade. Nesta fortificação, sem dúvida, era possível ser individual sem penalização, era possível deixar-se ver sem medo de ser apontado pelos vigilantes.

O Strip funcionou como um panóptico no negativo, ou um panóptico cujos vigilantes acusariam a diferença da igualdade exterior. O estranho no panóptico Strip seria a normalidade, porque essa normalidade não produz o desejo, o prazer e a arte que a própria regra do lugar impôs. O filósofo francês Gilles Deleuze falou do desejo como um produtor de sementes. Segundo Deleuze, toda sociedade normalmente vem do desejo.

Neste caso em particular, o desejo é uma força artística e marginalizada para fora e volta a se marginalizar deliberadamente depois de ser expulsa do centro. Sua condução, sua felicidade, é o marginal. Mas o marginal criativo, o marginal consciente de si mesmo. Deste modo, o boulevard volta a ser uma fortaleza e um lugar de liberdades, um lugar de vigilâncias. Um lugar de paradoxos.

Terça, 24 de setembro, confira dentro do ciclo de documentários dedicados às artes, Sunset Strip (2012), dirigido por Hans Fjellestad. Um trabalho que explora a história e a vida deste famoso boulevard de Los Angeles, cheio de rebeldias, transgressões e paradoxos. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Target, a realidade virtual e a eterna juventude

por max 19. março 2013 14:15

 

A realidade virtual é uma vida onde tudo é exagerado. A série de filmes Matrix (The Matrix) mostra o combate do corpo a corpo exagerado, a capacidade inenarrável de saltar, de dar golpes velozes, de dar mil socos em alta velocidade. Em um jogo de realidade virtual pode-se voar até uma boate (voar literalmente, exageradamente), entrar, conseguir alguém para dançar em cinco segundos, dançar charmosamente (mesmo sem saber dançar), conquistar uma mulher e transar com ela quase que imediatamente. Em outro jogo, você pode assassinar centenas de monstros, centenas de zumbis. A aventura sensacionalista, exagerada, a vida recarregada, aprimorada. A realidade virtual é uma utopia, um lugar para fugir de nossos corpos e levar uma vida melhor. Isso nos lembra Michel Foucault em O Corpo Utópico:

 

"O prestígio da utopia, a beleza, a maravilha da utopia a que se devem? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde eu terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, rápido, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado." (Foucault, p.8)

 

A realidade virtual como forma de utopia também se refere à busca da eterna juventude. Aquele corpo virtual deve ser perfeito em sua aparência mais jovem. Em nossos tempos, a juventude, o aspecto juvenil, mais parece ser a utopia daqueles que já não são mais jovens. O fenômeno parece se acumular, especialmente naqueles que têm todo o material ao seu alcance. Na ânsia de ter mais, também se esforçam para se tornar uma juventude plástica, na moda, desesperada.

Target (The Target – 2011), dirigido pelo veterano russo Alexander Zeldovich (que em 27 anos de carreira teve apenas quatro filmes), com roteiro do polêmico (que causou problemas a Putin e seu partido) romancista Vladimir Sorokin, nos mostra uma história que acontece dentro de uma sociedade utópica aparentemente perfeita, por trás da qual se move a mediocridade de raças mais prósperas. Porque, sem dúvida, parece que nos encontramos diante de uma sociedade medíocre, uma sociedade que chegou com facilidade ao seu estado de perfeição. A Rússia, que aqui é apresentada linda e futurista, chegou onde chegou por ser um lugar de passagem, um enorme escritório entre dois grandes espaços de comércio internacional. Nada parece ter ocorrido sem esforço. No filme, a Rússia é um lugar de obrigação, um lugar que se enriquece por si mesmo; um país virtual, porque tudo acontece na velocidade do virtual, porque tudo é exagerado na riqueza, porque tudo parece ser muito perfeito... menos a velhice. Nesta Rússia, como já dito, surgiu um sistema de castas e os protagonistas de Target são os de mais alto nível. Um Ministro de Recursos Energéticos, sua esposa, uma atriz da Televisão russa e um coronel encarregado da segurança no trânsito entre as fronteiras. Todos estão ansiosos e confiantes, em uma viagem para uma região distante, próximo à Mongólia, em busca de uma fonte da eterna juventude que, supostamente existe, pois é resultado de alguma estranha irrigação de um antigo laboratório de astrofísica. Logo, os privilegiados descobriram a deusa da cura, mas também encontraram com os exageros de suas virtudes e defeitos. Tudo por causa deste benefício da juventude exagerada, ficará exagerada neles. Viverão a utopia de seus corpos e, esta utopia vivida, mais que um presente dos deuses, será uma queda no abismo. Assim deve ser para aqueles que só conhecem o egoísmo, miséria e mediocridades, tudo aquilo que é obscuro no homem, tudo aquilo que em si não é virtual, que em si é muito, muito humano.

