O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, documentário que homenageia o rebelde número um do cinema americano

por max 5. maio 2014 04:12

 

Roger Corman é o homem da rebeldia, o rei do cinema independente por excelência. Claro, atualmente quando se fala de cinema independente fala-se, na maioria dos casos, sobre um trabalho artístico um pouco mais intelectual e requintado, certo? Na verdade, o verdadeiro cinema independente começou com os realizadores do chamado "Cinema B". Vale lembrar que, no início, os filmes do cinema B eram aqueles que entravam na sessão dupla das salas de cinema (os grandes estúdios detinham, naquele momento, o poder da distribuição e das salas de cinema); quer dizer, o filme A é a grande produção do estúdio, aquela que custou muito dinheiro, enquanto o filme B, projetado antes do grande evento, é a produção de baixo orçamento e de pouca qualidade, que está lá só para rechear, como um extra para que o público sinta que recebe mais pelo mesmo dinheiro.

Foram várias as razões que levaram os estúdios a realizar filmes B: Primeiro, como evolução lógica do espetáculo de variedades que era apresentado antes da exibição do filme principal. Tal espetáculo, no início, consistia em uma pequena cena burlesca ou na projeção de um curta-metragem. Logicamente, esta sessão prévia foi evoluindo, tornando-se cada vez mais complexa, até chegar a um filme. Em segundo lugar, a crise americana também teve influência, pois, desde os anos vinte, afastou o público das salas de cinema. Pode-se dizer que os filmes B surgiram como um incentivo para o público decidir gastar o pouco dinheiro que tinha nos bolsos. Mas, afinal, o que estes filmes B tinham especificamente? Eram filmes muito baratos, produzidos com orçamento muito, muito mínimo e com temática de cultura popular, como terror ou ficção científica.

Com o tempo, este cinema B se transformou em um negócio. Junto dos grandes estúdios (que foram os produtores originais destes filmes) surgiriam empresas dedicadas exclusivamente a esta produção. Por isso, nos anos quarenta, quando uma lei derrubou o monopólio de distribuição dos grandes estúdios, os filmes B continuaram a ser produzidos. E, no final dos anos sessenta, quando os códigos de censura foram flexibilizados, estes filmes começaram a explorar temáticas ainda mais atrevidas. Digo ainda mais porque, trinta anos antes, o cinema B já estava fazendo praticamente tudo o que queria. Como eram filmes que estavam lá para encher o espaço, ninguém tinha interesse e, por isso, ninguém os vigiava muito de perto. Isto abriu espaço para a experimentação tanto de temas como de formatos. Na época em que as leis de censura foram relaxadas, o terreno já estava preparado para abordar e explorar novos temas. Observe que usei a palavra "explorar", pois a qualificação que os novos filmes tipo B receberam foi exploitation: explorou-se sexo, raça (eram os anos das lutas por direitos civis), violência, sangue, vulgaridade.

Roger Corman surgiu nestes anos. Ele era diretor de filmes B e trabalhava para uma empresa que fazia filmes B, a American International Pictures (AIP), onde Corman fez uma série de filmes baseados nos contos de Edgar Allan Poe. Estes filmes, já sabemos, foram o começo da lenda Corman, um diretor que queria fazer filmes que agradassem ao público, filmes interessantes e assustadores, que divertissem. Claro, isto é o mesmo que Hollywood queria. A diferença é que Corman não se deixava enrolar pelos grandes executivos e fazia os filmes com baixíssimo orçamento. Nosso homem até chegou a virar independente, fundando sua própria empresa para continuar a fazer o que achasse melhor, com roteiros rápidos, produções baratas (inclusive em cenários de outros filmes) e filmagens onde não se exigia nada dos atores nem se repetiam as cenas. Vale dizer que, em muitas destas filmagens, passaram nomes que depois seriam grandes artistas da indústria, como Jack Nicholson, Martin Scorsese e Peter Fonda, entre outros.

O documentário O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood (Corman's World: Exploits of a Hollywood Rebel, 2011), de Alex Stapleton, fala sobre este cineasta lendário que, naquela época, chegou a dizer que já tinha realizado mais de cem filmes sem gastar um centavo. Na realidade, agora são mais de quatrocentos… sem gastar um centavo. No documentário, para fazer uma homenagem, estão aqueles que devem ao diretor a paixão pela arte: Tarantino, Scorsese, Nicholson, Robert De Niro, Jonathan Demme, Peter Fonda, Bruce Dern, Peter Bogdanovich, William Shatner, entre muitos outros.

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, terça, 6 de maio, no Max.

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Lado a Lado, ou Neo perguntado pelos artesãos

por max 10. dezembro 2013 14:42

 

É curioso: aquele ator que interpretou Neo na trilogia Matrix algum dia se perguntou pelo futuro do cinema analógico. Ou melhor, do filme, do formato 35mm e de todos os outros formatos que vêm em rolos. Keanu Reeves, um dos atores que melhor representam no mundo a metáfora de ser digital, de ser virtual, foi quem se preocupou. Neo quis saber e perguntou.

O filme vai acabar? O cinema, a película do cinema morreram? Assim pensou e saiu perguntando a todos e depois montou um documentário chamado Lado a Lado (Side by Side, 2012). Reeves foi o produtor e o entrevistador e Christopher Kenneally dirigiu.

Os entrevistados foram David Lynch, Martin Scorsese, Steven Soderbergh, David Fincher, Robert Rodríguez, James Cameron, Danny Boyle, entre outros.

O que responderam? Assim como indica o nome do documentário, parece haver um pensamento paralelo. Certa resistência, mas também uma total aceitação dos novos formatos, das suas possibilidades e de suas novas portas. Também a nostalgia se soma e a palavra "arte" abre suas portas. Como sabemos, a arte sempre tem uma vertente de significados que se detém na ideia do artesanal. É desse trabalho dedicado, detalhista e sereno que resultou algo feito a mão. Em Lado a Lado esse tema "artesanal" está ali e se confronta com os cineastas para gerar neles uma espécie de consciência de culpa, digamos, uma espécie de nostalgia do paraíso perdido que perturba suas mentes, apesar de eles terem se aberto completamente para o cinema digital. Neo veio do futuro e trouxe suas perguntas e os artistas responderam. Neste documentário, estão suas respostas.

Lado a Lado, terça, 10 de dezembro.

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Início do Ciclo EUA Independentes com o filme 28 Quartos de Hotel

por max 4. setembro 2013 12:27

 

Isso que tem entre os ancestrais de Roger Corman, Orson Welles, Samuel Fuller, John Cassavetes, entre outros. Isso que chegou ao auge com os novos cineastas de Hollywood (Scorsese, Coppola, entre outros) e que todavia, sob o controle dos estúdios tinha seu ar de independente. Isso que promoveu e promove com sucesso o festival de Sundance (paradoxalmente como negócio que Hollywood havia descoberto). Isso que relacionamos com Tarantino, mas talvez não seja Tarantino. Isso que se caracteriza por filmes sem enredo convencional, por contar histórias de famílias disfuncionais, por acumular personagens fora do comum que lutam para se manterem dignos neste mundo quadriculado e cruel. Isso que pode ser encurralado por prostitutas, homossexuais, anões, pessoas solitárias e drogas. Isso com raras músicas de fundo; com preservação de diálogos ou com diálogos agudos. E claro, isso qye não faz festa com grandes orçamentos e nem efeitos especiais… ou pelo menos, não ao estilo dos grandes estúdios. Isso que chamamos de cinema independente, esse amplo espectro de maravilhas, terá seu espaço este mês de setembro, no Max, com exibição toda quinta. Começa nesta com 28 Quartos de Hotel (28 Hotel Rooms, 2012), de Matt Ross. Na próxima semana, quinta dia 12, tem Inverno de Alma (Winter´s Bone, 2010), de Debra Granik, e dia 19, 96 Minutos (96 Minutes, 2011), de Aimee Lagos. E o ciclo EUA Independentes encerra com O Futuro (The Future, 2011), de Miranda July, na quinta, dia 29.

 

 

Para começar, 28 observações sobre 28 Quartos de Hotel do estreante Matt Ross:

 

  1. Uma história de amor que no início não pretende o amor, é uma verdadeira história de amor.
  2. Os amantes se calam, não dizem que se amam. Seus corpos falam por eles. Seus corpos gritam o amor.
  3. Lá fora está o mundo, o mundo que esmaga.
  4. Entra, vê a porta aberta e entra. Depois não sabe como sair. Assim é o amor que cresce dentro dos amantes.
  5. Existe um pacto. Que não iriam se apaixonar. Mas começam a sonhar outra vida. Neste instante, eles sabem, estão perdidos.
  6. Um quarto de hotel não salva de nada. Desta porta o amor também tem as chaves.
  7. Quarto de hotel, pacto de não se apaixonar. Fracasso certo... do pacto.
  8. Quarto de hotel, refúgio atômico contra a realidade. A realidade é o Apocalipse dos amantes.
  9. Os amantes querem ser como os aeroportos. Esquecem que os voos sempre atrasam, que sempre ficam mais tempo do que realmente era necessário.
  10. Para os corpos nada é passageiro.
  11. Não saber nada do outro não garante o esquecimento.
  12. Nada é certo, menos que se apaixonará.
  13. E a morte.
  14. Mas o amor é como a morte.
  15. Quando percebe que comprou uma passagem sem volta. Ali, naquele lugar.
  16. Quando começa a não saber o que fazer com sua vida. Ali, naquele lugar.
  17. Quando quer uma bola de cristal. Ali, naquele lugar.
  18. Quando entende que o destino existe, mas a vida é sua inimiga. Ali, naquele lugar.
  19. O amor ri dos que dizem: "Não vamos nos apaixonar".
  20. O amor os faz dizer: "Não vamos nos apaixonar".
  21. O amor tem três pernas. É uma mesa de mago. Um mago é um ilusionista... e uma fraude fascina.
  22. Quando foi isso? Foi ontem que disse que não se apaixonaria?
  23. Ontem sim.
  24. E hoje já.
  25. E hoje não há remédio.
  26. Você já esteve em 26 quartos, e desde o primeiro você já sabia.
  27. 28 Quartos de Hotel, quinta, 5 de setembro, no ciclo EUA Independentes. No Max.

O mundo de Roger Corman, ou essa fibra profunda de nossa alma

por max 19. agosto 2013 12:24

 

Quando você se senta para lembrar de um filme antigo, aquele que te impressionou pelo terror, apesar de você se lembrar de efeitos especiais ruins, então você está lembrando de Roger Corman. Isso, essa clara situação na memória de uma história de Edgar Allan Poe, estrelada por um homem jovem que logo é reconhecido como Jack Nicholson, esse posicionamento nítido (diria um expert em marketing) é o império de Roger Corman sobre todos nós. Os filmes de Roger Corman foram produzidos há muito tempo (embora ainda ele esteja produzindo), ocorreram em uma época em que você não se interessava em saber o custo e quantos efeitos computadorizados foram inseridos em apenas poucos segundos, uma época em que você se assustava de verdade, mas ao mesmo tempo se sentia protegido na tranquilidade do seu lar, no sofá, ou debaixo do cobertor em sua cama. Roger Corman pertence a um tempo sagrado em que fomos mais felizes, em que ainda éramos capazes de nos assustar. Esse é seu verdadeiro alcance. Quando levamos o pensamento até Corman, também vamos a uma área de nossa alma que está intacta.

Existem outras explicações, é claro, que têm a ver com a história, com a rebeldia, com o cinema independente. Corman queria fazer filmes que ele gostasse para pessoas que queriam ter um bom momento. Isso também é o que Hollywood quer. A diferença é que Corman não se deixava levar pelos grandes executivos. Nosso homem lenda fazia as coisas distantes deles. Fazia seus roteiros, conseguia cenários (geralmente a partir de outros filmes e que ele usava sem problemas), gravava em tempo recorde e era um excelente caçador de jovens talentos, entre eles, Jack Nicholson e Martin Scorsese.

