Trabalhar Cansa, ou o terror como crítica social

por max 10. agosto 2012 13:09

 

No mês passado, vimos no Max Las Viudas de los Jueves (2009), de Marcelo Piñeyro, filme onde a morte de três homens dá origem a uma história contada em flashbacks e que vira uma espécie de thriller que, por sua vez, acaba sendo um retrato da crise econômica argentina. Em Somos o que Somos (Somos lo que hay, 2010), do mexicano Jorge Miguel Grau, vimos como o terror e o tema do canibalismo foram usados em função da crítica social. Em agosto, o Max traz outro filme que também se aprofunda em diferentes gêneros, para falar da crise trabalhista do Brasil. Neste caso, o gênero é o terror, com certo toque de comédia, e o filme é Trabalhar Cansa (2011), de Marco Dutra e Juliana Rojas.

A vida, que não traz manual de instruções, surpreende um casal que está passando por duas situações distintas. Por um lado, Helena (Helena Albergaria) tem a oportunidade de montar seu tão sonhado minimercado e, por outro, Otávio (Marat Descartes) perde seu trabalho de 10 anos como executivo em uma agência de seguros. Otávio mergulhará em uma profunda depressão de descuidos e tropeços. Ela, por sua vez, transformada de uma hora para outra em sustento da família, começa a fazer os ajustes e as contratações para levar adiante o negócio. É quando aparece Paula (Naloana Lima), uma empregada doméstica que também será a babá de sua filha Vanessa (Marina Flores). O filme insistirá, durante os primeiros momentos, em marcar as dinâmicas e as diferenças sociais. Este acentuado elemento social não será perdido com a entrada do terror, pelo contrário, tentará fundir-se com o gênero. Algo estranho começa a acontecer quando Helena já está estabelecida no minimercado. Um horrível cachorro, muito "a la Goethe", começará a rondar o negócio, um líquido nojento vazará pelo chão, enormes manchas de umidade aparecerão nas paredes. Helena ficará paranoica e suspeitará de seus empregados, mas investigará o que tem de obscuro nos fundos da loja. Otávio, desempregado e castrado, se tornará cada vez mais soturno.

Trabalhar Cansa é um filme de atmosferas frias e estáticas que se mantêm vibrando internamente como se ameaçassem explodir a qualquer momento sobre os alicerces de um estado de vida social e econômica que, tal como mostram os diretores por meio do gênero do terror, parece ocultar as mais terríveis obscuridades, herdadas da escravidão e do lado mais animal da alma humana.

Trabalhar Cansa, segunda-feira, 13 de agosto. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Las Viudas de los Jueves, ou o isolamento seguro e a imortalidade falsa

por max 29. junho 2012 14:42

 

O tema do isolamento na sociedade tem uma origem. O isolamento, como narra o escritor uruguaio Horácio Quiroga em seu conto "A Realidade" é, no início da história do homem, uma busca por refúgio. O isolamento na caverna foi uma necessidade de segurança. Evidentemente, o isolamento como forma de segurança parece absolutamente compreensível. Mas este mesmo isolamento é entendido de outras maneiras, por exemplo, na obra de Platão, que vê a compreensão da realidade pelo homem como um jogo de sombras. O grupo de homens que Platão imagina, aprisionados em uma caverna, veem somente as sombras do real. As sombras que se projetam na parede da caverna. Aqui, a imagem do isolamento se distorce, torna-se obscura. O isolamento, a segurança da caverna, vira um equívoco. Em "O Anjo Exterminador", de Buñuel, o "confinamento" inexplicável dos burgueses na sala de uma casa abre portas para o cineasta mostrar toda a fúria animal que se esconde por trás dos códigos sociais. Naquela ruptura dos costumes sociais, percebe-se a crítica à cegueira burguesa, à cegueira produzida pela própria reclusão em busca de segurança. A segurança, a sombra da segurança, produz cegos sociais. Isso é o que Buñuel parecia dizer. Em "Malpertuis", livro de Jean Ray, e também na versão cinematográfica de Harry Kümel (1971), a ideia do aprisionamento como elemento de distorção também está muito presente. O isolamento é uma forma de esquecimento eterno, a segurança é uma espécie de falsa imortalidade e também de endeusamento. Em "Malpertuis", os confinados na mansão são deuses gregos, deuses em decadência. Jung dizia que aqueles que foram deuses se transformaram em doenças. O autor colombiano Álvaro Mutis, em "La mansión de Araucaíma", também mostra o aprisionamento como uma fonte infinita do mal; um romance gótico nos trópicos, um romance sobre o mal, que fez Mutis ganhar uma aposta de Buñuel, acertada em uma noite regada a martinis. Essa era fácil ganhar: o mal, gótico ou não, o mal dos cegos está em todos os claustros, em toda segurança com forma de imortalidade, até mesmo nas terras quentes de nossa América (Buñuel dizia que um romance gótico seria impossível por nossos lados).

No cinema latino-americano, existem algumas referências neste aspecto. O filme mexicano Zona do Crime (La Zona, 2007), dirigido por Rodrigo Plá, gira em torno da vida em uma área residencial de classe alta, super protegida onde, um dia, aparecem alguns ladrõezinhos "inocentes" e, por azar, morrem várias pessoas. Aquela região residencial é o lugar dos deuses falsos, daqueles que pensam estar acima do bem e do mal, e que acreditam que podem agir por conta própria, fazer justiça com as próprias mãos.

Outro filme latino-americano que também trata do tema do confinamento seguro como gerador de poderes falsos é Las Viudas de los Jueves, do cineasta argentino Marcelo Piñeyro. Piñeyro é um diretor prestigiado, que ganhou vários prêmios Goya por seus filmes O que Você Faria? (El Método) e Plata Quemada, este último baseado em um dos romances fundamentais do autor Ricardo Piglia. Las Viudas de los Jueves, seu mais recente filme (produção de 2009, Piñeyro é um diretor que se dá seu tempo), centra-se também em um condomínio fechado de luxo, onde moram famílias ricas. Um dia, em "Altos de la Cascada", aparecem três cadáveres flutuando em uma piscina. Para evitar intrusos ou incômodas intromissões, os moradores logo rotulam as mortes como acidentes. Porém, o horror destas três mortes inicia um proceso que irá desnudando todas as verdades, em um filme carregado de boas doses de suspense. Os atores Pablo Echarri, Ana Celentano, Leonardo Sbaraglia, Ernesto Alterio, Gloria Carrá e Juan Diego Botto, entre outros, interpretam os personagens desta obra em conjunto, que serve ao diretor para mostrar um reduto social que, em muitos casos e apesar do tamanho pequeno, pode até controlar ou ditar grandes pautas de comportamento em um país. A partir do isolamento, da cegueira, da falsa eternidade, eles querem o Olimpo e, do Olimpo, lançam seus tentáculos para o mundo.

Las Viudas de los Jueves, neste sábado, 30 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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