Crianças de Kinshasa, ou as crianças bruxas e a música como salvação

por max 1. fevereiro 2014 01:49

 

No Congo, a bruxaria está profundamente enraizada no pensamento das pessoas. De fato, qualquer pensamento radical religioso pode aprontar. Nas últimas décadas, as igrejas evangélicas radicais, que são uma mistura da superstição nativa e das crenças cristãs, têm ocupado cada vez mais espaço, e também as mentes dos mais pobres. Lá, no magma desse caldo letal, tem sido produzido o horror das crianças "shegué", ou crianças bruxas. Hoje, milhares de crianças africanas são submetidas a torturas inimagináveis, e também assassinadas. São afogadas, esfaqueadas, passam fome, envenenadas e até enterradas vivas. As mais sortudas são abandonadas nas ruas da cidade por seus pais. Você se pregunta: por quê? Por que isso ocorre? Porque os líderes fanáticos destas igrejas radicais parecem ter encontrado uma nova forma de subjugar as massas, semeando nas pessoas o medo sobrenatural e controlando as pessoas com tal poder hipnótico, o que também faz com que os pais sacrifiquem, sem pensar, os filhos que haviam sido acusados de bruxarias.Que bruxaria? A que simplesmente vier à mente. Se alguém morre na casa, é que a criança foi possuída por poderes obscuros e se transformado em bruxa. Se alguém está com uma doença grave (como AIDS, por exemplo) é que a criança é bruxa. Se o pai perder o trabalho, a criança é bruxa; se alguém cair e quebrar uma perna, criança bruxa... A criança, no entanto, em primeiro lugar é inocente. A criança, como já foi dito, foi possuída por poderes malignos. Portanto, deve ser exorcizada, o que é feito pelo profeta, o líder da seita religiosa, em troca de um pagamento monetário que, para os pobres pais, é caro (em alguns casos, o salário de um ano do pai de família não paga, pois é de 100 a 200 dólares). Como a criança não é uma criança, e sim um suposto demônio, então os pais se sentem na liberdade – definida pelos líderes de sua igreja – de jogar ácido no rosto, de fazê-las beber veneno ou de fazê-las passar fome por dias inteiros. Supõe se assim que eles espantariam o demônio e poderia continuar sua vida em paz. Mas, geralmente, o exorcismo não funciona, e a criança é abandonada por seus pais e proibida de voltar para sua casa. Mas acontece que, simplesmente, a criança está doente e chora por noites, e isto é suficiente para ser acusada de possuída e bruxa. Organizações não governamentais indicaram que mais de quinze mil crianças foram identificadas como shegués e mais de mil foram assassinadas por causa disso; muitos deles, como já dito, acabam na rua. Este é o rosto da ignorância, o rosto do desespero daqueles que não sabem como se livrar da terrível pobreza em que se encontram por culpa de seus governantes. Não é de se estranhar que tais práticas coincidem com o colapso da crise econômica. Para muitos pais, se desfazer dos filhos é um alívio. E apesar de que, desde o ano 2000, o governo angolano segue firme uma campanha para acabar com a crença dos bruxos infantis, mas os resultados têm sido pequenos. O poder hipnótico dos líderes religiosos é muito forte e, também, tais crenças estão enraizadas no passado banto das pessoas. Somado a isto, o alívio que representa ter uma boca a menos para alimentar, pois o futuro se apresenta com tonalidades muito escuras.

Crianças de Kinshasa (Kinshasa Kids, 2012), do cineasta belga Marc-Henri Wajnberg, abre caminho através da ficção para nos mostrar esta terrível realidade, mas também para tirarmos dela alguma esperança, assim imagino. Com estilo documentário (de fato, originalmente parecia que seria realizado neste formato), Wajnberg nos faz sentir a história muito de perto, nos faz comer o pó e a viver a loucura e o horror das crianças bruxas. Neste caso, num grupo dos que foram abandonados. A rua se abre diante dos párias como um lugar cheio de perigos, onde muitos formam bandas e muitos caem no crime; é a única saída. No entanto, a história destas crianças será outra. Cabe dizer que os atores de Wajnberg não são profissionais e pertencem às comunidades onde se passa a história. Todos, menos um, Rachel Mwanza, a protagonista de A Feiticeira da Guerra (Rebelle), que ganhou o Urso de Ouro em Berlim como Melhor Atriz em 2012. Eles, este grupo de crianças bruxas, de crianças tão reais porque são reais, encontraram a música. Como em Nietzsche, como em Emil Cioran, a música os salvará, será um elemento espiritual poderoso que os elevará acima de tudo e lhes dará uma esperança, um futuro.

Crianças de Kinshasa, domingo, 2 de fevereiro, no Max.

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