Retornos, ou mais do thriller provinciano

por max 7. junho 2012 03:33

 

Retornos (2010), de Luis Avilés Baquero, me leva a pensar em David Lynch. No Lynch que se aprofunda na vida de um tranquilo povoado e que, ali, descobre a fonte do mal. Lynch em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), Lynch em Twin Peaks (1990-1991), Lynch em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me, 1992). O cineasta americano, que nasceu em uma pequena cidade do estado de Montana, cutucou tanto que encontrou uma orelha, um morto, um prostíbulo, satanismo, uma garota morta que tinha a ver com o bordel e, sobretudo, bocas que se calam entre as árvores, com os lábios bem apertados, porque guardam terríveis segredos. Lynch é um dos grandes mestres do noir do interior. Luis Avilés Baquero, da Colômbia à Galícia espanhola, trilhou esses caminhos verdes e nos apresentou Retornos, um thriller intimista (no fundo, não há nada mais íntimo que um crime) que acontece nas terras provincianas da Galícia (o filme foi rodado em Noia e em outras localidades da Corunha), um mundo fechado, pequeno, onde o passado nunca se apaga, onde a marca é imediata e onde, além disso, as pessoas preferem se calar, esconder os horrores do presente, talvez até para evitar as mesmas marcas que Caim ganhou de Abel, e ficar tranquilas, enquanto tudo, por dentro, desmorona. Não erra quem faz o mal, erra quem faz pública a sua maldade, ou seu erro com reflexos de maldade. Condena-se quem expia seus pecados, não quem comete o pecado. Isso, Álvaro (Xavier Estévez) descobrirá quando voltar a sua terra natal depois de 10 anos e descobrir que seus erros continuam vivos na mente dos outros e que, no entanto, junto com os mais breves silêncios se escondem obscuridades inconfessáveis. A volta ao inferno não será outra senão a volta à intimidade, à família, esse lugar que dá origem a todos os infernos possíveis e onde se escondem os segredos mais penosos. Pelo caminho dos romances do escritor norte-americano Ross McDonald — especialista em pecados familiares escondidos— e com este ingrediente muito lynchniano, Avilés Baquero busca a instauração da verdade por trás da violência silenciosa da prostituição imigrante, a visão tacanha, estreita, o drama familiar adúltero, o vício e a morte. Não são poucos os elementos que fazem o jogo de sombras, de espelhos e reflexos no filme de Avilés Baquero. Contudo, neste seu filme de estreia, o diretor administra com cuidado, com bom senso e respeito como fazem os grandes mestres, o que resulta em pontos a seu favor. E também, a inesquecível chuva. A chuva sempre lavando aquele que já não pode ser lavado, forjando uma redenção talvez impossível.

Retornos, neste sábado, 9 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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