Um Sonho de Amor, O poder andrógino de Tilda Swinton

por max 4. maio 2012 11:08

 

Se Tilda Swinton é parecida com alguém é com David Bowie. Tilda é a versão feminina de Bowie, Bowie é Tilda homem. Tilda e Bowie, rostos andróginos. Ambos jogam com sua contextura, com seu rosto. Ambos jogam com o poder da ambivalência.

Lembremos um pouco a imagem do andrógino. Seu conceito no Dicionário de Símbolos, de Chevalier e Gheerbrand, é o seguinte: "Fórmula arcaica da coexistência de todos os atributos, compreendidos os atributos sexuais, na unidade divina, assim como o homem perfeito, se é que tenha existido nas origens, ou se existirá no futuro." Mais adiante, lemos: "O andrógino é o símbolo da indiferença original e da ambivalência. Símbolo dos mais antigos, segundo o qual, o homem das origens continha os dois sexos." E mais: "De uma maneira muito geral, o Ser primordial se manifesta como andrógino antes de sua polarização ou, o que vem a ser o mesmo, como aconteceu anteriormente a sua separação em duas metades, macho e fêmea, Céu e Terra, yang e yin." Platão dizia que os homens, no princípio dos tempos, tinham os dois sexos. Eram homem e mulher em um. De tudo isto também vem a ideia amorosa da "meia laranja", dessa metade da alma que as pessoas buscam para se sentirem completas. O amor vem assim como a busca e o encontro dessa outra metade. O amor como um modo de realização, de evolução.

Tilda Swinton, segundo esse conceito, é uma candidata perfeita para a personificação do andrógino. Parece saída do futuro, parece um yin e um yang. Ela sabe disso e tem se aproveitado dessa característica em suas atuações. Lembremos dela em Orlando (1993), de Sally Potter, que mostra a vida, no decorrer dos séculos, de uma personagem que começa homem e logo se transforma em mulher. Em Female Perversions (1996), de Susan Streitfeld, vive uma advogada com uma poderosa carga sexual que experimenta tanto com homens como com mulheres.

Em Constantine (2005), faz uma breve mas magnífica interpretação do enlouquecido e poderoso Arcanjo Gabriel. E nada mais andrógino que um anjo, não é? Por acaso, não são seres perfeitos, seres originais? E nos filmes da série Nárnia, Tilda é a Bruxa Branca, também um ser andrógino, frio, mas que detém uma grande força. Em Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007), que lhe deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante, tem outro papel visivelmente andrógino: o de uma advogada ambiciosa, de caráter forte, que tem escalado esse mundo de homens. O andrógino, sem dúvida, se relaciona com o viril. O andrógino é avassalador quando se trata do sexual, avassalador com seu poder e inclusive com sua ambiguidade. A ambiguidade bem usada pode ser um poder.

Esse poder, essa força oculta do andrógino em Tilda Swinton é destaque em Um Sonho de Amor (Io Sono l´amore, 2009), de Luca Guadagnino (The Protagonists), no Max Ela vive uma mulher sofisticada em uma família em decadência. A história se passa em Milão, na casa de um patriarca que vai deixando para trás seus tempos de poder para ceder seu lugar aos mais jovens. Essa retirada instaura a crise e, dentro dessa crise aristocrática, Emma (Tilda Swinton) deixará escapar todas as forças aprisionada. Enquanto a endinheirada família Recchi vai morrendo, Emma, casada, entediada, frustrada, carente de amor, começa a despertar em uma explosão sexual e poderosa, cheia de luz e obscuridade ao mesmo tempo. Entre silêncios, dramas ocultos, tomadas de cena magníficas e elegância, a atuação de Tilda Swinton destaca-se. Seu despertar, não resta dúvida, resulta, aos olhos do espectador, como um cataclisma andrógino.

Um Sonho de Amor, domingo, 6 de maio, reprise terça, dia 8. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem