O Abrigo, ou o fim dos refúgios

por max 18. janeiro 2013 13:07

 

Lembra Dorothy, a pequena Dorothy de O Mágico de Oz? Ela vivia no Kansas, em uma área tracejada por tornados. A pequena órfã tinha um mascote, que se chamava Totó, e um casal de tios sitiantes que não estavam em uma situação muito boa. O mundo de Dorothy era cinza, desolador. «Quando Dorothy saía pela porta e olhava ao redor não via outra coisa a não ser a imensa pradaria cinza. Não havia uma só árvore ou casa que alterasse a ampla chapada que se estendia até o horizonte, em qualquer direção. O sol havia calcinado a terra arada, que era agora uma massa cinza cercada por pequenas fendas.» O livro de Lyman Frank Baum foi publicado em 1900. Eram tempos complicados nos Estados Unidos. Os fazendeiros estavam em crise, tinham grandes dívidas e nas fábricas reinava um capitalismo desmedido, que submetia as pessoas a muitas horas de trabalho. Bom lembrar que, em 1894, o general Jabob S. Coxey e um grupo de desempregados realizaram uma passeata para exigir a impressão de 500 milhões de dólares em notas verdes com a finalidade de gerar postos de trabalho para o povo.

Essa paisagem apresentada nas páginas do livro tem sua razão de ser. A tormenta também. Mas, além de ser certeza que na região do Meio Oeste norte-americano, os tornados estão na ordem do dia, este fenômeno que arrasta tudo naquela região onde vive Dorothy e que também a leva ao País de Oz, é também uma metáfora do cenário caótico do início do século XX nos Estados Unidos. Naquela época, o Meio Oeste se configurava como a região mais industrializada do país. Hoje em dia, assim é. O Meio Oeste é constituído por estados como Illinois, Indiana, Iowa, Ohio, Dakota do Sul (onde viveu Lyam Frank Baum, durante um tempo), Kansas e Nebraska, entre outros. Não é de se estranhar que este livro infantil tenha conotações profundamente políticas. Tampouco é impensável entrelaçar O Mágico de Oz e O Abrigo (Take Shelter, 2011), o segundo filme de Jeff Nichols, um tipo de história contemporânea de Oz, na qual um refúgio anti-tormentas se transforma na imagem central deste thriller que se pode chamar de independente e de autor.

De volta ao livro de Lyam Fran Baum por um momento. Na casa dos tios de Dorothy «não havia nem sótão nem porão, somente um poço cavado no solo, chamado "o sótão dos ciclones", no qual a família poderia se refugiar, caso algum desses potentes redemoinhos chegasse», No filme de Nichols, o refúgio anti-ciclone é a obsessão central de Curtis (Michael Shannon), um trabalhador de Ohio com uma filha surda-muda e com uma situação econômica estável, mas não ótima. Certo dia, Curtis começa a ter visões e sonhos apocalípticos. Pressente que o mundo vai chegar ao fim, e começa a trabalhar num refúgio, tomando emprestado de onde não deve e dedicando à tarefa mais tempo do que o necessário. Curtis acaba perdendo seu trabalho e sua estabilidade mental, sanidade que, além disso, é defeituosa por herança. Assim, com um estilo de direção muito autoral, com muito do cinema sem pressões hollywoodianas. Nichols vai construindo, com silêncios, tensões e delicadeza, uma história carregada de eletricidade, de dentes cerrados mas ao mesmo tempo profundamente dramática.

A aparição prematura do estigma da doença mental oposta à visão premonitória é perfeita para que a estrutura narrativa se mantenha na dúvida e no suspense próprio do gênero fantástico, essa área onde as palavras e as imagens atravessam uma parede imprecisa e nebulosa. Este suspense também segue perfeitamente apoiado pela soberba atuação de Michael Shannon, vibrante em seu semblante arrasado, calado em sua difícil leitura, sempre deixando uma sensação de bomba humana. E assim não se consegue saber se as visões de Curtis são reais e nem se a doença mental é a causa disso tudo. Essa ambiguidade mantém em dúvida: Curtis, em algum momento, machucará sua própria família? Ele será possuído completamente pela loucura alucinatória? O refúgio, assim como se entende, é talvez sua fuga do mundo. O problema é que, nessa fuga, o personagem também quer arrastar junto toda a família. Ali, nesse buraco, Curtis poderá se isolar do mundo, mas não de si mesmo, não dos entes queridos.

A doença, como o tornado, é também uma metáfora: os seres humanos estão doentes, estão condenados, tendo se machucado demasiadamente, uns aos outros. O país onde Nichols vive, Estados Unidos, está em crise financeira, humana. Mas não somente o país, o mundo inteiro está em crise. Nada do que se tem tentado funcionou, o ser humano está condenado ao sucesso de poucos, ao fracasso de muitos. Não existe remédio, não dá para voltar atrás, o fim do mundo é iminente. O país de Oz em O Refúgio não existe e, aqui e ali, restam o momento do refúgio durante o tornado e suas semelhanças com o livro de Lyam Frank Baum.

Não há refúgio para onde ir, não há outro país para onde correr e se esconder até que as coisas melhorem. Porque não se trata do mal que existe lá fora, mas sim do mal que cada um carrega dentro de si. A catástrofe final é a catástrofe espiritual do homem. Sua alma é seu apocalipse particular.

O Abrigo, neste domingo, 20 de janeiro. Tornados, visões, loucura, cinema de primeira. O que você vê, quando vê o Max?

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