A Noite Americana, ou a opaca realidade da ficção dentro do ciclo Oscar sem Fronteiras

por max 9. fevereiro 2012 04:22

 

O reality show não é real. O que comanda um reality show é a vontade figurar, de representar, realmente não importa ser de verdade, realmente não importa viver. A câmera segue um ator que interpreta a vida real. Um ator que quer fama, ou mais fama.

 

O reality show é uma ficção que quer ser verossímil, parecendo realidade. Mas aí acontece um erro, ou truque - não tão explícito -, porque o que pretende-se é fazer com que creiam que a ficção não existe.

 

Em 1973, muito antes do reality show ter nascido, François Truffaut apresentou um filme no qual a câmera distanciava seu olhar do set de filmagens e mostrava os bastidores, a realidade. A Noite Americana (La Nuit Americaine) é esse filme, a história do que acontece por trás da história, a realidade que existe atrás da ficção, o que acontece fora das câmeras enquanto um filme está sendo rodado.

 

Há um filtro na lente da câmera. Com esse filtro pode-se filmar de dia e fazer com que pareça noite. É o mesmo que dizer que o resultado, a filmagem, a ficção é uma imagem opaca da realidade.

 

A realidade poderia ser a cor, o resultado uma imagem opaca. A arte é o filtro. O que vemos é apenas a pobre representação da realidade. A arte é representação, o real opaco.

 

A realidade é muito mais do que vemos, o filme é apenas a ponta do iceberg. Debaixo dessa capa imensa de mar, desse intermediário entre a realidade e o que se vê da ficção, está o resto do iceberg, o bloco de gelo gigantesco que é a realidade. Em A Noite Americana, a ficção é um negativo (essa noite falsa) que contém, que enquadra, que obscurece e que delimita a realidade. Truffaut mostra o que está atrás da câmera, mas nos adverte, com o recurso do filtro, que esse mundo do filme é ficção, e está registrado sob seu olhar, sob seu humor e pela sétima arte.

 

Do outro lado do filme estão os técnicos, os animais de estimação, os treinadores, os cabos, as luzes, os assistentes de qualquer coisa, os diretores, os cinegrafistas, os responsáveis pelos camarins, os maquiadores, as paixões, a paixão pelo cinema.

 

A mesma viagem da filmagem, o mesmo tempo que se vive realizando um filme, isso também é uma ficção. A equipe se isola e convive intensamente, como ocorre no filme de Truffaut. Tudo se confunde, a brevidade do tempo faz com que tudo se viva com maior intensidade.

 

A filmagem nasce, cresce e morre.

 

O que foi vivido pela equipe durante a filmagem tem o arrebatamento da fugacidade.

 

Ama-se o trabalho, ama-se a vida, ama-se a ficção. A realidade parece não estar em qualquer parte, pois a própria brevidade da existência faz com que nos apressemos em viver a vida, através das elipses existenciais, os encantamentos e as magias que inventamos para encontrar sentido na vida: tudo isso não é nada além de ficção. A realidade que Truffaut mostra é tão opaca como a que vemos no filme: todos nós contruímos histórias que giram em torno da realidade. Nossa mente é o filtro. (Ergo, toda teoria anterior a isso fica descartada).

 

O mundo real do mundo do cinema também é mundo de ficção. O artista não pode deixar de ser artista em nenhum momento. O cinema não pode deixar de ser cinema, nem quando se desliga a câmera. A arte não sabe deixar de ser arte.

 

Truffaut não pretende nos enganar (ao contrário do que acontece em um reality show), estamos vendo um filme sobre um filme. Sua visão do que acontece atrás da câmera é o tema do que está sendo filmado. A paixão, a intensidade, o humor e a arte. Mas, paradoxalmente, como não pretende nos enganar, aquilo que vemos nos parece intensamente real ou, ao menos, verdadeiro. Mais verdadeiro ainda.

 

A Noite Americana, de François Truffaut, é o segunda obra-prima que você poderá assistir dentro do ciclo Oscar sem Fronteiras que o Max preparou este mês.

 

Em 1973, A Noite Americana foi premiado como Melhor Filme Estrangeiro. Naquele ano, vale destacar que ele ganhou de The House on Chelouche Street (Israel), de Moshé Mizrahi, L´Invitation (Suíça), de Claude Goretta, The Pedestrian (Alemanha), de Maximilian Schell, e Turkish Delight (Holanda), de Paul Verhoeven.

 

Assista, nesta quinta-feira, 9 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Decubra o Max.

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