Uma produção russa muito cuidadosa, muito bem pensada, clara, nítida em seu objetivo e em sua produção; um drama profundo sobre utopia, mesquinharia, desejo, poder político, sobre a sociedade contemporânea em geral, tão perto de seus desejos de virtualidade, que só vive no egoísmo.

Target (The Target), quinta-feira 21 de março. Realidade virtual, distopia, eterna juventude, miséria humana. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

A Ovelha Negra, ou o louco e a disciplina

por max 15. dezembro 2012 03:53

 

O italiano Ascanio Celestini é ator, dramaturgo e diretor teatral muito conhecido por lá. É representante também do teatro da narrativa oral, vinda dos contadores de histórias, com uma forte carga social. Ascanio Celestini ouve seus personagens, pessoas oprimidas, das periferias, vítimas, e logo destaca a voz deles em monólogos carregados de oralidade. É um teatro de escuta, digamos assim. Celestini passará três anos visitando, escutando as histórias da loucura, dos internos do sanatório. Com sua arte de escutar de vento em popa, foi acumulando e, finalmente, produziu uma peça de teatro, depois um livro e, então, seu primeiro filme.

A Ovelha Negra (La pecora negra, en el caso del film: 2010) é uma comédia dramática protagonizada pelo próprio Ascanio Celestini. Conta a história do personagem chamado Ascanio, que esteve internado durante toda a sua vida em uma clínica psiquiátrica. Está ali desde criança e já é adulto no final dos anos 60, a época do filme. Só sai de vez em quando para ir ao supermercado. Assim se alterna sua vida, do supermercado para a instituição.

O supermercado não está ali de graça. O mercado é um símbolo da mercadoria, do consumismo, daquilo que afasta o homem de si mesmo porque o mantém ocupado com coisas pequenas em série, segundo as ideias de Krishnamurti. Do outro lado do supermercado estão outros sinais de alienação, para seguir com a palavra de legado Guy Debord. Tais sinais são instituições da sociedade disciplinaria, para nos remetermos agora para Foucault. A disciplina, como forma de poder sobre o indivíduo, está refletida no manicômio (que, por sua vez, foi a escola de Ascanio… e a escola é, de fato, outra instituição disciplinar) e na religião. E digo religião como aquele lugar onde Ascanio está parcialmente recluso, se encontra dominado por religiosas. A religião, como uma das principais ferramentas do poder, está também representada sob o olhar do humor. Porque Celestini usa o humor, disso não cabe dúvida, e a partir do humor, questiona essas instituições. Esse questionamento não está isento de compaixão, mas se não houvesse a instituição (obviamente), não haveria o indivíduo que padece da dominação. Esse olhar compassivo consiste inclusive em uma reversão dos padrões. O louco é apresentado, em certos momentos, como um ser feliz, como um ser perfeito, que ao estar na instituição, transforma-se em um homem livre, despreocupado e em paz com respeito a todas preocupações do mundo exterior, com respeito inclusive àqueles que detêm o poder da disciplina, como por exemplo, as freiras, que, em seu fanatismo, parecem estar mais loucas do que Ascanio. Os loucos são os que estão "lá fora", os alienados dos mecanismos de disciplina, das freiras, dos cérebros do mecanismo. Apesar disso, também ali, nessa felicidade do louco, no olhar compassivo descobre outra articulação: a da tristeza. Aquele ser enclausurado, livre como uma criança, na realidade não é uma criança. É um adulto reduzido à criança e isso, não resta dúvida, é profundamente triste, para não dizer patético e perverso. A instituição maternal é, por sua vez, um monstro, um monstro que te reduz, que deixa de ser, lá no fundo, uma ferramenta do poder que anula a ovelha negra, a pobre da ovelha negra, que não é negra nada, que nem sequer sabe brincar, muito menor rebelar-se. Essa lamentável ovelha negra, que ficam repetindo pra ele desde pequeno para que acredite nisso, para que se transforme nisso. Esse é o grande engodo do poder.