O documentário O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood (Corman's World: Exploits of a Hollywood Rebel, 2011), de Alex Stapleton, fala deste cineasta lendário que em sua época chegou a dizer que havia produzido mais de cem filmes sem gastar um centavo. Na realidade, agora são mais de quatrocentos... Sem gastar um centavo. E lá estão para fazer homenagem, aqueles que devem a ele e que deveriam a ele a paixão e a praticidade da arte (Tarantino, Scorsese e Nicholson, entre outros).

Não há dúvidas, é difícil encontrar um homem prático hoje em dia. Um homem que é como é, não tem nenhum protocolo, nem esnobismo, nem ostentação. Roger Corman é este tipo de homem, esse que quis fazer filmes e ganhar dinheiro com isso, sem se enganar com intelectualismo, sem alegar que estava fazendo a sétima arte. Como diria Foucault, eu acho, Corman se preocupava mais em cuidar de si mesmo do que conhecer a si mesmo. Ele já se conhecia, ele queria se cuidar, ser prático, se ocupar estando bem e fazendo o que gosta: criar filmes engraçados, que chegam às profundidades de nosso espírito imortal. A essência do que os outros pretendiam com temas mais inteligentes e falharam. O bom cinema é para poucos.

O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood, terça, 20 de agosto. Cinema B, biografia, arte, rebeldia, entretenimento. O que você vê quando vê o Max?

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Auto Focus, ou as obsessões sexuais de Paul Scharader

por max 12. junho 2013 13:50

 

O sexo é um dos temas principais de Paul Schrader, como roteirista ou como diretor. Bom lembrar que ele ganhou conhecimento mundial graças ao roteiro de Taxi Driver (1976), aquele filme que também lançou Martin Scorsese. Schrader, conta Peter Biskind no livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock´n´Roll Salvou Hollywood (Easy Riders, Raging Bulls – 2004), pertence à segunda geração da chamada "Nova Hollywood", constituída pelos <<primeiros filhos do baby boom, nascidos durante e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, a geração que se formou nas escolas de cinema, nos chamados movie brats, os pirralhos, os "meninos mimados" da indústria cinematográfica>>. Ali, Biskind coloca Scorsese, Spielberg, Lucas, De Palma, Malick e claro, Schrader, que, como muitos destes novos diretores, era tudo um caso. Ele se envolveu com drogas, se embriagou, era dono de um ego enrome e, dizem, escrevia com um revólver calibre 38 ao lado da máquina, e às vezes, colocava sobre a cabeça uma coroa de espinhos de bronze que o fazia sangrar pela testa (seus pais eram calvinistas muito rígidos). Talento, isso sim ele tinha de sobra. Então, não é de se estranhar sua transformação em um dos roteiristas mais cruéis e temidos de Hollywood. Lembramos mais uma vez que, em 1976 saíram Taxi Driver, mas também Trágica Obsessão (Obsession), de Brian de Palma, ambos com roteiro de Schrader, ambos com temática realista e cruel. Em Taxi Driver, a vertente do assunto sexual está na figura da prostituta Iris, interpretada por Jodie Foster, a jovenzinha que é <<salva>> no final por Travis Bickle, aquele pequeno e solitário motorista de táxi interpretado por Robert De Niro. Uma influência marcante de seu passado religioso, faz com que, talvez, a visão de Schrader em relação ao sexo seja escura e punitiva. Em Taxi Driver o sexo está coberto de uma pátina coisificada, que o devolve como mercadoria e o priva de todo o espírito. O sexo reduz o ser humano, está representando com toda sua força e torna-se o símbolo máximo do filme de Scorsese.

Em Hardcore - No Submundo do Sexo (Hardcore – 1979), segundo filme como diretor (o primeiro foi Vivendo na Corda Bamba – Blue Collar), o tema sexo volta a aparecer, mas como tema central, desta vez sob a forma do espírito da pornografia. Um homem de negócios (George C. Scott) mergulha na sordidez do submundo para encontrar a filha menor de idade, que está desaparecida.

Gigolô Americano (American Gigoglo), no ano seguinte, volta a mergulhar nas profundezas do sexo como negócio apresentando Richard Gere como um garoto de programa que atende senhoras maduras. Ele acaba esse envolvendo com a mulher de um policial e também numa investigação criminal pela morte de uma suas clientes.

Mais um ano, e o tema sexual é novamente relevante na refilmagem de Sangue de Pantera (Cat People, 1946). Com o título A Marca da Pantera e forte carga erótica, Schrader mostra uma história de despertar sexual estrelada por Nastassja Kinski. O pior de tudo: a jovem não só desperta para o sexo, mas também se transforma em uma terrível pantera negra. Alguém tem dúvidas? Mais uma vez tem o sexo e a escuridão claramente entrelaçados.

Depois de alguns anos cambaleando em projetos mais ou menos interessantes, Schrader volta com suas obsessões sexuais em Uma Estranha Passagem em Veneza (The Comfort of Strangers – 1990). O filme mistura o erótico comercial (Veneza, casal bonito, mistério e sedução), e o amargo drama psicológico em que o sexo tem um papel profundo e perverso. O Dono da Noite (Light Sleeper), dois anos depois, retoma indiretamente algo dessa tensão sexual através de uma série de assassinatos de mulheres. O mundo da droga, o resgate, a morte, e claro, o sexo estão ali com uma forte intensidade. Em 1999 veio A Sombra de Uma Vingança (Forever Mine), um thriller em que a infidelidade, a vingança e a morte fazem um cocktail esmagador. O sexual sempre aberto, sempre dominando os corpos e as mentes, sempre escuro e distorcido.

