Elas, história sensual e dramática estrelada por Juliette Binoche

por max 27. março 2014 04:14

 

Elas (Elles, 2011), de Malgorzata Szumowska, conta a história de Anne, interpretada por Juliette Binoche, uma mulher profissional, casada e que escreve para uma revista feminina sobre temas da atualidade, e que um dia decide escrever um artigo sobre prostituição. E é aí que conhecemos Lola (Anaïs Demoustier) e Alicja (Joanna Kulig), duas jovens garotas que se prostituem para pagar seus estudos. Estes dois mundos se juntarão e a fusão afetará a todas, mas em especial a Anne, que começará a mudar espiritualmente, a se sentir sentindo-se devastada pelos desejos que nunca antes havia sentido, nem deixado despertar. Nas figuras de Lola e Alicja, cabe dizer, você descobrirá uma realidade que sai do lugar comum da prostituição.

O mundo do negócio carnal que é mostrado não é necessariamente abismal, mas tenta ser objetivo: as garotas têm dinheiro, estão pagando seus estudos, têm roupas, seus luxos, nem todos os clientes querem sexo nem as maltratam. No entanto, também entendemos que o trabalho as afeta no plano amoroso, familiar e também inconsciente. Cada garota, isso sim, é diferente. Uma mais alegre, a outra mais tímida, uma é francesa, a outra estrangeira, e ambas enfrentam sua condição de maneira diferente.

Agora, apesar de que estas duas atrizes têm uma excelente atuação (Joanna Kulig ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Polish Films Awards), a maior profundidade dramática ficou por conta da grande Juliette Binoche, que vem desenvolvendo sua carreira desde os anos oitenta e já fez mais de cinquenta filmes. Sua carreira internacional começaria projetando-a como uma atriz bonita que iluminava as telas com sua inocência em filmes como A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being, 1988), filme de Philip Kaufman baseado no romance homônimo de Milan Kundera. No entanto, desde seus primeiros momentos, Binoche demonstrava que queria mais e, em 1992, interpretou um papel muito mais complexo em Perdas e Danos (Damage) de Louis Malle, onde ela não só mostrou seu lado dramático como também o sexual. Binoche também é conhecida por ser a primeira das garotas Kieslowski (as outras duas seriam Julie Delply e Irène Jacob) na trilogia das três cores, neste caso em A Liberdade É Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993). Pouco depois, em 1997, O Paciente Inglês (The English Patient, 1996) de Anthony Minghella, lhe deu o BAFTA e o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, além da indicação ao Globo de Ouro.

Juliette Binoche é, sem dúvida, uma das atrizes francesas mais importantes da atualidade e em Elas volta a comprovar sua capacidade para representar a paixão sexual e as confusões da alma. Elas é, definitivamente, um filme cru e sensual que lhe dá um olhar direto da mulher contemporânea, sem desprezos, sem poses e sem femininos panfletários.

Elas, este mês no Max.

 O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Oslo, 31 de Agosto, ou revisitar a cidade e reabilitar o espírito

por max 17. janeiro 2014 06:23

 

A reabilitação não só implica deixar as drogas e o álcool, mas também implica na sobriedade. A sobriedade de um dia de cada vez, essa batalha de se manter com algum resquício da mente em pé nos lugares que antes eram pesadelos. Não se trata só de não beber, não se drogar, é também manter o equilíbrio do espírito, o que significa realmente toda uma odisseia do dia a dia pelos lugares onde alguma vez se escreveram histórias dolorosas. Esse é o caminho que segue, por vinte e quatro horas, o filme Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August, 2011), do cineasta norueguês Joachim Trier.