A Ovelha Negra, neste domingo, 16 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Para reapresentações, clique aqui.

THX 1138 e as tecnologias cristãs do eu

por max 5. novembro 2012 13:06

 

Do filme THX 1138 (1971), hoje me interessa um símbolo: o confessionário com sua imagem de Cristo na tela. A sociedade na qual o personagem THX se encontra submerso, claramente, o controla por inteiro: o homem é uma máquina que produz, seu corpo foi reduzido à condição de máquina e sua mente está em constante vigilância. O eu de THX, e de todos os que vivem nesse mundo subterrâneo, existe em função do que dizem a ele que deve ser feito. É uma tecnologia do eu, profundamente cristã, se nos baseamos em Michel Foucault. OMM, o Cristo de Hans Memling, dá a pista, ou melhor, confirma a própria pista. Cabe dizer que o tema cristão é uma particularidade – ou originalidade – do filme de George Lucas. Embora suas referências ou influências apresentem uma descarada semelhança com George Orwell e com Aldous Huxley, ao contrário, no lugar do confessionário fica clara uma distância singular. Neste primeiro longa-metragem de Lucas, a vigilância e o controle do eu se revelam com uma forte carga cristã, onde o confessionário é o espaço no qual o homem precisa ir para revelar suas obscuridades mais profundas, aquilo que segundo a opinião geral, é maléfico e deve ser rejeitado com a finalidade de levar a pessoa a aderir aos desígnios exteriores do poder. Ou seja, o indivíduo, sob as tecnologias do eu do cristianismo, deve anular sua individualidade, deve rejeitar ao eu em prol de algo maior. Para Michel Foucault, a confissão é uma forma de revelação de si que está fundamentada na autodestruição. Essa obscuridade que se manifesta na confissão deve ser aniquilada para dar lugar ao bom, à lei da benfeitoria, a essa luz exterior que deve conformar e fazer o indivíduo feliz. O bem, a moral, a ética não estão no homem. O conhecimento de si mesmo não é, nesse sentido, helênico. No confessionário cristão, é a voz de OMM, esse Cristo de Memling, cristão e exterior, que diz como você deve agir e pensar para ser perfeito. Ali, supõe-se, está a luz. Precisamente, é contra este controle, contra essa supressão da liberdade, que o personagem de Robert Duvall se rebela no amor e na fuga. E é assim que começa uma cruzada por sua individualização, uma cruzada onde seu eu mais íntimo tem valor, é luz e pode decidir e pensar, não sei se felicidade, mas, sim, seu destino.

THX 1138, nesta quarta, 7 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Para reapresentações, clique aqui.

Revolução em Dagenham, ou a mulher contra a prisão da fábrica

por max 30. dezembro 2011 06:42

 

Um dos aspectos fundamentais da pós-modernidade é o tema dos sexos. No estouro dos grandes relatos de organizadores do mundo, ocorre o desequilíbrio ou a queda da concepção centralista do homem-masculino como o instaurador das realidades dos poderes. A mulher, na pós-modernidade, busca seu lugar no mundo, reclama seu lugar no mundo, sua igualdade de direito. A mulher busca sua voz e vai deixando de ser aquele ser menosprezado, esquecido de lado no lar, ou limitado à fábrica com menos benefícios do que o homem. Há alguns anos, vi Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars von Trier. Que filme excelente! Von Trier mostra uma realidade terrível, uma visão psicológica profunda: a visão do homem sobre a mulher. Von Trier mostra como, durante séculos, a mulher tem sido temida. Assim, temida pelos homens. Esse outro ser, fisicamente diferente, também tem sido considerado diferente sob o ponto de vista psicológico e também de alma. E tomara que seja assim mesmo, mas aquela discordância sobre o que o homem criou, no próprio homem, é temor e reflexo da obscuridade, da maldade, da loucura. A mulher, durante séculos, tem sido a louca, a bruxa, a má. É preciso dominá-la, mantê-la em rédea curta, mantê-la na linha, esse é o pensamento básico que predominou durante séculos, e isso é o que nos mostra Lars von Trier em seu filme terrível. Alguns menos avisados poderiam considerá-lo como mais um horror contra a mulher. Mas não é isso, o diretor fala mais bem da mulher do que o contrário. Anticristo é uma defesa da mulher.

Mas desculpem que tenha utilizado um filme para falar de outro. Preciso falar, na verdade, de Revolução em Dagenham (Made in Dagenham, 2010), um trabalho de Nigel Cole (Garotas do Calendário, O Barato de Grace), que centra-se na fábrica, esse lugar de aprisionamento, de disciplina. Michel Foucault falou dele em Vigiar e Punir e em outros textos. A fábrica se assemelha à prisão, se assemelha à academia militar, se assemelha ao colégio. A fábrica é um lugar de muitos, vigiado ou controlado por poucos. A fábrica é o lugar onde o corpo é adestrado, dominado e torna-se eficiente em função de produzir; ali o corpo não se revela, ali o corpo da mulher é uma máquina e não uma tentação. É neste recinto industrial onde Cole ambienta sua história, centrada em um fato histórico, ocorrido em 1968 na fábrica da Ford em Dagenham, na Inglaterra. Fundamental a atuação da atriz Sally Hawkins em seu papel de Rita O´Grady, uma personagem que não existiu na realidade mas que é uma fusão e uma lembrança das líderes daquele movimento que pleiteou igualdade de condições para as mulheres trabalhadoras da fábrica. Cole, como é seu hábito, opta por contar a história com certo frescor, sem cair nas obscuridades de Von Trier, e dando ainda um certo toque de comédia, de gostosa agilidade, o que dá um ar de humanidade, de esperança, de alegria e de triunfo à luta neste filme iluminado.

Revolução em Dagenham, neste 1º de janeiro, no Max.

 Para reapresentações, clique aqui.

O Pequeno Indi, ou a perda da primeira utopia

por max 20. setembro 2011 13:50

 

A passagem da inocência para a maturidade é uma aventura (uma aventura?) nada fácil. A inocência é como um campo, um lugar tão perto e tão longe do caos do espesso mundo. Há, nesse mundo, crianças, jovens, que parecem viver em um paraíso terrestre onde as utopias não são necessárias, aqueles lugares onde o corpo escapa de se tornar perfeito, como Foucault diz em "O corpo utópico". Nesse mundo, a natureza é uma constante e lidar com os animais é quase uma conversa. E claro, o mundo adulto, está ao lado e lentamente vai penetrando, poluindo os canais de inocência. Claro que, em algumas vidas, a presença do mundo adulto é mais poderosa, mais prejudicial. Nesses casos, os jovens são mais resistentes à mudança, porque sabem que a chegada de um outro mundo é iminente, mas não apenas iminente, traz problemas enormes e muito dolorosos, eles vão crescer mais rápido que as esperanças dos jovens. O Pequeno Indi (Petit Indi, 2009) do diretor catalão Marc Recha (Pau i el seu germà, Dies d'agost, The Cherry Tree), oferece um olhar para a passagem entre esses dois mundos, num lugar bastante excepcional para seu protagonista, o Arnau jovem (Marc Soto), que vive em contacto com o campo e suas criaturas, mas que também sofrem com a ausência do pai e a prisão da mãe. Recha, um diretor em seus quarenta anos, é um daqueles artistas que já não se lança de cheio às tentações do comercial, eles trabalham os seus pequenos pedaços, os números de vidro suas delicadas figuras de cristal, que fornecem sua sensibilidade, seu sentimento e arte, a sétima arte da Espanha e do mundo. Com Petit Indi, Recha fala sobre seu amor pela natureza, pelo paraíso perdido, pela memória. É um tributo e uma crítica dura e triste ao mesmo tempo. Crescer é se contaminar, crescer é ir contra a natureza para sobreviver, mesmo realizando alguma corrupção por causa do amor. Crescer é entrar em um mundo complexo, cheio de espelhos que enganam e constantemente nos fazem lembrar que estamos aqui e não em outro lugar, não na utopia perdida.

O Pequeno Indi, quarta-feira 21 de Setembro, na Max.

Para retransmissões, clique aqui.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, ou educando Lisbeth Salander

por max 3. setembro 2011 03:34

 

Eu li um artigo em um jornal local. A notícia era que um mexicano de 16 anos de idade tinha se formado como psicólogo. Andrew Almazan Anaya, dotado de um alto QI (tem 162, 2 pontos a mais do que Einstein, de acordo com a notícia). O interessante sobre esta história, ao contrário de muitas outras que descobrem um gênio o tempo todo em qualquer lugar do mundo, afirma que o menino, em algum momento de sua vida, foi considerado uma aberração, uma criança com problemas e que experimentou a rejeição de seus professores. Aos quatro anos, relata a notícia, ele foi mal diagnosticado com desordem de atenção e défice de hiperatividade, assim como também foi considerado um insubordinado. Felizmente, Andrew foi capaz de ir sobrepondo os estigmas de ser uma criança muito inteligente e hoje é psicólogo e também estudou medicina. No entanto, sabendo o que ele sofreu e da falta de atenção às crianças como ele (de acordo com a notícia no México poderia ter 3 milhões de crianças na mesma situação), o jovem psicólogo junto com seus pais, fundaram o Centro de Assistência ao Talento, que atende crianças de grande capacidade intelectual, que são mal interpretadas ou rejeitadas em outras escolas e cujo talento pode ser perdido sob o peso da educação formal. Agora, o ponto aqui não é apenas que crianças superdotadas sofrem deste problema. Lembro-me de uma conferência que vi recentemente, ditada por Sir Ken Robinson, especialista em criatividade, consultor internacional para governos, empresas e multinacionais. Robinson falou sobre os problemas atuais da educação e da criatividade, lembrando que a educação de hoje foi desenhada e concebida em uma época diferente e distante. Robinson diz-nos que o sistema educacional foi criado durante a Era do Iluminismo (sua mais forte base) e durante as circunstâncias econômicas da Revolução Industrial. Houve, digamos, um modelo intelectual da mente que estava assentado nas bases do assim chamado conhecimento acadêmico (inteligência dedutiva e conhecimento dos clássicos). O conhecimento acadêmico fazia com que uma pessoa fosse inteligente. Existiam, naturalmente, aqueles que não eram inteligentes. Inteligente e não inteligente, é simples. Isso continua sendo verdade e é aí que está o problema. Devido a este sistema, muitas pessoas brilhantes que não têm conhecimento acadêmico, não são consideradas inteligentes. Assim, Robinson continua a argumentar, que esta maneira de compreender o mundo, criou o caos na mente de muitas pessoas, um caos que tem levado a uma epidemia contemporânea, que segundo ele não existe: o chamado Transtorno de Déficit de Atenção. O autor esclarece que ele não quer dizer que este problema não existe, ele quer dizer que o rótulo é aplicado a todos com a facilidade de um gatilho, e não é, como se quer fazer ver, uma epidemia. Nossos filhos hoje, continua ele, estão vivendo em uma era de comunicação e estímulos intensos: computadores, Internet, telefones celulares, videogames, centenas de canais de televisão, sobrecarregados de publicidade. Tudo isso, diz Robinson, é perturbador. Distrai as crianças do quê? De um sistema de educação que já não vai com o tempo, um sistema de educação chato. E com certeza, se eles têm um problema com atenção, a questão é que sua atenção está em outro lugar, onde eles aprendem mais rápido, onde eles aprendem o que lhes interessa, onde aprendem o que os seus tempos obrigá-los a aprender. Em muitos casos, surge a rejeição, o isolamento, o tratamento com drogas que supostamente servem para mantê-los em foco, é quando começa a surgir o que a sociedade considera como loucos. Eles são realmente loucos? Existe realmente algo de errado com eles? Não há necessidade de ser dotado para sofrer tais rejeições, apenas é preciso ser um pouco diferente. Quando a escola de fábrica, ou social, detecta uma dessas exceções, começa o processo de humilhação, de expulsão, de castração, mental. Eles são anestesiados, adormecidos, afastados, para que não se tornem maçãs podres que afetem outras maçãs.