Schrader mantém sua visãode todos esses anos, e em 2002 expandiu com Auto Focus, um filme biográfico que foca na vida de Bob Crane, em suas idas e vindas pelo mundo da fama, desde que era um simples DJ até seu papel principal e de sucesso na série dos anos sessenta Hogan´s Heroes. Compartilhando o protagonismo estão Greg Kinnear, como Bob Crane, e Willem Defoe (reincidente com Schrader) no papel de John Henry Carpenter, um gerente regional de vendas da Sony Eletronics. Onde está o escuro tema sexual nisto tudo? Bem, desde que Crane conheceu Carpenter, começou a procurar mulheres em bares. Cada vez que Crane estava em turnê pelos circuitos da comédia, Carpenter o acompanhava e, após as apresentações, eles iam a lugares para conhecer mulheres. Aproveitando a incerta fama de Crane (homem casado que não bebia), seduziam as mulheres e logo as levavam para a cama. A verdadeira diversão de tudo aquilo estava em gravar sessões sexuais com os novos e maravilhosos aparatos que o técnico da Sony facilitava (estamos no início dos aparelhos de vídeos caseiros).

Assim, como se vê, o tema do abismo sexual está muito presente. Crane se transformou em um viciado em sexo que começou a ver como o pouco que restava de sua carreira e de sua vida familiar estava desmoronando no desespero da paranoia e da culpa. A crise profunda, eventualmente resolvida em morte, pois Crane foi golpeado brutalmente – e morto – pelo que parecia ser um tripé de câmera. Carpenter, claro, foi acusado, apesar de nunca ter provado nada. Não é demais dizer que o assassinato de Crane segue sem solução até hoje.

Schrader, que retrata essa vida e essa obsessão sexual neste filme pouco convencional que vai, desde as cores de um sitcom dos anos cinquenta até uma cinematografia mais suja e lavada que obedece a queda no abismo da indulgência sexual e a culpa. Auto Focus é uma peça fundamental na obra de Schrader. Aqui, ainda mais forte que em Taxi Driver, vai revelar questões do sexo, do pecado, da culpa e da natureza da fama. Esses são seus problemas, esses são seus olhares, suas obsessões.

Auto Focus, quinta 13 de junho. Obsessão, sexo, desejo, morte, o melhor do cinema de Hollywood. O que você vê quando vê o Max?

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Sonhos, de Akira Kurosawa, ou o homem contra a natureza

por max 16. março 2012 07:33

 

Este mês, o Max orgulhosamente apresenta Sonhos (Akira Kurosawa´s Dreams, 1990), um dos últimos longas-metragens de um dos grandes mestres do cinema japonês, talvez o mais internacional de todos.

Kurosawa já estava com 80 anos (morreria em 1998, aos 88 anos de idade), quando nos deu de presente esta obra-prima constituída por oito curtas-metragens inspirados em sonhos que teve durante sua vida. Estas oito peças refletem uma preocupação muito própria, particular da sensibilidade artística japonesa. Se nos remetemos, por exemplo, a Hayao Miyasaki, um dos diretores contemporâneos mais importantes do Japão, encontramos temáticas similares: a tecnologia, o abuso da energia e a guerra em contraposição às forças da natureza e, no caso de Kurosawa, também encontraremos a força da arte em união com o mundo.

Nestes curtas-metragens há uma variedade de argumentos, que vão desde a atração pelo mundo através do pensamento mágico próprio do universo do sagrado, até a atração pelo espaço e tempo profanos, onde o medo e o respeito pelos mistérios foram substituídos pela loucura racional do homem, levando à destruição da natureza e do próprio homem. A visão inicial do tempo sagrado se dá através dos olhos das crianças nos curtas "A luz do sol através da chuva" e "A horta de pêssego e a festa da estopa". Ali, a natureza é percebida como um lugar fascinante, muito próximo dos deuses e que se apresenta estranho, terrível e ao mesmo tempo belo. A natureza e o tempo interior da natureza pertencem ao medo primitivo, mas também à convivência, ao respeito, à reverência, ao ritual que nos aproxima, por momentos, dos deuses já perdidos. Assim, da visão infantil, Kurosawa dá um salto ao mundo adulto, mas também para uma maneira de relacionar-se com a natureza que, contudo, não é totalmente profana, que continua com alguma religiosidade. Trata-se do curta "A tempestade de neve". Diante do desafio da montanha, o homem percebe o natural de maneira dupla: é um esportista, um vencedor, um desafiante daquilo que temeu durante séculos. Mas, apesar de seu ego, ainda não se transforma em um destruidor. Há algo místico e religioso no montanhismo, um cara a cara ainda cheio de amor. Tanto é assim que a morte, nesta disputa de altura, espreita mais o homem que a natureza.

A morte também está na guerra, na solidão do soldado em "O túnel". Aqui, a guerra (ausente mas com uma presença inegável) mostra-se como a mais clara imagem da ânsia do homem por controlar e ser o senhor supremo do mundo. A guerra, paradoxalmente, é a máxima expressão da razão que somente na razão se recria. A razão que se livra de todo o pensamento mágico, sagrado, que se livra do medo e até do respeito à natureza. Mas a guerra, o pensamento da guerra, a possibilidade da guerra, mata o homem muito antes que ele esteja morto de verdade. Entre a morte, a vida e a guerra, não parece existir diferença. Neste ponto, Kurosawa sai em defesa da arte, e na metade do longa-metragem coloca "Corvos", onde Van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), tem um significado fundamental. A arte em fusão com a natureza. Van Gogh recebeu um tiro, sim, certamente, seu contato com a arte e os campos não foi suficiente para evitar a morte. Mas também é verdade que somente nessa relação arte-natureza, ele encontrava seu refúgio, o pouco que podia ter. Depois, Kurosawa também oferece algo mais: ainda que o final de Van Gogh tenha sido trágico, sua obra, baseada em sua visão dos campos, das plantas, dos céus e das plantações, inspira a muitos outros; dá paz e beleza a eles. Ali, dentro dessa visão, parecia haver um ponto de equilíbrio entre o homem e a natureza. A arte como uma forma de religião conciliadora.

