A Morte do Demônio, ou a bem sucedida vida de Sam Raimi

por max 3. novembro 2011 11:58

 

As gerações mais jovens lembram de Sam Raimi como o diretor de filmes do Homem-Aranha. E, sim, Raimi é um fã do personagem dos quadrinhos e conseguiu que lhe dessem o projeto e a direção dos filmes porque demonstrou que era um grande conhecedor do herói. Mas a história de Raimi vai muito além disso e sua imagem como diretor cult começou a formar-se em 1981, quando lançou um filme que hoje em dia é um clássico do terror, do gore (cheio de sangue e violência). Estamos falando de A Morte do Demônio (The Evil Dead).

Mas ele não ficou por aí. A partir deste filme, Raimi não parou de fazer cinema. Em 1987, dirigiu Evil Dead – Uma Noite Alucinante 2 (The Evil Dead II) e logo depois Darkman – Vingança sem Rosto (Darkman), em 1990, um fascinante filme de ação e suspense, protagonizado por um herói obscuro que mostra todo seu poder em ataques de ira, cuja motivação principal é a vingança. Estrelado por Liam Neeson, Darkman é um desses filmes que marcam e mudam para sempre a visão das coisas na arte do cinema. Darkman pegou as obscuridades que nos deu Tim Burton com Batman (1989) e potencializou toda a violência e crueldade lúdica que naquele momento não haviam sido ainda exploradas nos filmes de super-heróis ou heróis mascarados. Dois anos depois de Darkman, Raimi fecha sua trilogia de terror com Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3 (Evil Dead III: The Army of Darkness), um filme que difere um pouco dos anteriores, pois situa os acontecimentos fora da típica cabana do bosque e, além disso, viaja aos tempos medievais atrás do tenebroso livro Necronomicon, que foi fundamental em toda a trilogia. Em Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3, o humor negro está um pouco mais presente que nos anteriores, e o terror se soma à aventura. Vale dizer que, desde Darkman, Raimi se sentia pronto para sair da cabana e explorar novos caminhos. Com Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3 demonstrou que tudo estava dando muito certo. Assim, em 1995, lançou um filme produzido por Sharon Stone (a atriz também aparece como protagonista no filme). Trata-se de Rápida e Mortal (The Quick and the Dead), filme de cowboys que também conta, no elenco, com Gene Hackman, Leonardo DiCaprio e um praticamente desconhecido, à época, Russel Crowe. Como em tudo de Raimi, Rápida e Mortal resulta em um filme atípico que joga com os gêneros, neste caso com o western, no qual o pistoleiro – o herói – é, na verdade, uma mulher (Stone) que se inscreve em uma competição de duelos mortais, mas que, no fundo, chegou ao vilarejo dos cowboys em busca de vingança. Como em todos os seus filmes, Raimi demonstra habilidade com seus planos e movimentos de câmera, e oferece um novo olhar a um gênero tradicional no cinema norte-americano. Já neste momento, Raimi passou a ser considerado um diretor importante dentro dos gêneros aventura e terror, com um toque muito particular tanto em seu tratamento dos temas como em seu estilo de fotografar e mexer com as imagens. Em 1998, ele apresenta Um Plano Simples (A Simple Plan), um excelente filme sobre criminosos e pequenos vilões que nos lembra um pouco Fargo – Uma Comédia de Erros (1996), dos irmãos Cohen e depois, em 1999, nos surpreende negativamente com Por Amor (For Love of the Game), protagonizado, lamentavelmente, por Kevin Costner. Raimi parecia não estar mais nas graças de Hollywood, mas a tempo ele retoma as rédeas e sua dignidade e, em 1999, voa um pouco mais alto com O Dom da Premonição (The Gift), um filme sobre percepções extrasensoriais, protagonizado por Cate Blanchett, para depois, em 2000, aprofundar-se em seu projeto do Homem-Aranha, que chegou a três filmes. Como produtor, Raimi também não ficou para trás. Nos últimos anos, produziu muita coisa para televisão e tem sido presença constante por trás das versões norte-americanas dos filmes japoneses de terror que conhecemos como O Grito (The Grudge). Raimi, poderíamos dizer, foi pioneiro em levar as maravilhas do novo cinema de terror asiático ao conhecimento do grande público do ocidente.

Este mês, no Max, você poderá ver o primeiro filme que fez de Sam Raimi um diretor cult: A Morte do Demônio.

Em 1979, Raimi fundou a Renaissance Pictures junto com Robert Tapert e o ator Bruce Campbell, que seria o protagonista de seus primeiros filmes e de toda a trilogia The Evil Dead. Para financiar a produção de A Morte do Demônio, Raimi e seus sócios utilizaram como isca um filme de 30 minutos intitulado Within the Woods, era um argumento de vendas, um ponto de partida do que estava por vir, pois a história era muito parecida com o que seria o longa. Finalmente, Raimi consegue reunir o dinheiro, não mais que 375 mil dólares, e se lança na aventura. Na realidade, não sairia muito cara, pois todo o argumento se desenvolve em um bosque e dentro de uma cabana, dois elementos constantes que marcaram o imaginário dos fãs de Raimi até os dias de hoje, e com um poder tal na imaginação que se verão refletidos em homenagens e cópias grosseiras ao longo dos anos. Não é para menos, o bosque e a cabana sempre têm presença constante na imaginação dos homens; lembremos dos contos de fadas, das lendas medievais e dos contos populares de todas as partes do mundo. Fato é que Raimi agregou seus efeitos especiais (muito caseiros em um primeiro momento, mas respeitáveis) e, além disso, usou como "detonador" do terror o livro Necronomicon, o livro dos mortos, um texto maldito (imaginado por Lovercraft), que conhece o segredo da invocação dos mais terríveis demônios. As filmagens duraram três meses e foram realizadas em 16mm, não em 35mm, que é muito mais caro. Seu sucesso comercial foi tamanho, que no ano seguinte da estreia, Raimi já estava em Cannes, em Londres e no festival do cinema fantástico de Sitges. Trata-se de um filme violento, absolutamente gore (sangrento e violento), mas carregado, ao mesmo tempo, de uma tensão de dar medo e de uma originalidade no seu enfoque, que fazem dele um filme de grande destaque dentro do cinema B. Stephen King se referiu à produção como "o filme de terror mais original do ano". Raimi, simplesmente, estava dando o que o público pedia e que ninguém tinha conseguido entender inteiramente e misturar: terror, muito terror, muita violência gratuita, mas em uma nova dimensão sobrenatural, extrema, claustrofóbica e mitológica.

A Morte do Demônio, nesta quinta-feira, 3 de novembro, no Max.

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