Agora, por que eu pensei em tudo isso e por que estou escrevendo sobre esse assunto aqui? Porque tudo isso me fez pensar em Lisbeth Salander. Pense nisso, caro leitor, acho que esta jovem desde cedo foi considerada anormal, retardada, inútil, uma rebelde, uma rebelde violenta. Ela nunca trabalhou bem dentro da educação formal, ela aprendeu outras coisas, mais interessantes, de outras formas, em colaboração com outros seres mais ou menos invisíveis, outros como ela, do outro lado do teclado. Ela é o fracasso final de um sistema de educação, ditatorial, industrial, parte do que Michel Foucault chamou de uma sociedade de controle. A escola é como uma fábrica (sinos que anunciam o início e o fim do dia, postos de trabalho seriados, etiquetas como um método de classificação), um lugar onde você vai ser moldado para produzir de forma eficiente segundo o que as necessidades econômicas e sociais precisem. Lisbeth Salander, uma alegoria absoluta aos jovens dos nossos tempos, não encaixa na educação de fábrica. Suas habilidades, conhecimento, inteligência e criatividade estão em outro lugar. O mundo acha que Lisbeth Salander está dormindo, anestesiada perante os olhos que não podem ver de outra forma, mas na realidade ela está acordada em qualquer outra área do tempo ao qual ela pertence e onde realmente quer estar. Não sei se Lisbeth Salander é como o menino mexicano talentoso do que falei no início, mas posso dizer-lhe que ela é subsidiária integral da nossa época. O presente é sempre difícil de explicar, de definir e teorizar. Mas, ocasionalmente, alguém vem, um artista que nos dá uma imagem, uma alegoria, uma metáfora, que revela aspectos inusitados de nossa realidade. Eu acredito que Steig Larsson teve essa sorte. Sua personagem, Lisbeth Salander, é um espelho do que está fora de nossas mãos e não podemos entender claramente, mas ela está lá e ajuda-nos a concentrar um pouco mais a nossa mente, pois Lisbeth é precisamente o presente encarnado e portanto, é tão fascinante. Um tratado filosófico não poderia explicar melhor os jovens dos nossos tempos.

Aqui deixo o link para a conferência de Sir Ken Robinson, espero que goste.

E não perca a estréia exclusiva do filme  Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Domingo 4 de setembro, na Max.