Baseado no romance Fogo Fátuo (LeFeu Follet, 1931) do escritor francês Pierre Drieu La Rochelle (já existe uma adaptação cinematográfica do mesmo livro feita por Louis Malle, em 1963), o filme de Trier desenvolve o drama em um dia da vida de Anders (Anders Danielsen Lie), um homem de 30 anos que sai de um centro de reabilitação e segue para uma entrevista de trabalho. Mas esta saída de Anders é mais que uma busca por um emprego. Joachim Trier nos leva à intimidade de Anders, mas, como nos romances de Kakfa, por mais próximos que estejamos do personagem, este continua enigmático para nós. Anders acorda ao lado de uma mulher qualquer, depois ele sai, tenta se suicidar, e depois vai para a entrevista de emprego, fica com raiva, visita um amigo dos velhos tempos, vai a uma festa, conhece uma garota que, finalmente, parece estar interessada nele e não em seu passado. No entanto, a cada passo, Anders fica mais perto do risco da queda, e não podemos saber se conseguirá ou não, pois dele não sabemos nada, não o conhecemos. O que Anders quer? Talvez Anders esteja buscando uma forma de unidade. De falsa unidade de si mesmo. Quem era Anders? Talvez ele se pergunte quem ele era nesses lugares e quem é agora nesses mesmos lugares? É como se Anders estivesse atrás de seu rastro, como se estivesse tentando recolher os pedaços espalhados por toda a cidade de Oslo. Precisamos do passado e de seus lugares para nos completar, para nos entender, e Anders, nesse presente devastado da cura, parecia não ter um lugar no mundo. Toda escrita precisa de uma superfície e Anders escreveu sobre essa superfície, a cidade de Oslo, uma história que foi um inferno. Ao sair para explorar a cidade, é como se Anders estivesse pedindo perdão, como se tentasse recomeçar sobre as diferentes superfícies. É como se buscasse reconciliar-se, dialogar, fazer as pazes não só com ele mesmo, mas com a cidade.

Mas, como já dissemos, a escrita permanece sobre os espaços, sobre as diferentes superfícies. Sua folha de vida é uma delas. A entrevista de trabalho demonstra: ele é muito bom no que faz, mas tem um buraco em seu currículo, um período inativo em seu passado, e ele é perguntado sobre isso. Ele diz a verdade, ele lê o que está escrito, ele lê nessa escuridão onde fervem o álcool e as drogas, e se enfurece. Ele se enfurece porque compreende que dia a dia, a cada segundo, a escrita continuará presente. Até mesmo seu passado tentará lê-lo. Quem é este novo homem, que coisas novas está escrevendo? Poderia parecer alguém que continuava livre de seu peso social, um herói que continuou fiel à sua rebeldia, que se livrou das amarras do trabalho, do casamento, dos filhos. Assim ele é lido por algum personagem do passado. Mas Anders é esta leitura de outro? Ou é aquele que, sem o perdão da cidade e de si mesmo, tentou apagar a escrita com o suicídio? Anders está em pedaços, ou é feito dos pedaços de uma escrita que foi dispersada – como um louco, foi deixando rastros de uma escrita desesperada por todas as partes - e isso o enfurece. Cada um desses pedaços é um animal que o morde, que late para ele. A sobriedade, em um só dia, é um desafio cheio de riscos elevados. É possível se reencontrar e começar a escrever algo novo sobre as ruas de Oslo? É possível reescrever uma Oslo mais amável? Porque Oslo continua lá, um lugar cheio de belezas, de memórias. Há um amor nesse olhar para Oslo, amor pela cidade onde se encenaram pesadelos, um amor onde o céu parece se abrir como uma página em branco. Talvez este filme de Joachim Trier não fale de redenção, esse conceito muito religioso para ser verdade e que parecia ser muito tarde na história de Anders. Sem dúvida, a leitura e a reescrita do lugar parece ser uma possibilidade. Mas esse trajeto de um dia é cheio de perigos. Reescrever é perigoso porque reescrever, como sabemos, é revisitar. Oslo revisitada pode acolher ou devorar Anders. Revisitar e reabilitar, neste caso, parecem significar a mesma coisa.

Oslo, 31 de Agosto, sábado, 18 de janeiro, no Max.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

arquivos
 

nuvem