Politécnica, A loucura surda

por max 25. abril 2012 05:37

 

Seguindo o rastro e as preocupações marcadas em produções como Tiros em Columbine (Blowling for Columbine, 2002), de Michael Moore, e Elefante (Elephant, 2003), de Gus Van Sant, o diretor canadense Denis Villeneuve (Redemoinho e Incêndios) lançou, em 2009, Politécnica (Polytechnique). O filme é inspirado no massacre que ocorreu na Escola Politécnica de Montreal, em 6 de dezembro de 1989, quando um homem chamado Marc Lépine entrou e assassinou 14 mulheres, alegando que o feminismo havia desgraçado sua vida.

Em branco e preto, com música minimalista e poucos diálogos, Denis Villeneuve apresenta os fatos, sem julgar, sem intervir, sem explicar nem sequer os motivos do assassino. Por que ele fez isto? Vive-se, sem dúvida, em tempos de múltiplas vozes, de múltiplos discursos: feminismo, ecologia, pacifismo, etc. O feminismo se elevou com força e pôs a mulher em outro patamar. A razão, a justiça, o direito, a igualdade já ganharam seu espaço. Mas também, parece dizer o diretor, vive-se tempos da loucura absoluta - dos sem sentido, dos sem razão. Às vezes, nos momentos menos esperados da existência, parece explodir a loucura assassina que tira a vida sem explicações. Algo está mal. Alguma coisa, em alguma parte, está mal. O que se esconde, não atrás da solidão, mas atrás da alienação do homem? Parece que é cada vez maior a distância entre as pessoas. Cada vez, o mundo pisa mais e mais, afunda, separa. A expatriação da alma é, sem dúvida, uma terrível forma de ofensa, de humilhação. O que se acumula nesse lugar, nesse tempo de alienação, explode. Explode sem explicações. Explode e se equivoca, mas explode, gera violência, morte, loucura, dor.

Em Tiros em Columbine perguntam a Marilyn Manson o que ele diria aos rapazes que perpetuaram o massacre. Manson responde que não diria nada, que os escutaria. Talvez isso faça falta ao mundo, mais ouvidos que escutem.

Politécnica, nesta quinta-feira, 26 de abril. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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A Guerra Acabou, ou a complexidade das verdades

por max 25. novembro 2011 11:34

 

Na África, as guerras civis têm sido completas atrocidades. A de Serra Leoa, como muitas outras, caracterizou-se pela excessiva fúria contra a população. Amputações, estupros, torturas, assassinatos sem piedade, meninos soldados, prostituição forçada, inclusive canibalismo. Que horror imaginar um grupo de homens entrando em seu povoado com facões nas mãos, cortando sem piedade todo mundo que atravessasse seu caminho. Que horror imaginar uma criança com um rifle nas mãos, matando sem piedade, drogada, enlouquecida pelos próprios pais.

War Don-Don quer dizer "a guerra terminou", o horror terminou. Mas em Serra Leoa deixou um país destroçado, um país que esteve em guerra contra si próprio. Não é o mesmo que um país lutar contra outro país, vendo os inimigos baterem em retirada ou, no pior dos casos, a submissão final, à qual um país se vê no final da guerra, e que aqueles que foram inimigos saiam dali. Como pode se reconstruir um país assim? Como estabelecer justiça entre irmãos, entre compatriotas?

O documentário que leva como título a significativa frase que indiquei acima, A Guerra Acabou (War Don-Don, 2010), dirigido por Rebecca Richman Cohen e produzido pela HBO, centra-se em um dos líderes da guerra civil, Issa Sesay, líder da RUF (Revolutionary United Front), acusado de ter ordenado os massacres, os estupros, as mutilações, e de permitir a formação dos batalhões de crianças soldados. Um grande tribunal internacional, a um alto custo, se instaurou no país, buscando, precisamente, deixar um precedente, deixar claro que se ansiava pela paz nacional através do estabelecimento da justiça. Sesay foi um dos peixes grandes daquele propósito político. Um homem de origem humilde, de pouca educação que, segundo sua defesa, foi inclusive vítima de manipulações políticas. O documentário de Rebecca Richman Cohen reúne as complexidades do julgamento ao longo de três anos, com testemunhos de pessoas dos vilarejos (pessoas amputadas, muitas delas com medo de falar), e com acesso inclusive ao próprio Sesay. Fúria, alegria, tristeza, tudo ali, registrado pela diretora em seu primeiro documentário, depois de ter passado pela escola de Michael Moore. Um trabalho consciencioso, sério, que tomou um tempo para chegar ao fundo não sei se para chegar ao fundo das verdades, mas sim para chegar ao fundo de onde nascem as perguntas verdadeiras, as perguntas que nos levam a questionarmos a respeito da natureza humana, da natureza da verdade.

A Guerra Acabou, neste domingo, 27 de novembro, no Max.

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