O pátio da minha prisão, ou o corpo e a liberdade

por max 8. agosto 2011 03:38

 

Nas sociedades disciplinares, o corpo deve ser subjugado, limitado, educado para que a sua energia seja usada o mínimo possível, mas acima de tudo, com a finalidade de produzir, é de que seja eficiente. O mesmo se aplica as instituições, como é compreendido e explicado por Foucault em Vigiar e Punir. Instituições como locais de confinamento (quartel, escola, hospital, prisão) que visam criar um grupo falso que realmente isola o indivíduo dentro da massa. O corpo, em geral, é domesticado no registro técnico e político "para controlar ou corrigir as operações do corpo." Foucault diz que o corpo é "mais útil quanto mais obediente." Especificamente nas prisões, onde o indivíduo e seu corpo deve ser isolado, como Foucault aponta, a fim de "acabar com os tumultos e parcelas que podem se formar, evitar complicações futuras ou possibilidades de chantagem (o dia em que os detentos estão livres), impedir a imoralidade de tantas "associações misteriosas". "A prisão tem como estatuto prevenir a formação de uma "pequena nação" no coração de uma grande." Como sabemos, Foucault fez a sua análise sobre o nascimento da prisão e seu desenvolvimento na Europa, principalmente durante o século XIX. A questão é se isso é conseguido em nosso tempo e em alguns países onde o caos da prisão não é um sonho do século XIX.

A realidade para estes casos parece ser outra. Por um lado, o corpo não sofre um processo de treinamento onde trabalha a eficiência, porém a humilhação constante. O corpo é de pouco valor, sua higiene, as roupas que o cobrem, a sua comida, seu ataque constante na chamada busca. Na prisão das mulheres poderia ser pior. Porque sem dúvida, o corpo feminino sempre foi cercado por mais mistério, mais tabu, mais discrição. Assim, o corpo nas prisões não é produto de disciplina, porém da violência do poder, e por outro lado, do lazer. A superlotação está a favor desses itens. A idéia da correção desaparece completamente. Na prisão, o infrator não vai reconsiderar seu crime, a solidão é a alienação, não são purificação espiritual. No caos da superlotação, o poder não pode fazer nada, você perde o controle. Aqui só existe o "país pequeno", o interior, com suas próprias leis. Então, quando os guardas estão envolvidos, são como máquinas de guerra, máquinas violentas, agressoras. Qualquer individualização coercitiva está perdida, a combinação terrível de outros poderes é possível. Lá, o indivíduo é novamente uma coisa, mas uma coisa ainda menos valiosa do que o corpo disciplinado, porque o corpo disciplinado é útil para a sociedade, aqui, o corpo do lazer só é útil para os interesses daqueles que mandam. Não desaparece o que Foucault chamou de emprazamento funcional, ou seja, a idéia de prisão como área utilitária, que porém é transformada. A prisão e os corpos encontrados lá permanecem rentáveis, para a escuridão, para as coisas que não são claras. Que possibilidades existem, então? O pátio da minha prisão (El Patio de mi Cárcel, 2008), de Belén Macías oferece alguns olhares diferentes, um pouco de esperança sobre este assunto. Centrado na questão das mulheres, Belén Macías apresenta a oposição da arte ao caos e a disciplina violenta da prisão. A solução está na educação, em incluir estas mulheres em outra disciplina, desta vez a teatral. O corpo no teatro se transmuta, concentrando-se, fazendo exercício, vem a calhar. Ao mesmo tempo, o teatro é perigoso. É uma forma de parceria de corpos, é uma forma de libertação das mentes. O corpo é útil no teatro, é útil para pensar, e é útil para denunciar. Eles são um grupo, um coletivo "social" conhecido por se opor ao poder coletivo criminoso e estuprador, um grupo social, que pensa ter encontrado o caminho da liberdade dentro da disciplina do teatro, dentro da prisão e seu caos, e além disso, sendo mulheres.

O pátio de minha prisão, quarta-feira, 10 de agosto, na Max.

Clique aqui para exibições.

arquivos
 

nuvem