Divine, ou um simulacro perfeito

por max 17. novembro 2011 11:03

 

Divine é a Eva das drag queens do cinema. Ou seria o Adão das drag queens cinematográficas? Sim, sei que já existiu Frégoli. Leopoldo Frégoli, relojoeiro, fotógrafo, ator, cantor e pioneiro do cinema, cujo fregolígrafo foi sua versão italiana da invenção dos Lumière. Um homem polivalente, sem dúvida, tanto que se fez conhecer principalmente como o maior transformista de seu tempo, artista parateatral (que foi além do significado do teatro). Frégoli é assim, o avô de Divine. Parava em um cenário vestido de mulher, e entrava e saída vestido de outra mulher, e voltava a entrar e a sair vestido de outra, e assim por diante. Era um mago das transformações rápidas. A este tipo de ator conhecia-se como transformista. Divine também pode ser considerada um transformista, com a diferença que Divine é só um personagem, criado e interpretado pelo ator Garris Glenn Milstead. Isto diferencia uma drag queen do resto dos atores: a drag é um personagem com vida própria que, por sua vez, pode interpretar outros personagens. É o mesmo que dizer que Harris Glenn Milstead não atuava nos filmes de John Waters. Quem atuava nos filmes de Waters era Divine, e Divine, por sua vez, "encarnava" os personagens de Waters. Estes personagens, é importante apontar, eram simulacros da própria Divine. Harris, vizinho de Waters, amigo de Waters desde sua infância, desaparecia totalmente do panorama. Paradoxalmente, tratava-se de um jogo de espelhos, de um jogo de narcisismos, no qual o ator principal, Harris Glenn Milstead, se escondia com humildade para deixar espaço para o grande ego de Divine, simulacro e representação pura de Jean Baudrillard.

Para Baudrillard, os limites entre a realidade a representação (a arte é uma representação, por exemplo) se perdiam a todo o tempo. A arte não representa a realidade, senão a outras representações da realidade e, em certas ocasiões, representa a outras representações. Os personagens de Divine não faziam mais do que representar a Divine mesmo, que, por sua vez, era a representação de uma suposta diva gorda que não tinha existência e que era uma espécie de arquétipo de uma gorda divina e maléfica. Pensemos em uma atriz pornográfica e operada: ela é a representação de uma super mulher: super seios, super bunda, super pernas, super boca, super sexo. É uma mulher hiperreal, uma mulher que faz referência à outra mulher que não existe. O mesmo acontece com Divine, ela é hiperreal, e por não ter referentes reais, está no vácuo, é vazia. Waters, com sua estética camp, gender, kitsh e paródica fez de Divine outra de suas ferramentas para atacar a sociedade norte-americana. Divine é maquiagem exagerada, roupas exageradas, sobrancelhas exageradas, saltos altos, unhas, joias, tudo aquilo que se consegue num shopping center, mas transformado graças à colaboração Divine-Waters em metáforas de um imenso ato de consumo. Divine é a vida deliciosa que se embeleza com o mal gosto da sociedade. Paradoxo, mas assim é, a vanguarda pós-moderna é paradoxal, e Divine é contracultural na mesma medida em que é constituída pelos mais comuns elementos da cultura de massas. Assim, uma drag queen é um personagem preso na obsessão do glamour, um acessório consumista que acaba transformando em simulacro do bom gosto a quem se deixar pegar pela feliz obsessão. No caso de Divine, há um pensamento artístico que se traduz em crítica mas, ao mesmo tempo, delicia-se a si mesmo. Um espelho que se volta sobre o espelho, onde, ao final, sem dúvida, desaparece o verdadeiro sinal, o verdadeiro valor, o verdadeiro significado, e somente fica a representação, pronta para preencher-se pelas ideias dos outros, de outros personagens, de outras histórias que, talvez à sua vez, também careçam de significado.

Nesta quinta-feira, 17 de novembro, delicie-se –sim, deliciar é a palavra– com esse particular Ícone do Cinema que é Divine no filme Pink Flamingos, desse outro ícone do cinema que é John Waters. Descubra o Max.

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