Nos curtas-metragens seguintes: "O monte Fuji Vermelho" e "O demônio lastimoso", Kurosawa nos mostra as consequências da soberba da razão: destruição da natureza, morte do homem, caos. A razão como máxima destruidora, a razão como loucura. E, finalmente, o último curta-metragem, "O povo dos moinhos de água", que nos apresenta uma imagem poética desta relação entre o homem e a natureza, um estado ideal, um equilíbrio, uma utopia ecológica, uma ecologia onde a saúde espiritual é a ordem. Não é fácil falar destas ideias e não fazer propaganda exagerada. Kurosawa, um mestre por inteiro, consegue, no entanto, tratar destas complexas relações e fazer arte. Um de seus últimos legados é um chamado à humanidade, a seu desespero pelo poder, é uma mensagem de sabedoria e, ao mesmo tempo, uma expressão de arte magnífica. Do temor do tempo primitivo, passando pelo desafio espiritual e os batismos da arte, a ilógica guerra e a contaminação dos tempos profanos, e daqui à sabedoria ecológica final, Sonhos é um passeio pela mente do homem e sua relação com sua morada, com este mundo onde sonha, mas também, onde constrói pesadelos.

Sonhos, nesta sexta-feira, 16 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

Martin Scorsese, ou um cara tímido e inteligente que sabe estourar

por max 25. novembro 2011 11:40

 

"A sua era uma vocação como poucas. Respirava, comia e cagava cinema". Assim Sandy Weintraub chegou a falar de Martin Scorsese, que continua tendo uma vocação como poucos, que segue respirando, comendo e cagando cinema. Costuma-se dizer que Tarantino sabe muito de cinema porque trabalhou em uma videolocadora e tudo o mais, mas quem realmente conhece cinema, quem lembra cada cena, cada tomada de todos os filmes que o fascina é ele, Marty, Martin Scorsese.

Ele era filho de alfaiate e costureira, e sempre andava e continua andando com roupas impecáveis. Viveu a maior parte de sua vida no bairro de Little Italy, em Nova York, e ama Nova York tanto como Woody Allen pode amá-la. Suas origens são humildes, e viu nas ruas de Little Italy, entre outros, aqueles imigrantes italianos, o verdadeiro rosto da violência e da máfia. Costuma-se dizer que ele cresceu entre padres e mafiosos. O jovem Marty tinha visto todas essas coisas e era pequeno, doentinho, sem pescoço, cegueta. Estava nas ruas, mas digamos que não era "feito"/apto para elas. Era testemunha, era um olho observador, mas não protagonista. Foi para um seminário estudar para ser sacerdote. Logo deixou o monástico refúgio e foi buscar outro mais profano e que tivesse mais a ver com seus interesses: começou a estudar cinema na NYU (Universidade de Nova York). Ali, encontrou-se com professores totalmente distanciados das imagens e das ideologias da Hollywood de então. Ali, falavam para ele de contar, fazer cinema com o que conhecia, com a vida da rua. Acreditava-se no realismo, acreditava-se na realidade nua e crua. O jovem Marty havia visto coisas, sabia que o mundo dos italianos não era como o de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo. Ele queria contar estas coisas, ele tinha a paixão, o conhecimento vivencial e o intelectual para contá-las. Era uma mente inquieta que falava a toda velocidade. Hoje em dia, continua sendo isso: um homem vestido com elegância, que fala a toda velocidade, que não deixa de falar de cinema e que sabe fazer cinema. Um cinema violento e real.

Então, naqueles primeiros anos, o jovem Marty esteve ali para fazer parte dessa Nova Hollywood junto com Spielberg, Coppola, Beatty, Altman, Kubrick... Coppola, um pouco anterior a ele, introduziu a fascinação italiana nos estúdios e no público. A fascinação italiana podia ser entendida como as histórias dos ítalo-americanos com armas, mas também a fascinação pelo cineasta ítalo-americano, jovem e com pretensões de ser autor, assim como o europeu, como eram Godard e Truffaut, por exemplo. Nasceu ali o filme que tornou Scorsese conhecido e que, claro, lhe causou problemas nos estúdios, como todos os novos filmes estavam dando problemas nos estúdios: estamos falamos de Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973). Era um filme da rua, muito cinema-verdade, que retratava a vida do bairro italiano de Nova York segundo Scorsese. Pequenos negócios sujos, pequenas vidas, muita falta de humanidade, abjeção. A realidade da violência é crua e aquele jovem diretor mostrou-a como era, um lugar sempre a ponto de explodir. A mente do homem também. Com Scorsese, entende-se que dentro do ser humano habitam obscuridades que dão dentadas. Que o homem é um animal estranho e que a realidade também é um animal estranho e violento. Desde aqueles primeiros tempos, Scorsese estava metido ali: rasgando a superfície serena do mundo, fazendo explodir os perigos, as histórias, os personagens. Filmes como Gangues de Nova York (Gangs of New York), Os Bons Companheiros (Goodfellas), Taxi Driver (Taxi Driver), Touro Indomável (Ranging Bull), Cabo do Medo (Cape Dear), Cassino (Casino) ou a Ilha do Medo (Shutter Island) são claras mostras de sua obsessão pelas obscuridades da mente e por mostrar como o mundo é um lugar perigoso, onde nunca estaremos a salvo. O jovenzinho magro, adoentado, com medo de tudo, surge nestes filmes. Um rapaz contido que explode, que também pode gerar violência. Um dos filmes onde se refletem tais traços desta parte da cinematografia de Scorsese é Depois de Horas (Afters Hours, 1985). Trata-se de uma produção classificada como comédia e que, pra mim, é mais um épico, mas um épico noturno e nova-iorquino. Depois de Horas é uma viagem às profundezas da noite, uma viagem de herói que sofre, de herói que não é herói, de guia de si mesmo. Porque é assim, Paul Hackett (Griffin Dunne), o protagonista de Depois de Horas vai chegando, a cegas, a si mesmo através de uma galeria de lugares e de personagens da noite. Mas aqui, a picaretagem fica atenuada, anula-se digamos na alma anglo-saxônica, e melhor ainda, nosso herói sofre, sofre como sofreria um personagem de Kafka através de situações embaladas por uma noite labiríntica. Paul Hackett vai rasgando a superfície da noite, e embaixo vai descobrindo perigo, loucura e morte. Paul Hackett poderia ser uma vítima, mas também poderia reagir e explodir no meio de todo esse turbilhão obscuro. Um filme irreal? A noite tem uma realidade tão irreal, e inclusive uma irrealidade tão real, que não saberia dizer.

