Misericórdia, o sofrimento do crepúsculo

por max 8. junho 2013 03:00

 

Um casal alemão vai para longe. Ir é recomeçar e este casal quer recomeçar. O lugar para onde foram é a Noruega, um local no extremo norte. Lá sempre é noite e sempre é crepúsculo. É um lugar bonito, mas também um lugar que nunca deixa de ser. Esse lugar é como o casal, eles estão à beira do crepúsculo. Ele, Niels (Jurgen Vogel), se dedica ao seu novo trabalho na fábrica de gás natural em que foi contratado; ela, Maria (Birgit Minichmayr), mergulha no seu trabalho como enfermeira em um hospício. Niels repete a infidelidade que cometeu na Alemanha, mas agora na Noruega: tem uma amante em seu trabalho. Assim começa Misericórida (Gnade, 2012), drama do cineasta alemão Matthias Glasner. Começa ali, no meio do nada onde nada parece que vai acontecer, até que, de repente, algo terrível acontece. Voltando para casa, naquela escuridão perpétua, Maria atropela algo. Ela não para, mas quando chega em casa, ela conta ao marido que vai investigar. Mas nada encontra. No dia seguinte, descobrem: ela matou uma jovem de 16 anos que, ainda por cima, era colega de classe de seu filho Markus (Henry Stange). Niels e Maria escolhem ficar em silêncio, mas, como sabemos, dos silêncios saem espinhos. A misericórdia surge então, surge como perguntas angustiantes que levarão ao argumento do enredo. Será que Niels e Maria devem falar com os pais da garota? Devem confessar sua culpa? Devem ter piedade da dor alheia, se sacrificarem, seguir a justiça, se purificarem, mas, ao mesmo tempo se condenarem com a confissão?

A misericórdia tem algo de compartilhado. É compadecer, padecer em companhia, e implica em uma ação para remover as feridas, as próprias, mas, sobretudo, as dos outros. Niels e Maria carregam uma dor, a dor de ter matado alguém, a dor de calar essa dor, de deixar sem respostas os pais de quem morreu. Niels e Maria têm um profundo dilema que os unirá, que paradoxalmente vai integrá-los, tornando-os mais íntimos e amorosos. Mas algo deve ser feito com os espinhos, algo deve ser feito e talvez a maneira seja apenas essa misericórdia que olha e sussurra aos ouvidos suas verdades. Mas como é difícil, quão difícil é a misericórdia nestas circunstâncias em que não se quis fazer o mal, mas fez o que fez sem planejar, sem maldade, por acidente. Misericórida não é um filme confortável ou complacente, as perguntas que Glasner levanta não são de respostas imediatas, muito menos simples. No entanto, a cineasta nos leva nesta exploração em torno de um dos maiores dons do complexo da alma humana com uma profundidade, uma crueldade, uma seriedade e uma maturidade que são apreciadas.

Misericórdia, sábado, 8 de junho. Cinema independente, dor, sacrifício, redenção. O que você vê quando vê o Max?

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Um Verão Escaldante, ou as rachaduras e a luz

por max 6. junho 2013 14:29

 

Início, em resumo

Monica Bellucci nua na cama, um homem em um posto de gasolina, o homem entra em seu carro e sai para a morte, uma voz em off diz o nome de quem acaba de morrer, diz que é seu amigo e, em seguida, começa uma viagem ao passado, em cores. Digamos que essa cena inicial é o resumo de Um Verão Escaldante (Un été brûlant, 2011), obra-prima de um cineasta com uma mostra muito diversificada dentro do cinema francês, um cineasta de complexidades, silêncios, tempestades e amores; estamos falando de Philippe Garrel, que finalmente retoma a cor em sua cinematografia. O passado convertido em presente, o presente vivo, deve ser visto em cores, porque o passado, a vivência, nunca morre. Sempre, seus seguidores sabem, o elemento autobiográfico está muito presente no cinema de Garrel que, cada vez mais sintético, mais narrativo (depois desse passado de cinema-mundo, experimental, vanguardista), explora suas obsessões e as revive, peneiradas, amadurecidas com os anos. Quando Garrel mata o personagem, ele mata, de alguma maneira, a si mesmo, e é rejuvenescido no filho, em seu filho na vida real, Louis Garrel, protagonista do filme. O passado está vivo, o passado é o presente, parece dizer Garrel, e tudo o que vem do passado, tem influência sobre nós, de forma inexorável.

 

O amor

Quando dois casais se encontram, entra em jogo algo além da amizade. Garrel já sabe, sua vida tem-lhe falado. No encontro de dois casais sempre está a competição, em primeiro lugar; os casais sempre competem entre si. Vamos ver quem é mais bem sucedido, mais inteligente, mais simpático, mais sexy. Os casais se repelem e se seduzem entre si. Seus jogos de poder são, certamente, jogos que escondem medos, inseguranças, sem dúvida.

Geralmente, sabemos manter as aparências, normalmente, por fora, tudo sai bem nesses encontros. Porém, por dentro, tudo está em ebulição, cada vez mais. São feridas, rachaduras. Leonardo Cohen diz na música "Anthem": "Há uma rachadura em tudo / É assim que a luz entra". Talvez essas rachaduras lancem luz sobre si mesmas e sobre o outro, talvez essas rachaduras nos deem uma luz sobre quem somos. Mas antes, antes do nascimento doloroso de luz, existe o silêncio dos casais, seus ódios silenciosos, seus tédios, suas violências diárias. No entanto, a situação pode explodir, tornar-se explícita entre pessoas de sentimentos radicais, ou com ajuda do álcool, ou na arte da narrativa, onde é tão necessária a aceleração dos estados da alma. Em Um Verão Escaldante, aquilo que parece ser uma caixa fervente selada a vácuo, explode e manda seu fogo para todos os lados. (Quem não arde com Monica Bellucci por perto?). O fato é que, o que começa como um tempo de férias de quatro amigos em Roma, termina em um ninho de infidelidades, ódios e lutas de poder nesta revisão que o cineasta faz sobre o amor, caracterizada por mergulhar nas profundezas de sua biografia. Cada filme, para parafrasear Cohen, é uma rachadura, cada filme, uma luz.

 

Data

Um Verão Escaldante, domingo, 9 de junho. Arte, cinema de autor, amor, infidelidade. O que você vê quando vê o Max?

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