Ninguém como Scorsese tinha conseguido fazer das explosões da mente, da violência e da loucura urbana uma forma de arte. Scorsese é o primeiro. Os diretores de hoje em dia, como Tarantino ou Ritchie, não estariam fazendo o cinema que têm feito se não fosse por Scorsese, que abriu essa porta nos anos 70, e deixou passar todo maquinário de sangue, barulho e fúria de seu cinema. O garoto tímido, o garoto bem vestido e inteligente, obcecado com o cinema, lança-se agora à cultura do cinema mundial como aquele que realmente é: um titã da sétima arte.

Delicie-se nesta segunda-feira, 28 de novembro, continuando com o ciclo Ícones do Cinema, com Martin Scorsese e Depois de Horas. Descubra seu ícone do cinema, descubra Max.

Daniel Day-Lewis, um ícone de cinema que é como um camaleão cool

por max 16. novembro 2011 13:52

 

Daniel Day-Lewis vendeu muito bem a imagem de ator que leva, com calma, a atuação. Ou melhor, como um ator que, quando lhe interessa, quando lhe parece apropriado, quando encontra o papel ideal, quando não tem outra coisa pra fazer, então é quando atua. Daniel Day-Lewis é, definitivamente, um mistério totalmente cool. Como sabemos, Daniel tem mais serragem na cabeça do que qualquer outra coisa. Digo isso, porque a carpintaria é sua paixão. De fato, chegou a pensar, em um momento de sua vida, que se entregaria plenamente ao ofício de carpinteiro, mas a arte da atuação não deixou. Ah, esse mundo de gambiarras chato e insistente.

Mas como foi que Daniel começou a estudar atuação? Digamos que por razões alheias à fama e essas coisas, segundo ele mesmo disse. Seu pai, um poeta comunista conhecido (Cecil Day-Lewis) colocou-o em um colégio público, onde Daniel aproximou-se perigosamente da delinquência. Preocupado, comunista mas com dinheiro de sobra, o pai mandou-o ao sombrio internato inglês de Sevenoacks, o mais antigo e conservador no Reino Unido. Ali, nesse lugar que Daniel chegou a odiar, ele se pôs a estudar atuação como válvula de escape. Não era bom nos estudos, mas sim na carpintaria e na atuação. Mas não foi tudo sem explicação, de forma fortuita. Aconteceu como reação à rigidez do internato. Seu avô Sir Michael Balcon, tinha sido um importante produtor de cinema inglês, e sua mãe tinha sido atriz. O pai poeta não tinha motivos para queixar-se, já que havia escrito um poema para Daniel quando era recém-nascido, no qual admirava seu potencial, sua força. Tais energias previstas desde o nascimento deviam fluir necessariamente em alguma forma de expressão, e a arte da atuação esteve ali para servir como condutora.

O fato é que Daniel, mesmo sem querer, acaba sendo ator e não carpinteiro. Em 1985, trabalhava em dois filmes que o destacariam: Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundry), de Stephen Frears, e Uma Janela para o Amor (A Room with a View), de James Ivory. Em ambos, Day-Lewis demonstra seu talento para a diversidade de interpretação. No primeiro, é um rude personagem homofóbico que, ao mesmo tempo, gosta dos homens, e no outro é um jovem cavalheiro que, dentro de seu temperamento inglês, sofrerá os tomentos de um amor impossível.

Daniel Day-Lewis se aprofunda tanto nos papéis, se apaixona de tal maneira, que deixou inclusive de fazer teatro porque mergulhar muito tempo em um personagem parecia lhe fazer mal. Em 1989, saiu correndo dos palcos e não voltou mais. O que aconteceu? Fazendo Hamlet, sofreu um terrível colapso nervoso, pois na cena em que Hamlet fala com o fantasma de seu pai, Daniel acreditou que estava falando com seu pai morto, o já mencionado poeta Cecil Day-Lewis.

Então, Daniel acaba sendo esse tipo de ator que não atua muito, não porque a atuação não o apaixone, mas pelo contrário, porque a encara com intensidade demais. E, para completar, escolhe cuidadosamente cada papel. Daniel não aceita qualquer coisa, nem passa todo o tempo lendo roteiros. Diz que se lesse todos os roteiros que chegam a ele, ficaria louco. Ele prefere ler literatura, poesia, e cuidar dos seus assuntos de carpintaria. Mas, sem dúvida, Day-Lewis (para não ficar dizendo Daniel o tempo todo) escolhe com muito cuidado seus papéis (e seus diretores), e não tem nenhuma mancha em sua carreira de atuação (com exceção daquela do teatro). Os papéis que seleciona, isso sim, são sempre impecáveis. Em 1989 (o mesmo ano do problema com Hamlet), interpretou Christy Brown, um artista irlandês tetraplégico no filme Meu Pé Esquerdo (My Left Foot), papel com o qual ganharia seu primeiro Oscar de Melhor Ator. E aí começa parte da fama de Day-Lewis. Diz-se –ou sabe-se– que para incorporar o personagem do artista tetraplégico, ele passou meses estudando os pacientes de um centro médico para pessoas com deficiências físicas em Dublin. Além disso, aprendeu a pintar com um pincel colocado entre os dedos do seu pé, e durante a filmagem, não se levantava da cadeira de rodas; os membros da equipe levantavam-no e davam de comer na boca. Querem mais? Para fazer Hawkeye em O Último dos Moicanos (The Last of the Mohicans, 1992), aprendeu a pescar com lança, a tirar a pele dos animais e a construir uma canoa. Para rodar Em Nome do Pai (In The Name of the Father, 1993), perdeu 15 quilos, comendo somente comida de prisão. Para As Bruxas de Salem (The Crucible, 1996), foi viver em um bosque e construiu, com suas mãos, a cabana que seria usada como sua casa nas filmagens. Em O Lutador (The Boxer, também de 1996), aprendeu a lutar boxe e terminou com o nariz quebrado e uma hérnia de disco. Para Gangues de Nova York (Gangs of New York, 2002), aprendeu a ser açougueiro e arremessar canivetes com maestria.

Sim, Daniel Day-Lewis é um ator que não é desesperado pela atuação, que dá para si mesmo longos períodos entre um filme e outro, mas também é muito seletivo e muito exigente em seus papéis. Digamos que, com respeito aos atores do Actors Studio, Daniel tenha ido muito, mas muito além da preparação de seus personagens. É um tipo excêntrico, mas sério, que tudo que faz, faz bem, e que despreza o supérfluo (ele nunca é visto nas farras; e até nem vive em Los Angeles, mas sim na Irlanda). Daniel Day-Lewis passou para a história da cultura cinematográfica e ele, simplesmente, anda vivendo sua vida, aprendendo a ser sapateiro aqui, separando um pouco de serragem ali, lendo, às vezes algum roteiro, prestando atenção sobretudo em quem dirigirá o filme, levando as coisas tranquilamente. Pode parecer que algo de obscuro está por trás disso tudo, imaginamos uma alma atormentada e plenamente sensível. Mas, no caso de Daniel, isto não é problema. Ele não caiu nos abismos de Brando ou de Dean. Daniel é, simples e claramente, um atormentado cool que leva seus tormentos com calma, e mais nada. Eu também quero ser assim. Quem não quer?

Nesta quarta-feira, 16 de novembro, assista ao camaleão cool Daniel Day-Lewis em um papel de época e sob a batuta do grande Martin Scorsese em A Época da Inocência (The Age of Innocence), no Max.    

Chelsea On The Rocks, o hotel dos furacões da alma

por max 24. setembro 2011 04:36

    

Abel Ferrara nasceu no Bronx, é um nova-iorquino com todos da lei. De nascimento, herança de sangue, correndo em suas veias italiana e irlandesa (é possível ser mais Yorker?).

Roteirista, diretor, ator, produtor, Ferrara é um dos diretores-chave na história do cinema americano na década de oitenta e noventa, herdeiro, por assim dizer, do chamado novo cinema americano dos anos setenta, cheio de realismo e violência. Ferrara é a violência dramática ao extremo, filho de Scorsese, de alguma forma. Os dois unem o tema da violência com os temas da cidade de Nova York. Ferrara ficou conhecido no final dos anos setenta (em 1979) com o filme The Driller Killer. Sua personagem era um pintor louco pelo peso da realidade, que saia à noite para encher as mãos de sangue nas ruas de Nova York. Note que este, seu primeiro filme, foi dirigido pelo mesmo Ferrara. Em seguida, vêm Ms. 45 (1981) e Fear City (1986), dois filmes onde a violência da cidade gira em torno das mulheres. No primeiro, uma jovem muda é estuprada duas vezes no mesmo dia e decide tomar a lei nas suas mãos. No segundo, um psicopata anda solto matando nudistas. A rua, à noite, a violência, a loucura, Nova York. Ferrara entra no submundo, nos esgotos, nos becos escuros, olhando para as pessoas: o cafetão, a prostituta, a viciada em drogas, a polícia decadente. A rua é um lugar difícil, e Ferrara sabe retratar isso. Nos anos noventa, atingiu pontos altos em King of New York (1990) e Bad Lieutenant (1992). No primeiro com Christopher Walken, no segundo com Harvey Keitel. Ambos são considerados seus melhores filmes, especialmente Bad Lieutenant.

Em 1996, Ferrera se reúne com Walken em um de seus filmes mais representativos, The Funeral. Então, em 1998, faz um dos filmes de ficção mais estranhos: New Rose Hotel, um filme baseado em uma história do autor de ficção científica William Gibson, também estrelado por Walken, e Willem Dafoe. Em 2008, Ferrara empreende no gênero documentário. Seu primeiro trabalho é um grande sucesso. Com Chelsea on the Rocks, o cineasta volta a Nova York, seu eterno Nova York. Volta da mesma maneira, aos começos da exploração da personalidade artística. Que melhor lugar para falar de Nova York, que aquele onde passaram pela cidade, grandes artistas, glórias e sombras que o Chelsea Hotel? Este lendário hotel, localizado na 222 West 23rd Street, entre Seventh e Eighth Avenue. O hotel tinha quartos de longa duração, onde as pessoas podiam morar com seus livros, panelas, máquinas de escrever e instrumentos musicais. Nos quartos de curta e longa, estiveram uma série de artistas que passaram à história: Leonard Cohen, Dylan Thomas, Bob Dylan, Janis Joplin, Arthur C. Clark, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Andy Warhol, entre outros, foram os inquilinos de Chelsea. Lá amaram, discutiram, beberam, usaram drogas, criaram arte e houve assassinatos. O Hotel Chelsea era uma espécie de vórtice, de furacão de arte, um lugar que para alguns pode ser escuro, para outros brilhante, depende dos olhos de quem vê. Ferrara, em Chelsea on the Rocks utiliza uma grande quantidade de material de arquivo, o que naturalmente é abundante, sendo um lugar tão famoso, mas também explora os trabalhadores e ex-trabalhadores do hotel, os atuais moradores, os peritos, olhando anedotas famosas e íntimas daqueles que trabalharam lá, pessoas sem muita fama, mas com algo interessante a dizer. Entre os entrevistados estão Dennis Hopper, Milos Forman, Robert Crumb, Ethan Hawke, e Grace Jones.

Um filme, sem dúvida, perfeito para Abel Ferrara, o artista das profundezas da alma e as obscuridades e as luzes de uma Nova York que se transforma e não sabemos quantas mutações mais terá. Na verdade, o filme serve para lembrar que hoje o hotel fechou suas portas, e seu futuro é totalmente incerto.

Chelsea on the Rocks, este domingo, 25 de setembro, na Max.

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Ciclo de Wes Anderson, ou o brilhante início de um diretor

por max 21. agosto 2011 17:04

 

Wes Anderson é um diretor brilhante, tem 42 anos, e três de seus filmes mais conhecidos são Os Excêntricos Tenenbaums (2001), A Vida Marinha com Steve Zissou (2004) e The Darjeeling Limited (2007). No entanto, a sua reputação como um autor, como cara talentoso, como alguns disseram, como gênio, vem de 1996, quando tinha apenas 27 anos. Naquele ano, o mundo viu o seu primeiro longa-metragem. Estamos falando de Pura Adrenalina (Bottle Rocket), uma comédia que conta a história de dois irmãos, interpretados por Owen e Luke Wilson, (um deles escapou de um centro psiquiátrico), que escolhem, a pesar de não terem a aptidão para isso, apesar de serem profundamente inocentes, a vida do crime. Assim, são formados em pequenos furtos, todos risíveis, até que chega a hora de dar o grande passo: assaltar uma livraria. Um filme com narrativa errática, sem uma linha argumental nem uma história forte (que caracteriza o resto dos filmes de Anderson), mas marcado por uma relação muito especial entre esses irmãos (as famílias disfuncionais, será outro tema futuro do cineasta). Não falta, porém, um ponto de tensão, fornecido pela figura de James Caan, um terrível criminal que vai lhes dar problemas. E esta é outra característica dos filmes de Anderson: que brinca com os gêneros, chegando á paródia. Em Pura Adrenalina o mais marcante são os personagens (e as interpretações dos Wilson), os irmãos danificados, quebrados. Anderson, no entanto, não zomba deles sem piedade. Seu olhar é o de alguém que tenta compreender as suas próprias criaturas com a devida compaixão.

Martin Scorsese (já disseram que Anderson é o novo Scorsese, ou o Scorsese do século XXI, ou algo assim) colocou Pura Adrenalina no número sete de seus 10 filmes favoritos dos anos noventa, e disse a respeito do filme: "Eu amo os personagens deste filme, são realmente inocentes, mas do que eles mesmos acreditam." Curiosamente, como diz o crítico Roger Ebert, Pura Adrenalina é um filme de amigos, de amigos conversando, de amigos que vão e que vêm, de amigos que são como irmãos. E de amigos por trás da câmera, porque Pura Adrenalina é o produto da amizade de Owen Wilson e Wes Anderson. O filme é escrito por ambos, e originalmente foi um curta-metragem feito em 1994 (se você quiser ficar como uma pessoa culta, pode dizer: "Eu vi Bottle Rocket em 1994"). Com este curta debaixo do braço, Wilson e Anderson foram para o Sundance Film Festival buscar financiamento para fazer o longa-metragem, e conseguiram de James L. Brooks e Columbia Pictures. Wilson, pode-se dizer, não é apenas um amigo de Anderson, mas também um de seus atores fetiches e colaboradores.

Então, chegou 1998, e os dois amigos vêem na tela grande outro filme: Três É Demais (Rushmore). Wilson desta vez apenas aparece no roteiro. Anderson, obviamente, como diretor. Como vem acontecendo há anos no cinema americano, ou em qualquer cinema (graças ao francês), o diretor vai levar todo o crédito. Wilson foi e é um ator que escreve roteiros, nada mais. Mas Anderson, Anderson tornou-se em o autor, o gênio com um grande futuro. As pessoas começaram a vê-lo como um visionário, seus fãs o transformaram em um fetiche. O jovem Wes tinha acabado de entregar outro filme independente cheio de características especiais, e de elementos, digamos, inteligentes.

O filme é um grande jogo de estratégia entre dois homens aparentemente muito diferentes, mas com alguns elementos em comum: eles são muito inteligentes (cada um no seu estilo) e amam a mesma mulher. Aqui temos os performances de Jason Schwartzmanm como Max Fischer, um jovem estudante dono de uma inteligência política excepcional, e de Bill Murray, como o magnata Blume, um homem mais velho, cruel e com o mesmo tipo de inteligência de Max Fischer. Ambos são espelhos e disputam o amor da atraente professora Cross (Olivia Williams) num jogo de estratégias, acima mencionado, carregado de um humor muito fino. Aqui temos um triângulo amoroso muito raro (pelo menos no cinema), uma família disfuncional (de alguma forma Blume e Fischer têm uma relação tácita pai-filho), o humor inteligente e cheio de referências, e um certo sabor técnico e fotográfico. Três É Demais é um filme simples, mas com uma estética e uma forma de abordar as questões que fez e faz com que o filme seja percebido como algo novo, diferente, honesto.

Assim, os dois primeiros filmes de Anderson tinham o que as pessoas chamam de o toque de Wes Anderson. Um grande desafio, sem dúvida, para um começo excelente. Ao longo dos anos, o jovem diretor (já não tão jovem) continuou a demonstrar o seu talento, sua capacidade de imaginar, para dar uma virada nas suas obsessões, e engenho criativo. Ele tem seus fãs, e tem seus detratores quando se destaca dessa forma isso não pode ser evitado.

Em agosto, Max convida a assistir estes dois primeiros trabalhos de Wes Anderson. Pura Adrenalina e Três É Demais na segunda-feira, 22 de agosto. Dois filmes muito especiais de um diretor que tem a sua assinatura própria.

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